Cultura do carro

Assim era um "Uber" no século 18; conheça relíquias do museu das carruagens

Karina Craveiro

Colaboração para o UOL, no Rio de Janeiro (RJ)

07/07/2017 06h00

Entramos na ala do Museu Histórico do Rio dedicada a veículos centenários; carros de aluguel, funerários e da família real dominam

Ele é conhecido como o “museu das carruagens” não à toa. Desde 2005, na área térrea do Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro, têm vaga cativa 27 peças entre carruagens, traquitanas, cadeirinhas de arruar, berlindas...

Todas fazem parte da exposição fixa “Do Móvel ao Automóvel: Transitando pela História”. A novidade para os visitantes nas férias de julho é o lançamento de um aplicativo desenvolvido em parceria com o Laboratório do Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que permite, entre outras coisas, ter imagens imersivas de 360 graus do interior de todos os veículos em exposição. É possível baixá-lo gratuitamente em qualquer tablete ou smartphone.

O acervo, o maior da América do Sul, impressiona não apenas pela beleza, mas pelas histórias peculiares carregadas por cada um dos veículos.

Uma das mais curiosas delas diz respeito a uma vistosíssima carruagem dourada. Trata-se de uma peça do fim do século 18. Chegou ao museu por doação, vinda de uma empresa funerária de Portugal. Durante a restauração no Brasil, pesquisadores descobriram a pintura original da carroceria: brasões reais marcavam as portas e, depois de alguma procura, descobriu-se que o tal veículo havia pertencido ao Príncipe José, irmão mais velho de D. João VI, que morreu jovem, e era quem estava destinado a ser rei.

“Em algum momento da história, a carruagem tinha deixado de ser o meio de transporte da Família Real e virou objeto de uso ritualístico. Na restauração, resolvemos deixar de um lado a pintura Real e do outro a da funerária”, explica a chefe do Departamento de Acervo do Museu Histórico Nacional, Adriana Bandeira.

Por falar em funerária, a maior parte da coleção é de carruagens que serviam de transporte de caixões em enterros – além de levar os próprios familiares do defunto. E é preciso prestar atenção para reparar que elas são decoradas com desenhos que remetem aos jardins de cemitérios, mausoléus, lápides, entre outros temas.

É que, olhando de longe, tudo se assemelha a obras de arte, que de fato são. Parece macabro, não? Mas era apenas uma forma de a elite portuguesa fazer a última homenagem ao ente querido. Uma curiosidade é que uma grande carruagem, com pintura dourada e anjos celestiais, posicionada na entrada principal do museu, também era um veículo funeral. #medo.

Karina Craveiro/UOL
Carruagem que serviu a Infante José, irmão de D. João VI, e depois foi parar em uma funerária Imagem: Karina Craveiro/UOL

Tarifa dinâmica

Em uma outra ala estão três carruagens mais simples, dos tipos seges e traquitanas, do final do século 18. São nada menos que os "Uber" da época. Levavam até duas pessoas e o preço da viagem variava de acordo com a quantidade de passageiros a bordo e a distância percorrida.

“Elas ficavam nas ruas aguardando as pessoas. Não são sofisticadas, têm chassis muito menos elásticos, suspensões mais fracas, nada confortáveis para uma viagem maior, já que a cabine trepidava toda. Serviam para transitar na cidade do Rio, pelo piso da pedra ou terra batida”, conta o diretor do museu, Paulo Knauss.

O contraste destas unidades com outras três do século 19, posicionadas em um espaço logo à frente é interessante. O “Brasão Imperial” nas portas dá pistas: são carruagens da corte.

O modelo com cabine na cor dourada, chamado de “Carro de Ouro”, era utilizado por D. Pedro II em eventos especiais. A com cabine verde era usada pela Imperatriz D. Teresa Cristina, também para festas. A mais “simplesinha”, mas não menos especial, é uma caleça, carro conversível com capota azul, que rodava com D. Pedro II diariamente para cima e para baixo, do Paço à Quinta da Boa Vista.

Olhos mais atentos admiram a engenharia presente nas carruagens do Museu Histórico Nacional. Nas mais sofisticadas, a cabine é sustentada por largas fita de couro, presas ou muito bem amarradas nas extremidades do chassi.

A suspensão é por feixes de molas, como em muitas picapes, caminhões e ônibus vendidos até hoje. Os toques especiais se dão pelo acabamento da estrutura, com marcenaria sofisticada, lampiões e tecidos de veludo na cor vermelha.

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Carruagem dourada era carro de festa de D. Pedro II. Já a verde pertencia à Imperatriz Teresa Cristina Imagem: Karina Craveiro/UOL

Primeiro "carro oficial" do Brasil

Perdido entre os transportes puxados por cavalos está um Protus 1908. O veículo da extinta marca alemã é o “Carro Oficial” mais antigo do Brasil, e comprado à época do presidente Afonso Pena. Nas laterais, a inscrição “R.E.”, de relações exteriores, significa que o carro foi usado pelo Barão do Rio Branco enquanto Ministro das Relações Exteriores.

Absolutamente impecável, ele foi restaurado pela última vez em 2012. Entre outros detalhes, a marca de pneus Michelin refez os componentes do Protus exatamente como eram originalmente. “Igual a este existe apenas um em Munique, na Alemanha. A diferença é que o nosso foi restaurado para voltar a andar e o deles não anda. É só dar a partida e girar a manivela”, explica Paulo.

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Protus 1908: este é o primeiro carro a combustão usado por um presidente brasileiro: Afonso Pena Imagem: Karina Craveiro/UOL

Manutenção constante

O acervo da exposição é basicamente de madeira. Isso explica a necessidade de fazer um pente-fino semanalmente para que pragas fiquem bem longe das relíquias.

Para atrair mais visitantes ao museu -- atualmente são 170 mil por ano --, a direção tem um projeto de expansão de área, que inclui a transferência das carruagens para um pátio, para que exista mais espaço entre as peças.

“Aqui a gente constrói uma narrativa mais abrangente sobre o meio de transporte antes do automotor. Isso no ponto de vista educativo é muito interessante. Mas, além disso, tem a dimensão estética. Isso cria fantasia a tal ponto que vira marca do museu (...) A mágica em torno do objeto é uma maneira de começar uma reflexão de como tudo mudou ao longo do tempo. A gente percebe como tudo é diferente e faz uma reflexão sobre o presente e o que fazemos no mundo hoje”, completa o diretor.

Serviço

Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro
+Horários: terças a sextas-feiras, das 10h às 17h30, e aos sábados, domingos e feriados, das 13h às 17h.
Ingresso: R$ 10
Aos domingos, a entrada é franca

Carro do começo do século 20 era assim:

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