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Chevrolet testa Bolt no Brasil e não esconde: quer ser líder de elétricos

Murilo Góes/UOL
Imagem: Murilo Góes/UOL

Eugênio Augusto Brito

Do UOL, em São Paulo (SP)

11/10/2017 03h00

Quando o elétrico Chevrolet Bolt foi apresentado em 2016 pela chefona da companhia, Mary Barra, muita gente cravou: nunca virá ao Brasil. Mas a realidade pode ser mais ousada. Executivos da marca nunca negaram que ter o elétrico era ideia distante, mas possível; o Bolt chegou a participar do Salão do Automóvel de São Paulo no último ano... ; e já tem até unidade emplacada pela General Motors circulando no Brasil. E UOL Carros a dirigiu (brevemente).

Andar rapidamente no carro em nosso país não significa ter indícios de que ele será vendido por aqui, certo? Certo! Como cravou o colunista Fernando Calmon, a estrada que nos leva aos carros elétricos ainda é longa e cheia de obstáculos. Mas executivos seguem dando pista de que estão dispostos a quebrar paradigmas.

"Em breve"?

Na segunda-feira, a pista mais recente foi dada pelo presidente da General Motors para o Mercosul, Carlos Zarlenga, durante o Congresso Autodata Perspectivas 2018, em São Paulo. Ele garantiu que a marca vai ser líder na venda de elétricos no Mercosul. Simples e direto:

"Se somos líderes no Mercosul [em vendas], temos que liderar em eletrificação", afirmou Zarlenga, que garantiu também ter novos investimentos para anunciar no Brasil "em breve".

Desde 2014, já foram R$ 13 bilhões em aportes, sendo que a última rodada de investimentos foi anunciada em agosto: mais de R$ 4 bilhões divididos entre as fábricas de São Caetano do Sul (SP), Joinville (SC) e Gravataí (RS) e o pontapé para a fazer motores turbo no Brasil. Além dos motores turbinados, a GM garantiu estar disposta em fabricar "tecnologias mais eficientes" localmente.

Zarlenga tratou também de reiterar que a GM tem meta de lançar 20 produtos elétricos no mundo em cinco anos. A empresa, definitivamente, entrou na corrida iniciada pela norte-americana Tesla e que tomou conta do pensamento de governos e fabricantes também na Europa e em boa parte do mundo desenvolvido.

É fato que "liderar no Mercosul" significa liderar no Brasil, mas também é real que nem nosso país, nem o Mercosul têm a mesma visão de Europa e Estados Unidos. Ainda sofremos com a falta de interesse, de estrutura e de incentivos oficiais para carros "verdes". Como resolver isso? 

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"Estamos prontos"

É preciso ter regras e incentivos. Atualmente, nenhuma fabricante vende carros elétricos no Brasil e ter um "modelo verde" no país ainda é considerado um luxo:

Acabou o estoque de BMW i3 (que chegou em 2015 por cerca de R$ 200 mil, mas que custava pouco menos de R$ 160 mil no começo do ano) e executivos afirmaram a UOL Carros, durante o Salão de Frankfurt, que esperam definições do governo para decidir se trazem ou não o novo modelo, o i3S, que tem maior autonomia, mas também custa mais caro.

Chinesa BYD negocia com órgãos públicos e também quer vender seus carros ao comprador comum por R$ 230 mil, no fim do ano -- óbvio, o preço atrapalha.

Mercedes-Benz, Renault e até Nissan testam modelos, mas não os entregam a quem é pessoa física.

Por fim, há quem consiga comprar elétricos via importadores independentes, mas o preço é salgado e não há garantia das fabricantes: modelos da Tesla custam até R$ 1 milhão e o próprio Chevrolet Bolt está disponível a quem quiser pagar quase R$ 300 mil -- lá nos EUA, custa de US$ 37,5 mil a US$ 41 mil.

Para virar a chave, dizem as marcas, governos federal, estaduais e municipais deveriam incentivar as vendas, a fabricação de carros, a infraestrutura de recarga e o fornecimento/reciclagem de baterias. Fabricantes, engenheiros e especialistas aguardam por novas regras para o setor automotivo do Planalto, mas o chamado "Rota 2030" está atrasado. Pior: mesmo quando sair, pode ser que não haja menção a modelos elétricos.

Ainda assim, executivos da GM são claros: "Temos a tecnologia e estamos prontos para vender, mas precisamos de regras e incentivos [por parte do governo]".

O que o Bolt tem?

Embora lembre bastante o monovolume Meriva, o Chevrolet Bolt é "só" o projeto mais ambicioso da GM: com ele, a marca quer implementar o plano "Zero crash, zero emissions, zero traffic" ("nenhum acidente, nenhuma emissão de poluentes, nenhum trânsito"). Traduzindo: ele é elétrico, mas também é o carro mais seguro da fabricante e pode funcionar em modo autônomo.

Segundo a marca, a autonomia das baterias de íons de lítio é de cerca de 380 quilômetros, praticamente o dobro do que um elétrico "comum" atual alcança com uma só carga. Só que essa capacidade pode ser ampliada para até 450 quilômetros (mais ou menos) usando o modo "Low/Um pedal": o Bolt parece um carro automático, com dois pedais (acelerador e freio), além de borboletas atrás do volante. Em vez de trocar marchas (o Bolt não tem câmbio), porém, essas aletas permitem aumentar a força de frenagem do carro e, com isso, regenerar mais energia para as baterias. Assim, dá para dirigir só com o pedal do acelerador e ainda ganhar autonomia extra.

Achou complicado? É mais simples do que parece, mas elétricos como o Bolt demandam que todo mundo pense de forma diferente. 

Murilo Góes/UOL
Inovar sem assustar: painel do Bolt lembra o de outros carros da Chevrolet, mas telas de instrumentos e de multimídia são coloridas e informativas como a de um smartphone Imagem: Murilo Góes/UOL

Outra cultura

Quando o elétrico estiver disseminado, até os mecânicos vão precisar se reinventar. "Você não pode encostar um elétrico na oficina e já abrir o carro. O processo de desligamento das tensões leva até 10 minutos, se o mecânico começar a mexer antes, pode tomar uma descarga e até morrer", explica Alexandre Guimarães, diretor de engenharia elétrica da GM América Latina.

Bateria e central elétrica têm garantia de oito anos (ou 160 mil km), no caso do Bolt, mas a estrutura de recarga rápida (em até três horas) demanda pontos de 440 V e 120 Ampéres, que quase não existem no Brasil -- nos padrões existentes, de 110 a 240 V, esse tempo varia de 10 a longas 60 horas para cada recarga.

Em compensação, o custo de manutenção é muito menor que o de um carro comum por não haver partes móveis, nem necessidade de troca de fluidos (óleo, água). E toda fabricante afirma que o custo por quilômetro acaba sendo menor, também, mas isso demanda uso prático com uma grande frota e valores definidos pelo governo.

É por conta disso que tem bastante gente achando a realidade do elétrico simplesmente impossível para o Brasil, por mais que a GM indique outra coisa. Para eles, o país precisa focar, por exemplo, em carro híbrido flex. Qual será nosso destino?

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