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Cultura do carro

Dá para ir até a China de carro? Casal brasileiro foi e conta a história

Arquivo pessoal
Amandio Palhares e Joselle Pinheiro com uma Chevrolet S10 na China Imagem: Arquivo pessoal

Leonardo Felix

Do UOL, em São Paulo (SP)

04/03/2018 04h00

Joselle Pinheiro e Amandio Palhares vivem sonho de "dar a volta ao mundo" em uma pequena casa sobre rodas

Amandio Palhares e Joselle Pinheiro parecem ter uma vida comum. São casados faz 23 anos, têm dois filhos e há 11 anos comandam um restaurante em Goiânia (GO). Desde 2007, porém, a rotina dos dois foge bastante do habitual. Sempre a bordo de uma "casa sobre rodas" -- no caso, uma picape com caçamba adaptada --, ambos já viajaram 175 mil quilômetros passando por cinco continentes/subcontinentes: América do Sul, América Central, América do Norte, Ásia e Oceania.

"Era um sonho antigo, de mais de 15 anos. Sempre gostava de viajar, mas não tinha tempo. Um dia levei uma moto que tinha para fazer manutenção e, na oficina, encontrei um rapaz que estava preparando a moto dele para fazer uma viagem até os Estados Unidos. Aquilo me inspirou muito", conta Amandio.

A ideia foi compartilhada com a esposa no mesmo dia, mas ficou praticamente "adormecida". Até que, em 2007, ambos tomaram coragem de fazer um percurso de 13 mil quilômetros até a Patagônia (Chile) a bordo de uma Toyota Hilux. "Escolhemos ir no verão porque seria mais fácil e seguro". O sucesso da expedição os motivou a fazer outra de 16 mil km em 2009, agora no inverno: Machu Picchu (Peru), também de Hilux.

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O sonho do Alaska

O casal quis, então, concretizar o sonho despertado pelo misterioso motociclista viajante: ir ao Alaska, Estado dos EUA localizado no extremo norte das Américas. Planejaram todo o roteiro detalhadamente entre 2010 e 2011, só que houve um imprevisto: a Hilux foi roubada, adiando os planos em um cerca de ano.

Em 2013, Amandio resolveu comprar outra picape, uma Chevrolet S10 4x4 diesel. Com ela, o casal de empresários enfim pôde colocar em prática o roteiro de ida e volta ao Alaska, um percurso de 65 mil km que durou 10 meses. O único apoio veio de uma empresa goiana de energéticos, que bancou o combustível.

Pensa que é possível cruzar as três Américas integralmente de carro? Pois o casal responde: não. "Entre Colômbia e Panamá não existe estrada, muito por questões políticas. Tivemos de ir a Cartagena, no litoral da Colômbia, para colocar a picape num navio e pegá-la já no Panamá", relata Amandio.

No México foi preciso fazer outra adaptação. "A polícia nos recomendou que não atravessássemos o norte do país por questões de segurança. Então fomos à Cidade do México e, de lá, seguimos até a costa oeste. Cruzamos o golfo [da Califórnia] de navio e subimos em direção aos EUA pelo litoral", explica.

Arquivo pessoal
Amandio Palhares e Joselle Pinheiro realizando o sonho de chegar ao Alaska Imagem: Arquivo pessoal

Missão "duplo-A": Ásia e Austrália

Amandio e Joselle não imaginavam, mas o feito de chegar ao Alaska num carro brasileiro os tornaria conhecidos entre quem gosta de viagens e também entre empresas. Tanto que algumas companhias, incluindo a General Motors, fabricante da S10, resolveram patrocinar a nova expedição que a dupla tinha em mente, dessa vez rumo à Ásia.

Uma nova picape foi cedida ao casal, equipada com uma pequena "casa" de quatro metros quadrados acoplada à caçamba. Lá os companheiros tinham à disposição cama de casal retrátil, banheiro e cozinha com fogão e geladeira.

