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Mulheres ganham até 34% a menos do que homens na indústria automotiva

Divulgação
Ana Theresa Borsari foi a primeira mulher a assumir uma operação da Peugeot no mundo Imagem: Divulgação

Vitor Matsubara

Do UOL, em São Paulo (SP)

08/03/2018 04h00

Pesquisa indica maior presença feminina no setor, mas evidencia desigualdades na participação em posições de liderança

As mulheres ganham um salário até 33,8% menor do que os homens em cargos na indústria automotiva. Esta é uma das revelações da pesquisa Presença Feminina no Setor Automotivo, realizada pelo site Automotive Business em parceria com a MHD Consultoria.

O levantamento aponta que a disparidade salarial ocorre em todos os cargos, intensificando-se nas posições mais altas. A remuneração para estagiárias é 0,8% menor em relação aos colegas do sexo masculino, sendo 2,5% abaixo em cargos de gerência e 7,7% em diretoria. Vale lembrar que a Organização Internacional do Trabalho (OIT) indica que as mulheres recebem 16% a menos do que os homens globalmente.

Fizeram parte da pesquisa fabricantes de autopeças e montadoras de veículos, além de fornecedores de insumos e de serviços. Foram coletadas 127 respostas em um universo de 500 empresas, com foco em responsáveis pelas áreas de recursos humanos das empresas ligadas ao setor automotivo.

Os resultados obtidos em 2017 foram comparados com os mesmos números de 2013, quando a indústria estava longe do momento de crise atual.

Neste período, aliás, houve aumento na participação de mulheres no quadro de colaboradores, passando de 15% para 17%. Além disso, a participação feminina em cargos de liderança das empresas entrevistadas teve um considerável crescimento de 52,7%.

Elas no comando: cena rara

Mas engana-se quem pensa que a situação ficou menos desigual. Entre as empresas entrevistadas, 83% dos cargos da indústria são ocupados por homens, apenas 40% possuem mulheres em cargos de diretoria e somente 13% contam com profissionais do sexo feminino em posições de comando.

Traduzindo em números, são 84 mulheres diretoras e 17 em cargos de vice-presidência e presidência.

A situação fica ainda pior quando analisamos a presença feminina no quadro geral de funcionários das companhias que participaram do estudo: só 0,6% dos trabalhadores são mulheres em cargos de comando. Trata-se de um número ínfimo se lembrarmos que uma grande empresa possui de 3% a 5% de seus colaboradores em posições de liderança.

"Os dados da pesquisa não explicam por que houve redução maior no número de funcionários homens. Mas os salários, em geral, mais baixos pagos às mulheres podem ter garantido certa proteção aos seus empregos nesse período de contração do mercado", afirma Paula Braga, diretora de Automotive Business e líder do projeto Presença Feminina no Setor Automotivo.

Mais qualificadas

Apesar da presença predominantemente masculina no setor, as mulheres são mais escolarizadas que os homens. Das empresas participantes do estudo, 37% das funcionárias tem ensino superior completo e 8% acumulam algum tipo de especialização. Entre os homens, apenas 23% têm ensino superior e só 6% fizeram um curso de especialização.

A longevidade masculina é maior, com 53% do total de homens na faixa etária entre 31 e 45 anos e 21% acima de 46 anos. Entre as mulheres, 48% têm entre 31 e 45 anos e 11% das colaboradoras das empresas entrevistadas possuem mais de 46 anos de idade.

Paula afirma que os números apresentados na pesquisa indicam maior presença feminina no setor automotivo, mas muito longe da realidade de uma sociedade que reivindica cada vez direitos iguais entre gêneros.

"O estudo mostra avanços consistentes da mulher, mas também evidencia desigualdades. As empresas precisam se conscientizar de que há um mar de oportunidades para melhorar a diversidade de gênero, tornando os negócios no setor mais plurais e, consequentemente, mais lucrativos".

Ela chegou lá

Em meio a uma indústria dominada por homens, uma das raras exceções é Ana Theresa Borsari, diretora geral da Peugeot no Brasil -- não só a primeira mulher como a primeira brasileira a comandar a marca no país. E foi durante uma entrevista à UOL Economia que ela deu um conselho para as mulheres que querem crescer na indústria automotiva.

"Entrei na Peugeot há quase 25 anos e dirigi praticamente todas as áreas da empresa antes de ter um percurso internacional. Nunca uma mulher havia sido presidente da operação de um país na Peugeot -- e nunca na história da marca no mundo. Conversei com o diretor mundial na época e disse: 'Faz dez anos que dirijo todas as áreas da empresa, estou pronta e quero assumir a presidência de um país'. Foi só fazendo isso que tive a oportunidade de ser a primeira mulher no mundo na Peugeot a assumir a presidência da operação de um país [na Eslovênia]. Então, não existe outra maneira de chegar lá que não seja, sim, executando bom resultado, mas expondo sua ambição de um modo mais objetivo".

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