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Mão na roda

Dá para comprar carro blindado de fábrica no Brasil? Opções são escassas

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X5 Security apresentado crivado de balas pela própria BMW... para o mercado europeu, sobretudo o russo Imagem: Divulgação

Eugênio Augusto Brito

Do UOL, em São Paulo (SP)

18/04/2018 14h00

Maior mercado de blindados do mundo convive com serviço "terceirizado". Burocracia do Exército é citada como entrave

O Brasil tem o maior mercado de carros blindados da atualidade: foram cerca de 16 mil emplacamentos de automóveis com proteção balística em 2017, segundo dados do Exército. O México, segundo mercado mundial, emplacou menos da metade disso, 7 mil veículos. Em 2018, esse segmento espera entregar mais 20 mil unidades reforçadas, alta de 25%. Ainda assim, se o consumidor quiser colocar um modelo blindado de fábrica na garagem terá uma única opção. E mesmo se buscar opções autorizadas pelas fabricantes, poderá contar nos dedos o total de empresas.

Segundo Marcelo Christiansen, presidente da Abrablin (Associação Brasileira de Blindagem), o Brasil tem 200 blindadoras ativas, 32 delas afiliadas à associação. Pelas contas do Exército, são 400 empresas registradas para fazer esse tipo de serviço. Mas quando restringimos a busca a opções certificadas pelas fabricantes esse "universo" se encolhe drasticamente: a Land Rover tem quatro blindadoras homologadas no Brasil; a BMW trabalha com duas empresas certificadas; a Volkswagen é a única das marcas generalistas a certificar uma empresa (a Inbra). Mercedes-Benz, Porsche e Volvo, por exemplo, não trabalham como empresas homologadas. A Audi também não, mas traz o único modelo blindado de fábrica disponível no mercado nacional neste momento, o Q5 -- o SUV chega por importação do México.

Mas por que as opções de blindagem de fábrica ou homologada pela fábrica são escassas no país que mais blinda carros no mundo? Segundo fontes ligadas às marcas ouvidas por UOL Carros, a resposta surge em parte pela política global das próprias fabricantes em entender qual o uso correto de um veículo blindado. E, de forma mais específica, pela burocracia do Exército, que acaba elevando custos e prazos para se vencer este obstáculo. No fim das contas, é mais barato ter um carro blindado após a saída da linha de montagem do que trazer um blindado desde o projeto.

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Blindagem de fábrica tem vantagem?

Ter um modelo blindado diretamente pelo fabricante garante o funcionamento perfeito do veículo -- estamos falando aqui do aproveitamento total de potência, bem como do funcionamento correto dos equipamentos ativos e passivos de segurança, de conforto e de tecnologia (cada vez mais sofisticados sobretudo em modelos de luxo) --, bem como do uso integral dos termos da garantia do carro. É o caso da Audi e seu Q5 mexicano, que serve inclusive de "case" de marketin -- a marca alega que o modelo é pioneiro na blindagem de fábrica e aponta que o Brasil foi o primeiro mercado mundial a recebê-lo.

Para ter um, porém, é preciso pagar mais de R$ 350 mil (salientando que o nível de equipamentos é o da versão intermediária do SUV), enquanto a versão mais equipada, mas sem blindagem, custa R$ pouco menos de R$ 300 mil. A proteção é do tipo III-A, a mas comum no Brasil (95% do mercado), resistente a armas de mão de todos os calibres, como pistolas 9 milímetros ou Magnum 44.

"A burocracia do Exército deixa todo o projeto mais caro e também mais demorado. Por isso as fabricantes acabam não optando por trazer modelos blindados de fábrica. Há outros motivos específicos, mas o principal acaba sendo este. Sai mais barato e é mais rápido fazer o processo de homologação de empresas locais, o serviço é feito dentro das especificações, a garantia é mantida e todos ficam satisfeitos", aponta uma fonte ligada às fabricantes. 

No caso da homologação, empresas autorizadas recebem certificação após comprovarem que podem fazer um serviço de blindagem que atende aos extensos requisitos da fabricante, garantindo um excelente nível de proteção e o uso total da garantia. O serviço pode ser feito "on demand", com o cliente encomendando um carro na loja e esta unidade recebendo a blindagem logo após a linha de montagem, ainda dentro do complexo fabril -- no caso de fábricas brasileiras, é o caso específico da BMW, por exemplo, em modelos como o sedã Série 3 e os SUVs X1 (segundo modelo mais blindado do Brasil) e X3.

Produzidos em Araquari (SC), os dois modelos podem receber a blindagem logo após a fabricação. "O serviço é feito pelas empresas parceiras Autostar Blindados e Blindarte, ambas certificadas pelo BMW Group Brasil, de acordo com os padrões de qualidade adotados globalmente", afirma João veloso, gerente de comunicação da fabricante alemã.

