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Avaliação: andar no elétrico Chevrolet Bolt é conhecer o melhor carro da GM

Eugênio Augusto Brito

Do UOL, em São Paulo (SP)

26/02/2018 12h00

Modelo está em teste de aptidão para o Brasil e UOL Carros o experimentou por 2 dias

Junho de 2015: UOL Carros participava, em Detroit (EUA), da apresentação global da segunda geração do Chevrolet Cruze, que chegava com planos bastante pretensiosos (sobretudo para o próprio mercado norte-americano). Deixando o sedã de lado, um dos eventos de fundo foi uma conversa com engenheiros e com a própria presidente global da General Motors, Marry Barra, para saber o que a marca preparava para o futuro breve: novos motores (turbinados e eficientes), ampliação da família de câmbios automáticos (de novo, para aumentar eficiência, sem abrir mão de performance) e um projeto ainda "pré-conceitual". O esqueleto do que viria a ser o elétrico Bolt era mostrado sob embargo total. O carro só viria a ser revelado no Salão de Detroit, sete meses depois, mas Barra foi direta: "É nosso carro mais importante e o melhor feito em nossos 100 anos de história. E você o verá em todos os mercados relevantes". Até no Brasil? "Sim, até no Brasil", garantiu a executiva.

Janeiro de 2018: depois de diversas conversas, alguns contatos e até aparições no Salão do Automóvel de São Paulo de 2016 e em outros eventos, o elétrico da Chevrolet entrou em ciclo de testes de aptidão no país, como você já leu por aqui. A ideia nem é apenas homologar o carro para nossas ruas, mas entender a real demanda do público pelo carro e as dificuldades de usá-lo sem um rede de recarga ampla. A GM do Brasil já disse que tem planos de eletrificação para o país (e para breve) e quer ser líder do segmento que está por surgir. E sabemos que esses planos passam pelo Bolt, que pode até ser feito localmente (falaremos mais sobre isso em breve, aguarde). Mas ele é tudo isso mesmo? 

UOL Carros conseguiu experimentar a unidade de avaliação da GM por dois dias. O tempo é muito curto para respostas concretas sobre as dificuldades de manter um modelo elétrico, mas permitiu entender o enorme potencial do Bolt. Ele é, "apenas", o carro mais interessante da fabricante em todo o mundo. Claro, a experiência de pilotar um Camaro conversível ou um Corvette certamente será mais visceral; acomodar a família num Traverse ou mesmo no novíssimo Equinox trará um grau de tranquilidade e conforto específico. Mas o Bolt reúne tudo o que a marca tem de mais tecnológico e inovador em uma embalagem que não assusta. E isso pode ser revolucionário.

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Nada assusta

Já testamos diversos carros elétricos e híbridos: o estranho (mas preciso e eficiente) Toyota Prius da geração atual; o "best seller" global Nissan Leaf; o urbano Renault Zoe; o curioso Renault Twizy; o avançado BMW i3; o radical BMW i8 e por aí vai. O que o Bolt ensina a todos eles? Que é possível ser inovador, sem chocar o comprador, com o perdão do trocadilho.

Visual agradável e "conhecido": essa é a fórmula da boa aceitação imediata do Bolt, que não quer parecer uma "nave espacial" (embora acabe sendo uma, na prática). Seu visual é o mais bem acabado de toda a fase de design atual da Chevrolet, com elementos de Camaro, de Cruze, de Equinox e até de Impala, numa carroceria que remete ao familiar Meriva. A frente vincada não quer fazer "cara de mau", mas atrair de forma cortês. A traseira não é simplista, mas ainda assim mostra uma racionalidade. E isso sem abrir mão de LEDs e aerodinâmica, tecnologias também fundamentais para um carro (futurista) elétrico. 

Seus 4,16 metros de comprimento oferecem 2,60 m de entre-eixos e uma cabine que acomoda cinco pessoas com conforto de modelo maior. Não só conforto, mas segurança e aquela dose de "carinho": poltronas que acomodam bem o corpo, 10 airbags, sistemas de segurança ativa/passiva/assistencial e um ambiente muito bem arejado e construído. De quebra, um pouco mais de 480 litros no porta-malas. E isso em qualquer configuração, seja a de entrada (Bolt  EV  LT, US$ 37 mil) ou a de topo (Premier, US$ 41 mil).

