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Cultura do carro

Neto do criador da Lamborghini aposta em micro-carros e smartphones

Leonardo Felix

Do UOL, em São Paulo (SP)

17/04/2018 13h15

Ferruccio Lamborghini leva nome do avô e veio ao Brasil a negócios, onde teve um único momento pessoal: a visita ao túmulo de Senna

É de se imaginar que um neto de Ferruccio Lamborghini, fundador da lendária marca de supercarros, tenha apreço por superesportivos e orgulho da história construída pela família. Ainda mais se carregar o mesmo nome do avô. Ferruccio Lamborghini, o neto (e irmão da celebridade Elettra Lamborghini), não nega as origens.

Mas quando se fala em negócios, ele faz de tudo para deixar claro que as empresas que comanda nada têm a ver com a companhia especializada em superesportivos criada pelo avô nos anos 1960 -- e atualmente nas mãos do Grupo Volkswagen. Seu forte é chefiar marcas especializadas em artigos de luxo (relógios, acessórios, roupas, perfumes e vinhos), smartphones e, claro, veículos, só que falamos aqui de automóveis pequenos, urbanos e elétricos.

Surpreendentemente novo para suas atribuições -- ele tem 26 anos --, Ferruccio-neto sabe que teve sorte tremenda de nascer em berço abastado, mas demonstra vontade e disposição de levar adiante o espírito empreendedor familiar. E foi isso que o trouxe pela primeira vez ao Brasil, na última semana, para uma visita de cinco dias, agenda que incluiu um bate-papo com UOL Carros.

Estavam também na programação de negócios: promover a série "Automotive Histories" (disponível nas plataformas NET Now, Vivo Play, Looke, Amazon Prime), produzida por brasileiros e que, no primeiro episódio, conta justamente a história da Lamborghini; dar uma palestra a outros empresários na sede da Fiesp, em São Paulo; fazer, por fim, um reconhecimento de nosso mercado.

Confira o que ele falou sobre os negócios, quais de seus produtos chegarão ao Brasil, o único e inusitado momento de turismo que viveu em São Paulo e, claro, qual seu modelo preferido dentre os ícones produzidos pela marca de carros criada pelo avô.

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UOL Carros - É sua primeira vez no Brasil, certo?

Ferrucio Lamborghini – Sim, é minha primeira vez!

UOL - O que achou do país e o que mais te chamou a atenção em São Paulo?

FL – É uma viagem bem curta, apenas cinco dias, e nesse período não foi possível conhecer todas as belezas do país, nem de São Paulo. Mas posso dizer que curti cada minuto que passei aqui, desde as paisagens até a comida, passando pelas pessoas. Me senti muito bem acolhido e tudo pareceu bonito. Infelizmente estou aqui a trabalho, então passei a viagem toda praticamente me deslocando de um ponto a outro, mas aproveitei ao máximo o tempo dentro do carro para ver as paisagens da janela.

Pelo menos, tenho a honra de dizer que tirei meu único momento livre para ir ao cemitério do Morumbi conhecer o túmulo e fazer uma oração ao meu grande ídolo, Ayrton Senna. Esse foi o único local que visitei de verdade, sem ter nada relacionado a trabalho. Me senti honrado por poder prestar agradecimentos a meu ídolo.

UOL – Você deve conhecer essa história: Ayrton Senna teve oportunidade de pilotar um McLaren de F-1 com motor Lamborghini no final de 1993. Você se lembra dessa experiência? Seu pai [Tonino Lamborghini] chegou a comentar algo com você, mesmo já não tendo mais participação na Lamborghini?

FL – Você está certo [eu conheço a história], mas eu tinha só dois anos na época e, como você disse, meu pai e também meu avô não estavam mais envolvidos nas atividades da Lamborghini. O que posso dizer é: quando eu iria imaginar, ao crescer, que Ayrton se tornaria meu ídolo e também teria pilotado um carro de F-1 com motor Lamborghini? Isso me faz sentir que tive uma conexão, mesmo que muito, muito pequena, com ele. Gostaria muito de ter estado lá para acompanhar [o teste], mas era muito jovem... Talvez numa outra vida [risos].

UOL – Acredito que você já tenha tido a experiência de dirigir alguns dos supercarros da Lamborghini, certo? Qual deles é o seu preferido?

FL – Sim, sim. Com certeza [risos]! Ah, o Miura! É um carro especial para mim, para minha família e também para a história da indústria automotiva mundial. É, com certeza, uma joia mecânica, um diamante. Tudo naquele carro é muito particular e único. Quando você dirige um Miura, sai do carro pensando: 'Meu Deus, como foi possível criar isso em 1966?’.

É um prazer muito grande dirigir esse carro. Claro que não é fácil, porque é um típico carro da velha guarda, mas é o modelo mais importante [da Lamborghini] e também o mais legal.

