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Ele gosta tanto de carro elétrico que gastou R$ 250 mil para trazer um Bolt

Arquivo Pessoal
Eis o Chevrolet Bolt de Marcelo Souza: unidade "azul metálico Kinect" levou nove meses para vencer burocracia Imagem: Arquivo Pessoal

Alessandro Reis

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

18/05/2018 04h00

Conheça a saga de empresário fluminense para rodar com o modelo elétrico da Chevrolet testar o carro no Brasil

Você já viu que UOL Carros está contando histórias de quem que, apesar da falta de incentivos, falta de estrutura, falta de interesse de fabricantes e preços elevados de carros e de acessórios minimamente acessíveis, resolveu colocar um modelo elétrico na garagem. Na última semana, mostramos quanto esses "pioneiros" gastam de conta de luz para abastecer os carros elétricos e um nos surpreendeu demais o caso do empresário que roda com um Chevrolet Bolt.

Nosso espanto tem motivação: ele já tinha comprado um antes da própria General Motors do Brasil se interessar em testar um exemplar no país. Então, é hora de conhecer um pouco mais sobre esse entusiasta dos carros elétricos. 

Nove meses de espera

Sem qualquer mãozinha da GM local, o empresário Marcelo Dejon Souza decidiu importar o carro de forma independente, sabendo que arcaria com custos altos do trâmite alfandegário, uma boa dose de burocracia e a convivência com infraestrutura inadequada tanto no uso diário (recarga), quanto no momento de algum reparo (não há cobertura de garantia da fabricante por aqui). Fora a General Motors, que nesse momento tem unidades de teste rodando, ele é único dono de Bolt no país disposto a falar sobre sua "saga".

Já falamos muito do Bolt por aqui: carro mais importante da marca Chevrolet no momento atual (globalmente falando), pode rodar cerca de 400 km com uma carga completa, bastante espaço interno, visual estiloso, equipamento de ponta e um futuro todo pela frente, mesmo na América do Sul e no Brasil -- a GM estuda produção local para breve, se houver vontade política. Até que algo oficial se concretize, só é possível considerar um preço, o valor de venda nos EUA: de US$ 36 mil a US$ 42 mil (entre R$ 130 e R$ 170 mil na conversão direta), sem contar alguns incentivos ainda existentes em alguns estados daquele país.

Mas segundo o relato de Souza, trazer por conta custou bem mais: cerca de R$ 250 mil para trazer seu Bolt Premier, incluindo aí o preço do carro propriamente dito e a contratação dos serviços da importadora Direct Imports , que tratou do desembaraço aduaneiro. O carro foi entregue em novembro de 2017, após nove meses de negociação, praticamente uma gestação.

R$ 50 mil foram gastos com impostos e tributos de entrada e outros R$ 20 mil pelos serviços da importadora. Por ser elétrico, o carro veio com isenção dos 35% do Imposto de Importação, mas recolheu 25% de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), taxa que no futuro pode cair para 7%, se o anúncio do "Rota 2030" for feito incluindo incentivos tão esperados para o nicho.

"Foi bem complicado. Um mês e meio após a encomenda, o Bolt já estava no Porto de Santos (SP). Todo o restante do tempo foi necessário para o processo de registro do carro no Brasil, especificamente no Denatran. O carro não era listado nem na tabela Fipe, até pensei que a GM já tinha registrado, mas não foi o caso", conta o empresário.

Arquivo Pessoal
Souza não é novato com "verdes": tem patinete elétrico, SUV híbrido e já teve um Ford Fusion Imagem: Arquivo Pessoal

Sem saber que era impossível...

Foi exatamente o que você leu. Como se adiantou à própria GM, Souza teve de praticamente homologar o Bolt para rodar no país junto ao Departamento Nacional de Trânsito. Um dos principais entraves para o registro do Bolt foi o fato de ele não ter numeração do motor a combustão -- afinal, é um modelo totalmente elétrico. Essa é uma das barreiras da falta de regulamentação de elétricos pelos órgãos oficiais em nosso país.

"O órgão de trânsito alegava que não podia fazer o registro porque faltava o serial do motor", relata. "Tive de contratar advogado e abrir um procedimento para informar o número do chassi no campo da numeração do motor no documento do veículo. Agora, quem também quiser importar não vai ter de passar por tudo isso, pois o registro já está feito. Fui o primeiro", atesta Souza.