Arquivo pessoal
Dupla passando pelo Camboja Imagem: Arquivo pessoal
Os dois saíram de São Paulo em novembro de 2016 rumo a Buenos Aires. Lá, colocaram o veículo num navio e foram de avião até Kuala Lumpur, capital da Malásia. O plano inicial seria passar por Tailândia, Mianmar, Nepal e índia. Entretanto, entraves políticos para ingresso de estrangeiros entre Tailândia e Mianmar forçaram o casal a mudar os planos. Da Malásia passaram por Singapura, depois Tailândia, Camboja, Laos e, enfim, China.

Para trafegar em território chinês -- país que restringe a circulação de carros estrangeiros --, Joselle e Amandio tiveram de obter uma autorização do governo, que incluía uma carteira de habilitação provisória e uma placa, também provisória, indicando o destino final. Os trajetos foram pré-fixados e um guia os acompanhou durante todo o tempo. "Você não tem poder de decisão nenhum. São eles que definem tudo: por onde você vai passar e onde vai parar", diz Amandio.

O casal acabou inserido em um comboio com outros viajantes que iam ao mesmo destino. Como havia motos no grupo e estas são proibidas de passar por rodovias, todo o percurso foi feito por estradas vicinais, quase sempre com nível de conservação ruim. A sinalização, toda em mandarim, era ininteligível. Comunicação com nativos? Quase impossível, visto que na China é raro alguém saber falar inglês. "Pegamos muita lama e muito buraco. Rodávamos nove, 10 horas por dia e não avançávamos mais do que 300 km, o que é bem pouco", conta o marido.

Sete meses e 27 mil quilômetros depois (sendo 8 mil km só na China), Amandio e Joselle enfim chegaram ao norte chinês, quase fronteira com a Mongólia. De lá rumaram ao porto de Tianjin, onde novamente colocaram a S10 para cruzar o oceano num navio, agora rumo à Austrália.

Na "ilha dos cangurus" encontraram um cenário totalmente diferente. "Foi um sonho em termos de segurança, clima e natureza", elogia Joselle. "Eles também respiram campismo. Há mais campings que hotéis em algumas cidades. Era difícil até achar uma vaga em clubes campismo para passar a noite", acrescenta.

Após três meses e 22 mil quilômetros rodados pela costa e também pelo centro da Austrália, os parceiros regressaram à América do Sul de avião e, novamente, esperaram o carro chegar de navio por Montevidéu (Uruguai). Ainda sobrou fôlego para rodarem por mais cinco meses e 18 mil km até Ushuaia, no extremo sul da América do Sul. Um ano e três meses depois, ufa... voltaram a Goiânia.

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Ir para a Austrália e não encontrar um canguru não é ir à Austrália Imagem: Arquivo pessoal

Carro e motoristas: como se prepararam?

Segundo o casal, não foi preciso adaptar nenhum dos veículos que a dupla usou nas expedições até hoje. "Não gosto de fazer modificações no projeto original do carro, por medo de que isso altere gere algum problema", conta o esposo. Nem mesmo pneus especiais para lama ou areia foram implantados. A única modificação foi feita na Austrália, quando o casal aceitou aplicar bolsas de ar nos amortecedores.

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Bolsas a ar foram colocadas para incrementar resistência dos amortecedores. Esta foi a única modificação feita pelo casal nas duas picapes que já usaram para viajar Imagem: Arquivo pessoal
Na expedição até o Alaska, de acordo com eles, a picape não sofreu um dano sequer. Já na excursão para a Ásia foram três pneus furados e um vidro foi quebrado por uma pedra. Falhas mecânicas? Zero. "Tento sempre seguir a orientação de fazer manutenção a cada 10 mil quilômetros", comenta.

Prática de off-road Amandio afirma ter adquirido ainda na adolescência, com o pai, já que morava no campo e sempre teve de dirigir em regiões com terra, lama e cascalho. Ele até repassa os conhecimentos a Joselle, mas admite que conduz o veículo durante "95% do tempo". "Sou um pouco fominha, confesso", brinca.