Embora possa ter alguns comandos adiantados pelo celular (que pode ser pareado diretamente ao carro ou conectado de forma paralela na rede 4G do próprio automóvel) e, nos EUA, já esteja sendo testado em modo totalmente autônomo, dirigir o Bolt não é algo estranho, assustador ou que demande um cursinho na porta da concessionária. Ele parece, de fato, um carro automático comum. Ainda assim, pode ser o mais diferente possível: é possível guiar com um só pedal (acelerando) e usar uma tecla na base do aro do volante para frear.

Também é diferente de outros elétricos por sua autonomia: usando metais de alta leveza e enorme carga de resistência, baterias de alta densidade e um sistema muito avançado de regeneração, o Bolt promete autonomia "gigante" frente a rivais. São de 380 a 450 quilômetros, a depender do modo selecionado, mas que podem ser influenciados, claro, pela pressão feita sobre acelerador e sistemas (ar-condicionado, instrumentos etc) e, claro, pelo tipo de relevo enfrentado. Mesmo com algumas variantes, é uma ampla autonomia para esse tipo de veículo e que já permite rodar de forma mais tranquila e até planejar algumas viagens.

O principal, porém, é o comportamento "gostoso", para ser direto. O Bolt não é pesado, nem "travado" como outros elétricos. Ele roda macio, como um bom carro importado. Acelera forte, como alguns modelos urbanos com temperamento mais forte. E é estável como poucos veículos familiares. Na prática, anda mais forte que seu Cruze turbo e até que aquela S10 Flex do seu amigo. Gera o equivalente a 203 cavalos e 36,7 kgfm de torque, permitindo um 0-100 km/h de 6,5 s. Você pode sair à frente de qualquer um na abertura do semáforo e fazer aquela ultrapassagem de caminhão com segurança na estrada, sem temer curvas fechadas. Como dito, é o melhor que um carro da Chevrolet pode oferecer, combinado nesta carroceria.

Ainda distante

Infelizmente, como o teste foi curto, não pudemos carregar o Bolt durante nosso contato, mas também nem seria o caso -- recebemos o carro carregado, rodamos com bastante "abuso", na devolução, ainda havia autonomia para mais de 200 quilômetros.

A questão da recarga, aliás, é um dos pontos polêmicos e que mais o afastam de nossa realidade: com rede decente de recarga, o Bolt pode ter suas baterias renovadas em 1,5 hora (rede rápida, de alta voltagem e amperagem, em DC); sem isso, pode levar até 10 horas (plugado na tomada de baixa amperagem e voltagem da sua casa, 110/127V, AC). É o definidor para amá-lo ou odiá-lo. 

Sem falar, claro, do valor de venda: ainda não há definição, mas num exercício rápido de matemática financeira aplicada ao segmento automotivo, o Bolt poderia custar algo entre R$ 160 mil e R$ 180 mil... se fosse aplicado o mesmo IPI de carros 1.0, promessa do atual governo, mas que ainda não foi concretizada. Atualmente, híbridos e elétricos têm alíquota de 25%, tanto quanto um carro esportivo, por exemplo. 

Fazê-lo rodar no Brasil a contento, também significa reproduzir localmente a garantia original de oito anos ou 160 mil quilômetros para baterias e sistema elétrico. E reproduzir condições de manutenção adequada, com treinamento de profissionais e abertura de rede de recarga. Nos EUA, sobretudo na Califórnia (o território americano mais aberto a este tipo de veículo), onde é possível usar e recarregar o Bolt em casa, no trabalho ou em postos rápidos existentes aqui e ali, usuários relatam custo médio para rodar equivalente a R$ 0,05/km -- sendo que a conta média para um Cruze com gasolina gira na casa dos R$ 0,35/km. É mais um atrativo e mais uma prova da superioridade do Bolt. Resta torcer para que testes e incentivos tragam o carro de fato, e em larga escala, para nossas ruas.

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