Não acabou aí: depois de feito o registro, o Bolt passou por vistoria no Detran-SP para ser emplacado na cidade de São Paulo, apesar de o empresário morar em Petrópolis (RJ), uma vez que o veículo desembarcou do exterior no estado paulista. Claro, isso significou nova despesa: "Se emplacasse no Rio, pagaria bem menos IPVA [no RJ, alíquota é de 0,5% do valor venal para elétricos, contra 3% em SP]", aponta Souza, que diz ter gasto aproximadamente R$ 7 mil com o imposto.

Souza poderia requisitar à Prefeitura de São Paulo, cidade de registro do emplacamento, reembolso de 40% do tributo, mas não teve direito ao benefício pelo fato do Bolt ter custado mais que o teto de R$ 150 mil do benefício. O Bolt acabou avaliado em R$ 180 mil pela seguradora Porto Seguro. "Foi a única [empresa] com a qual consegui aprovar a cobertura, já que fazem também para o BMW i3. Gastei aproximadamente R$ 5,8 mil com o seguro".

E a manutenção?

Por não poder contar com garantia da Chevrolet no Brasil, Souza admite que terá problemas se o carro apresentar algum defeito grave, especialmente nas baterias, que têm cobertura de oito anos nos EUA.

"Se der um problema importante, teria de mandar o carro de volta aos Estados Unidos. Já perdi uma atualização do software, que só pode ser feita lá fora, sei que assumi o risco", admite.

Apesar do temor com eventuais panes, o empresário não se diz muito preocupado com a manutenção. "Consultei conhecidos que trabalham na GM e descobri que o Bolt compartilha vários componentes com outros modelos da Chevrolet. As pastilhas de freio, por exemplo, são do Tracker, peças como a bieleta, do Cruze. Os pneus são de medida normal 213/50, que posso comprar em qualquer lugar quando precisar. Além disso, por não ter motor a combustão, o plano de manutenção é muito mais simples e acessível. A primeira manutenção significativa é a troca do líquido de arrefecimento das baterias, um componente que custa cerca de US$ 20 e precisa ser trocado nas primeiras 100 mil milhas rodadas [cerca de 160 mil km rodados]", destaca.

Também há esperança de poder contar com estrutura e pessoal treinado na rede autorizada para manutenção e reparos, mesmo sem garantia, se e quando a GM iniciar um programa oficial de vendas na região. Questionada a respeito dessa possibilidade, porém, a GM limitou-se a responder que "a General Motors do Brasil não comercializa atualmente esse produto no território nacional".

Mesmo assim, Souza sem diz bem satisfeito com a compra. Ele não é um novato no mundo dos carros "verdes", afinal. Já teve um sedã Ford Fusion Hybrid e o outro modelo de sua garagem é um SUV híbrido plug-in, o Mitsubishi Outlander PHEV. "Sou bastante ligado na questão ambiental e na eficiência energética. Tinha um Ford Fusion Hybrid, mas queria poder rodar mais no modo totalmente elétrico [limitado a cerca de 30 km]. Em 2015, comprei um Mitsubishi Outlander PHEV com recarga na tomada e maior alcance. Daí o passo seguinte foi um carro totalmente elétrico e preferi o Bolt por conta da grande autonomia e do preço mais acessível na comparação com um Tesla, por exemplo".

Cotidiano

O empresário roda com seu Bolt em viagens regulares entre Petrópolis e Juiz de Fora (MG) onde tem um negócio, circuito de cerca de 130 km, sem precisar parar para recarregar fora de casa. Na garagem, tem um carregador semirrápido instalado, além de estrutura de células fotovoltaicas para geração de energia elétrica a partir da luz do sol. Com essa estrutura, aponta o empresário, o tempo para recarga completa é de cerca de oito horas.

Quanto à performance, Souza considera estar mais do que satisfeito: "O Bolt acelera bem, tem performance nota mil, de carro esportivo. Além disso, tem a autonomia que eu preciso, sem emitir poluentes e com interior bem espaçoso, com assoalho plano e cheio de porta-trecos".

Ele destaca ainda a capacidade de dirigir apenas com um pedal ("não uso os freios porque o carro trava sozinho ao tirar o pé do acelerador, como parte do sistema de aproveitamento da energia para recarga das baterias", o efeito do "freio motor" por botão no volante e a tecnológica de conforto ("recarga de celular sem fio, câmera de ré integrada ao retrovisor e sistema de monitoramento multicâmera para manobras de estacionamento").

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