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FCA deixará de fazer carros de passeio na Europa para focar em SUVs

Vitor Matsubara

Do UOL, em São Paulo (SP)

18/05/2018 16h11

Depois da Ford, é a vez da Fiat-Chrysler surfar forte a "onda SUV"

A FCA (Fiat-Chrysler Automobile) está prestes a tomar uma das decisões mais ousadas de sua história: o fim da produção de automóveis de passeio em alguns de seus principais mercados. Já em andamento nos Estados Unidos, a decisão agora deve envolver também a Europa. A FCA é formada pelas marcas Fiat (controladora), Chrysler (segundo nome da aliança), Jeep (marca com maior lucratividade e crescimento), RAM, Dodge, SRT e Mopar (fechando o lado americano), Alfa Romeo, Abarth, Maserati, Fiat Professional (do lado europeu), além de marcas de auto-peças. 

Já faz algum tempo meses que a decisão vem se desenhando em Detroit (sede do braço americano da aliança), com a aposentadoria forçada de modelos como Dodge  Dart e Chrysler 200, dois anos atrás, fora a falta de novidades sobre o Chrysler 300; agora a coisa toda ganha um peso maior, com ações envolvendo a Itália, berço da Fiat, marca que comanda o grupo atualmente.

Segundo informações da agência de notícias "Bloomberg", o anúncio será feito pelo CEO do grupo, Sergio Marchionne, no dia 1º de junho. Esta reunião, aliás, definirá o rumo de toda a companhia, em todos os mercados onde suas marcas atuam -- haverá novidades quentes inclusive para o Brasil, com Fiat, Jeep e RAM.

Marchionne, que está perto de se despedir do comando do grupo e da vida executiva, fará de tudo para anunciar decisões marcantes sobre a lucratividade no futuro da aliança. Esta será, certamente, mais uma das grandes decisões tomadas pelo executivo em 15 anos à frente da empresa italiana (quatro à frente da FCA).

Como a Ford mostrou em abril, o caminho do lucro pode estar no abandono total dos carros de passeio, focando em SUVs, esportivos e eletrificados.

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Como fica o futuro

Fontes ligadas à empresa afirmam que a fábrica de Turim e outra nos arredores de Nápoles serão readequadas para produzir novos SUVs das marcas Jeep e Maserati. Com a decisão, deixarão de ser fabricados os modelos Fiat Punto e Alfa Romeo Mito, abrindo espaço para modelos mais desejados pelo mercado. Já a linha de montagem do Panda será transferida para a Polônia -- este, aliás, pode deixar de ser um "altinho" com opção de tração 4x4 e se tornar um crossover de vez.

A decisão representaria a maior das reviravoltas sobretudo para a marca Fiat, empresa fundada em 1899 e que virou um dos símbolos do pós-Guerra na Itália, principalmente pela produção de veículos compactos e acessíveis até para os clientes menos endinheirados -- como o subcompacto Fiat 500.

A reestruturação da FCA é um dos capítulos mais importantes na estratégia de Marchionne de concentrar a produção de veículos premium na Europa Ocidental. O grupo não esconde de ninguém que a prioridade é turbinar as vendas da Jeep pelo mundo, enquanto lentamente inicia o processo de "eletrificação" de sua linha.

Além dos SUVs e crossovers, modelos híbridos e elétricos serão priorizados, em detrimento dos motores a diesel -- movimento já realizado por diversas marcas europeias, passo fundamental que a Volvo também reforçou esta semana.

Como a própria “Bloomberg” afirma, o futuro da FCA na Itália ainda não foi totalmente definido, já que alguns detalhes ainda podem ser alterados antes do primeiro dia de junho. Mas a empresa, que cortou suas dívidas praticamente pela metade no primeiro trimestre de 2018, obteve lucros maiores do que a Ford no mesmo período.

Falta ainda atingir o patamar de rendimentos da General Motors, algo que Marchionne pretende executar antes de deixar o comando da FCA.

Europa só com 500 e Panda

As mesmas fontes ouvidas pela reportagem afirmam que Marchionne (que se aposentará do cargo de CEO em 2019) não vê futuro na produção de veículos mais baratos em países europeus do "primeiro escalão", ou seja, que possuem poder aquisitivo para consumir modelos mais requintados e caros.

Assim, a produção do longevo Punto (descontinuado no Brasil em 2017) deve ser encerrada até o fim deste ano. O mesmo pode acontecer com o Alfa Romeo Mito na fábrica de Mirafiori, onde um novo SUV seria produzido ao lado do Levante -- que já é fabricado lá desde 2016.

O histórico complexo de Turim inaugurado pelo ditador Benito Mussolini, em 1939, chegou a empregar 50 mil pessoas em seu auge nos anos 70. A produção, que já chegou a ser de 600 mil veículos por ano, hoje não chega a 50 mil carros por ano.

Já a fábrica de Pomigliano, nos arredores de Nápoles, será responsável pela produção de um SUV compacto da Jeep menor do que o Renegade -- que também será feito no Brasil nos próximos anos. Em janeiro, Marchionne declarou que poderia dobrar seus lucros em cinco anos se explorar todo o potencial da marca Jeep.

A readequação da linha de montagem, porém, ocorrerá apenas quando a produção do Panda for transferida para Tychy, na Polônia, onde já é feito o 500.

Os dois compactos, aliás, devem ser os únicos remanescentes da linha de automóveis de passeio da Fiat na Europa.

O plano de transformar a FCA em um grupo vendedor de veículos premium começou em 2014, quando os italianos adquiriam o grupo Chrysler e tiveram acesso facilitado ao mercado dos Estados Unidos. Agora, deve ser ampliado com o enxugamento e a posterior reorganização da oferta de modelos na Europa. Marchionne admitiu recentemente que esse passo é fundamental para assegurar o futuro da empresa.

"Quando analiso o cenário econômico e vejo o retorno de nosso tempo investido e também o esforço para tornar nossas operações na Europa razoavelmente rentáveis, lembro que precisamos parar para pensar por que estamos tomando tais decisões. É um quebra-cabeça dos mais complexos", afirmou.

Murilo Góes/UOL
Da Fiat "de raiz", só 500 deve seguir em linha, mas deslocado para mercados emergentes Imagem: Murilo Góes/UOL

E o Brasil?

Curiosamente, a estratégia traçada pela FCA para a Itália (e toda a Europa) é completamente oposta à estabelecida para o Brasil -- um dos mercados mais rentáveis para a empresa no mundo. Por aqui, o novo presidente da FCA, Antonio Filosa, tem entre suas metas levar a FCA à liderança de mercado nacional em 2018/9 e retomar o primeiro lugar nacional de produtos da Fiat em 2020.

Para tanto, a empresa aposta no futuro dos modelos compactos no mercado brasileiro. Uma nova geração do Uno deve estrear no ano que vem, com plataforma MP1 do Argo e motores mais modernos da linha Firefly (1.0 e 1.3), com turbo. O Argo ganhará uma derivação aventureira e a nova geração da Strada está em estudos, conforme UOL Carros relatou anteriormente.

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