De acordo com outro gerente da BMW, Carsten Schwarz, de pesquisa e desenvolvimento, "O trabalho junto aos parceiros garante que o cliente não apenas obtenha uma proteção balística da melhor forma possível, mas também que a qualidade do veículo, a dirigibilidade e o prazer de conduzir não sejam alterados".

Foi a BMW a primeira marca de luxo a trazer modelos blindados de fábrica no país, como o sedã Série 5 e o SUV X5 da linha Security, também com proteção III-A, antes do começo do século 21 e na primeira década deste. A oferta, porém, foi substituída pelos modelos com blindagem por empresas locais homologadas. No resto do mundo, a empresa oferece blindados de fábrica resistentes a tiros de fuzil AK-47, na linha Security Plus, muito procurados na Rússia, por exemplo.

Voltando ao Brasil, a homologação também pode ser feita após a compra na loja, com a unidade desejada sendo levada à oficina para receber a proteção balística após desmontagem parcial. Pode parecer similar à blindagem terceirizada, mas ainda assim respeita-se o projeto original de fábrica, o que mantém a garantia.

"Temos uma lista de quatro blindadoras certificadas. Se o cliente optar por usar na hora da compra tem garantia de fábrica estendida para o serviço da blindadora. Se o cliente usar outra marca, perde a garantia da fábrica para o veículo", explica Fernando Moraes, chefe da comunicação da Jaguar Land Rover do Brasil.

No país, o grupo Jaguar Land Rover autoriza as empresas Autostar, Carbon, Fórmula e Guardian a realizar a blindagem homologada. No exterior, porém, a blindagem de fábrica é oferecida a clientes de alguns mercados específicos, sob demanda especial. "São poucos os países onde a marca oferece a blindagem de fábrica, sendo praticamente um pedido de 'customização' do veículo para locais e motivos especiais", conclui Moraes.

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Blindagem máxima permitida no Brasil a consumidores civis é do nível III-A, resistente a tiros de pistola 9 mm e Magnum .44; no exterior, a proteção neste caso pode subir para incluir tiros de fuzil, dependendo do mercado; há ainda proteção até contra explosões, mas em modelos dedicados a chefes-de-Estado Imagem: Divulgação

Outro nível de proteção

Mercedes-Benz e Volvo não oferecem opção de fábrica, nem homologam empresas locais. No exterior, a Mercedes tem modelos como o sedã de alto luxo Classe S Guard, com proteção que pode resistir até a explosões de bomba sob ou próxima à carroceria. A Volvo vai oferecer o sedã S60 de nova geração com proteção de fábrica também, em nível de resistência similar.

Ambas, porém, enxergam este tipo de blindagem como destinada a chefes-de-Estado, presidente de megacorporações globais, membros de organizações ligadas à proteção ou a altas cortes do judiciário. Com isso, o preço destes modelos é elevado, chegando a triplicar em relação ao modelo comum. E a lista de potenciais compradores é reduzidíssima, ficando bem distante do nosso mercado. 

"A Volvo enxerga este mercado como sendo de proteção a presidentes de países ou pessoas em funções sociais semelhantes. Esse é o público de modelos como o nosso novo S60, que terá uma linha blindada de alta performance. E embora o carro venha ao Brasil, não o será nessa configuração", aponta o gerente de produto André Basseto. 

Assim, seja por escolha do comprador, seja por indicação da concessionária onde a venda foi feita, boa parte do mercado brasileiro de blindagem acaba sendo viabilizado por empresas terceirizadas, que acabam sendo especialistas em trabalhos multi-marcas. Não há garantia de que o modelo vá funcionar como deveria (novamente, em termos de equipamentos de conforto, segurança para impactos e tecnologia), bem como nenhuma obrigação da fabricante em seguir oferecendo a garantia do veículo, uma vez que este teve suas características originais alteradas. 

Ainda assim, esse é o tipo de serviço mais feito no Brasil -- no total, a frota de modelos blindados no país já gira em torno de 200 mil veículos. Por conta da escala do mercado, existem casos em que a concessionária ou mesmo a fabricante acabam aceitando manter a garantia, garantindo a fidelidade do cliente.

"Falando não apenas da blindagem em si, mas como o manual do carro aponta, de qualquer alteração que não seja feita de forma oficial, numa concessionária ou autorizada pelo fabricante, a garantia se perde. É claro que existe a análise caso a caso, porque o Brasil é o maior mercado de blindados do mundo. Pelo tamanho do nosso mercado, a importância da blindagem e as características do mercado para todas as marcas que não oferecem blindagem de fábrica, o concessionário vai analisar a situação, a ocorrência e determinar [se manterá a garantia de fábrica]", salienta Rodrigo Soares, gerente de comunicação corporativa da Porsche do Brasil.

No caso da marca alemã de supercarros, os SUVs respondem por 30% do total de entregas no Brasil, sendo que 99% destes utilitários são blindados a pedido dos clientes. As rivais também têm números semelhantes. 

Com tamanho potencial, fica inviável não oferecer suporte, incluindo a manutenção da garantia de fábrica, mesmo que o risco seja dividido com a rede concessionária. 

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