Nota do editor: projetado por engenheiros da Lamborghini durante horários de folga e contra a vontade de Ferruccio-avô, o Miura logo caiu nas graças do chefão da companhia, que decidiu bancar sua produção. Em pouco tempo se tornou o primeiro cupê de dois lugares com motor central-traseiro e tração traseira a fazer sucesso no mundo, iniciando um conceito de superesportivo que se tornaria padrão até os dias de hoje. O Miura teve, portanto, papel decisivo para transformar a Lamborghini numa marca icônica, o que explica Ferruccio-neto o chamar de "mais importante" da história da marca.

Getty Images
Ferrucio-avô e duas de suas máquinas: o cupê Jarama e um trator Imagem: Getty Images

UOL – Que ótima escolha! Acho que não esperava outra [risos]. Ainda falando sobre a companhia fundada pelo seu avô, muita gente pensa que ele só criou carros esportivos, mas sabemos que não é verdade. Ele começou produzindo tratores. Já seu pai resolveu investir em mini-carros. Agora você está investindo em elétricos também. Para você, qual será o futuro do automóvel? Por que sua empresa está apostando em elétricos e quais soluções vocês propõem para o futuro?

FL – Você está certo. Todos conhecem os carros, mas tudo começou com tratores. A segunda companhia do meu avô produzia sistemas de refrigeração e só aí veio a fabricante de carros. Ele teve ainda uma quarta, focada em sistemas hidráulicos, e uma quinta, que é uma vinícola no interior da Itália.

Meu pai herdou esse espírito empreendedor e ingressou no ramo de acessórios, relógios e vestuário de luxo, e isso se tornou uma extensão muito forte da marca Tonino Lamborghini. E, em 1998, sob a marca Town Life, iniciou um negócio de micro-carros, que à época eram movidos basicamente a gasolina ou diesel, porque na Itália não havia ainda infraestrutura para veículos elétricos.

Hoje, os carros elétricos certamente representam o futuro, e todo mundo está falando sobre isso: pessoas, governos, grandes grupos da indústria automotiva. Portanto, estamos em meio a uma mudança de era, que levará algum tempo para ser concluída, mas tenho certeza de que não tanto tempo assim. Seguindo nosso espírito empreendedor, de aceitar desafios em novas ideias e novos campos, estou cuidando pessoalmente da reformulação da marca Town Life, e não só dela.

Recentemente comecei a colaborar com uma empresa sul-coreana e, juntos, apresentamos um novo scooter da Iso Moto em duas versões: elétrico ou a gasolina. Também iniciamos o desenvolvimento de um novo micro-carro, mas não estou focado apenas no mercado asiático e, por isso, estou aqui no Brasil.

UOL – Você acredita que o Brasil tem espaço para veículos elétricos?

FL – Sim. Ultimamente o governo de seu país tem adotado um posicionamento mais forte a respeito com o "Rota 2030" [N.E.: o novo programa federal está quase um ano atrasado], mas isso não acontece só no Brasil. A Índia e vários outros países ao redor do mundo têm adotado prazos e metas para adoção de veículos elétricos. Demonstrar interesse é o primeiro passo, sem dúvida alguma.

Só que, como você disse, há muito trabalho a fazer e não só no Brasil. Mesmo em países da Europa e da Ásia há muitas mudanças necessárias para se alterar o paradigma [dos carros a combustão]. Em minha humilde opinião, se continuarmos pensando que basta fazer a troca do motor a combustão por um sistema elétrico, sem mudar mais nada em nossos hábitos, ambientes etc, a coisa não vai funcionar.

Precisamos transformar muito do ambiente das cidades, das infraestruturas e, claro, dos conceitos ligados aos novos produtos e da experiência de condução que os veículos elétricos podem proporcionar. Se isso acontecer, então o caminho será muito mais rápido e suave.

UOL – Quando poderemos ver esses novos veículos, tanto o scooter quanto o micro-carro, nas ruas? Pergunto globalmente, já que sabemos que as chances aqui no Brasil são bem pequenas.

FL - Na Ásia, começaremos a produção em série do scooter em junho deste ano, portanto ele estará pronto para o mercado entre agosto e setembro. Em relação ao micro-carro, estamos ainda fazendo nossa 'lição de casa' e nossa expectativa é lança-lo no final de 2019, no máximo, no começo de 2020.

UOL - Falando sobre os outros produtos da Tonino Lamborghini, como os acessórios de luxo que você mencionou e até celulares inteligentes, quais deles podemos esperar no mercado brasileiro num futuro próximo?

FL - O mercado brasileiro é bastante novo para nós, então não temos ainda nenhum produto disponível, mas é por isso que estou aqui! Para coletar informações e ideias. E aí, ao juntar tudo isso com as ideias que eu, meus colegas e minha equipe de profissionais já temos, ingressar no seu mercado. Nos próximos quatro meses vamos lançar nosso primeiro produto, que ainda não posso dizer qual é [risos], mas creio que, num futuro próximo, haverá bastante espaço para estabelecer nossa marca especialmente no mercado de relógios e smartphones.

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