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Excursões tão longas de carro demandam artimanhas como esta: esquentar o motor usando uma fogueira Imagem: Arquivo pessoal

Sobrevivência, perrengue e boas surpresas

Quanto se gasta numa aventura dessas? Amandio e Joselle evitam falar, mas afirmam que as empreitadas saíram mais baratas do que eles mesmos esperavam. "Numa viagem dessas o dinheiro passa a ser o menos importante. É uma forma de viajar totalmente diferente do que as pessoas estão acostumadas. Nós dormimos, comemos e tomamos banho no carro. Os custos acabam sendo muito parecidos ou até menores do que os custos do dia a dia. O que mais pesa são os fretes de navio e as passagens de avião", resumem.

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Joselle e um monge budista no Laos: bênçãos para a picape não faltaram Imagem: Arquivo pessoal
E a vontade de "turistar"? "Tudo que for de graça a gente topa fazer. Nada de passeios pagos. Também procuramos ficar em cidades menores, com custo de vida mais baixo", aponta Amandio.

Para dormir, bastava um lugar seguro onde pudessem parar as picapes. Na Ásia, não existia local mais propício para isso do que os templos budistas. "Foi incrível. Os monges abençoavam nosso carro e chegamos até a tomar café da manhã eles em um mosteiro no Laos", relembra Joselle. A receptividade dos nativos, aliás, surpreendeu positivamente o casal. "Muita gente nos ajudou. Nem esperávamos ser tão bem acolhidos. Fizemos amizades e viramos hóspedes de muita gente", afirma a esposa.

Na China, a empatia dos moradores rompia até a barreira do idioma. "Certo dia um rapaz veio falar com a gente. Com um tradutor no celular, conseguiu perguntar se precisávamos de algo. Dissemos que estava tudo bem, mas ele insistiu e então pedimos água. Ele nos trouxe. Depois nos trouxe refrigerante, vinho, uma câmera fotográfica e uma bicicleta dobrável. Acabamos virando amigos e ele nos levou para jantar. A filha de uma amiga da família dele, que falava inglês, foi junto para traduzir a conversa".

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O motorhome do casal: quarto, cozinha e banheiro ficam no mesmo aposento Imagem: Arquivo pessoal
Por falar em jantar, a adaptação à culinária foi um dos maiores problemas da dupla na Ásia. "Lá se comem muitos insetos e a higiene é muito precária. No Camboja é pior, porque tem pratos com carne de rato e até cachorro. Na China o pior são os condimentos fortes e apimentados", reclama Amandio, que a certa altura desistiu das experimentações e preferiu viver quase que da comida estocada no motorhome.

Mas o maior perrengue mesmo os companheiros viveram na América Central. "Cruzar Guatemala, El Salvador e Honduras foi muito tenso. Lá todo mundo anda armado. Ficamos muito apreensivos ali. Felizmente não nos aconteceu nada nem lá nem em qualquer outro lugar", celebra Joselle.

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Painel da picape virou varal para secar meias... Imagem: Arquivo pessoal

Lugar mais marcante e próximo destino

Nesse ponto os parceiros discordam, no bom sentido. Enquanto Joselle preferiu "a modernidade, o avanço e o calor das pessoas" da Malásia, Amandio se "apaixonou pela cultura do campismo e pelas paisagens" da Austrália. "Se existe um paraíso, é lá", ressalta.

Pensa que acabou? Com apoio e até um site oficial, o casal quer completar a "volta ao mundo" viajando pela Europa e também pela África, sempre numa picape com placa brasileira. O próximo destino deve ser o Velho Continente, já em 2019. "Nossa ideia é embarcar para Portugal, cruzar toda a Europa, atravessar a Rússia e terminar no Estreito de Bering [ponto do Oceano Pacífico onde se encontram mais próximos o extremo leste da Rússia e o extremo oeste do Alaska]".

Alguém duvida que eles chegarão lá?

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Amandio Palhares e Joselle Pinheiro cruzando os Estados Unidos rumo ao Alaska Imagem: Arquivo pessoal

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