Cultura do carro

Ter Kombi é se render aos clichês... mas não precisa gastar muito para isso

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Imagem: Reprodução

Fernando Miragaya

Colaboração para o UOL, do Rio (RJ)

01/09/2017 07h00

É difícil falar sobre a Kombi sem recorrer a algum clichê. Veículo por mais tempo produzido no Brasil, de 2 de setembro de 1957 a 19 de dezembro de 2013, atrai termos como "Sessentona em boa forma", "Vovozinha" e os eternos apelidos "Corujinha", "Pão de forma" e "Velha Senhora".

Tanto tempo em linha suscitou muitas histórias, que transformaram esse Volkswagen em símbolo de diferentes vertentes: virou carro de trabalho, veículo militar e, claro, ícone da contra-cultura -- como a Kombi que ilustra essa reportagem, exemplar que ficou famoso em eventos, na TV e até na biografia do grupo Roupa Nova.

Tudo culminou na supervalorização histórica do veículo e na criação de um mito. Mas não é por isso que você precisa obrigatoriamente gastar uma fábula para ter uma.

UOL Carros conversou com alguns proprietários do modelo e pegou dicas para quem quer ter uma Kombi e, de quebra, colecionar muitas histórias.

Corra para as colinas

Fuja dos grandes centros para achar aquela Kombi que você quer, em estado aceitável e sem ter de vender um rim para comprá-la.

Foi assim que o produtor de eventos paulista Marcio Marques Vieira encontrou a sua. Nem precisa ser uma cidade pequena: a dele, ano 1975, foi achada em Campinas (SP). Mas foram dois anos em busca do modelo ideal, uma "Corujinha" com bom custo/benefício:

Tem Kombi de R$ 5 mil até mais de R$ 100 mil. Tem que garimpar e sair das grandes metrópoles, pegar indicações, fuçar Facebook e classificados."

Pergunte na portaria

Tem muita Kombi boa escondida por aí. Por isso, ficar só em sites de vendas de carros pode te afastar de negócios vantajosos -- ou te custar muito dinheiro. O carioca Ricardo Pedrosa Láo é o dono da "Kombi do Roupa Nova" e começou suas andanças atrás da Velha Senhora depois do falecimento precoce do pai, um fã de Volkswagen, em 2005.

"Remexendo nas suas gavetas, encontramos uma Kombi feita de lata, produzida pela Metalma (Metalúrgica Matarazzo), que ganhei quando fiz quatro anos de idade e que dávamos como perdida. Aquilo tocou a todos e resolvi comprar uma Kombi e fazê-la o mais fiel possível à Kombi de brinquedo", recorda.

Em 2008, ainda em produção e sem o rótulo de clássica, ainda tinha preços razoáveis. Mesmo assim, foi difícil achar um exemplar que não tivesse em "estado terminal". Achou uma 1970 Luxo em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

Ele tem outra, uma Standard 1969, garimpada nos fundos de uma marcenaria na Pavuna, zona norte carioca, debaixo de muita serragem e poeira, mas com a mecânica perfeita e índice de originalidade invejável. O dono ainda a usava para levar espuma para uma fábrica de estofados e fez o carro pegar na segunda tentativa.

"Depois do espanador deu para ver a pintura impecável e a estrutura íntegra do carro. Nunca vi uma Kombi com tantas peças originais. O valor pedido na época não era barato, mas, para uma naquele estado e que não tinha que fazer nada, era um achado imperdível".

"São carros raros de se achar em boas condições. Para quem tem tempo, pesquisar com porteiros de prédios antigos pode render boas surpresas", sugere.

Arquivo pessoal
Marcio Marques Vieira "garimpou", mas achou sua Corujinha 1975 Imagem: Arquivo pessoal

Verifique os antecedentes

A funilaria demanda tempo para reparar, mas é preciso checar mais que a cara da Kombi antes de acertar a compra. Feita sobre monobloco e com capacidade de carga de uma tonelada, tem gente que maltrata as Vovozinhas sem dó nem piedade. Por isso, investigar a procedência é um bom caminho.

Engenheiro, Alisson Miler Vidal não teve tantos problemas nesse sentido, pois comprou a Kombi 1996 de um tio. "Primeiro, tem que gostar. Segundo, ver a procedência e, principalmente, se ela não foi muito usada para transporte pesado". No caso dele, foi preciso fazer nova capotaria, trocar os pneus, pintura, volante e retrovisores.

Mas isso é exceção. Na maioria dos casos, é preciso examinar minuciosamente a estrutura do veículo. Confira longarinas e travessas, se as portas estão alinhadas e se abrem e fecham normalmente, e se a distância para o solo é uniforme.

"Estrutura é fundamental e mais importante do que a Kombi estar pegando e andando. Kombi torta não tem quem alinhe. Andar é acessório", brinca Ricardo Láo.

Até porque a mecânica, principalmente dos modelos com motor refrigerado a ar, é conhecida pela simplicidade. Neste caso, porém, não esqueça da lataria, pois são veículos que dão muita ferrugem e cujas peças podem representar um custo extra.

"Tem que ver todos acabamentos. Dependendo da peça, pode custar 10 vezes mais de que a de uma Kombi moderna", avisa Vidal.

Arquivo pessoal
A gente gosta da simplicidade dessa Kombi 1996 do Alisson Vidal: ainda assim, teve capotaria, pneus, pintura, volante e retrovisores restaurados Imagem: Arquivo pessoal

Paciência, dinheiro (e fama)

Também é preciso ter em mente que achar aquela Kombi dos sonhos provavelmente demandará tempo e dinheiro para recuperação. Os veículos de Ricardo Láo consumiram mais de um ano, cada, de restauração. Mas valeu a pena: aquela Kombi de 1970 agora é famosa.

"Após um ano e dois meses de restauração completa, o carro estava pronto e recebeu no seu interior a miniatura que a inspirou. Viaja junto para onde for. Além de nosso uso, ela participa de eventos promocionais e artísticos". Além do Roupa Nova, entre outros, o "Fantástico", da TV Globo, também já usou o modelo.

Simplicidade nos fascina

O bacana é que poucos deixam a Kombi "na cristaleira". A maioria usa a van no dia a dia, seja pela versatilidade, conveniência ou mesmo pela curtição. E isso explica o sucesso da Velha Senhora seis décadas depois.

"Tem a facilidade de manutenção e o espaço interno. Depois que eu comprei vi uma beleza que só quem tem uma Kombi sabe. Ela tem um charme. É um projeto antigo que não teve grandes alterações. Posso falar que tenho um carro dos anos 1950", afirma Vidal.

Ricardo Láo concorda e completa:

O lado prático dela é imbatível. Você tira o banco central do salão e pode carregar quase que a casa toda por um custo ínfimo. É um ícone mundial, visto o interesse imenso na compra das Kombis brasileiras por aficionados do mundo todo.”

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