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Indústria quer "tirar atraso" do carro brasileiro até 2030; vai conseguir?

Fernando Donasci/UOL
Indústria de carros do Brasil precisa ser mais tecnológica e competitiva Imagem: Fernando Donasci/UOL

Leonardo Felix
Alessandro Reis

Do UOL, em São Paulo (SP)

20/06/2017 14h30Atualizada em 20/06/2017 19h59

Programa "Rota 2030" deve substituir "Inovar-Auto" em 2018; conheça seis propostas

Quando Dilma Rousseff foi tirada da presidência, em agosto do ano passado, UOL Carros fez um balanço da indústria automotiva sob sua gestão. Mesmo os críticos mais ferrenhos da ex-presidente reconheceram a importância do "Inovar-Auto", apesar de deslizes, como primeiro passo para políticas de evolução do setor.

Criado em 2011, o "Inovar-Auto" acaba em dezembro deste ano e membros envolvidos diretamente na cadeia de produção já estão discutindo como será o regime substituto, já batizado como "Rota 2030-- em referência à expectativa de duração do plano.

Uma proposta resultante dessas discussões foi apresentada ao governo de Michel Temer em 25 de abril. Espera-se que ministros e o próprio Planalto anunciem o projeto definitivo até agosto. Segundo apurado por UOL Carros, reuniões semanais têm sido realizadas com membros do Ministério da Indústria e Comércio Exterior sobre o tema, a partir de seis grupos de trabalho. Outra delas deve ocorrer nesta quarta-feira (21).

UOL Carros vai listar em duas reportagens -- esta é a primeira delas -- o que indústria e entidades representantes já debateram e acreditam ser fundamental para alavancar o segmento (são seis propostas concretas) e o que ainda está ralo em termos de ideias e negociações (são dois itens e mais uma série de situações). 

Leia, tire suas dúvidas e comente: diga se acha as medidas boas, ruins e se poderão mesmo sair do papel.

Como ter carros melhores

Se há alguma coisa positiva a se destacar em relação à crise que assola o mercado de carros, é que as principais entidades do setor -- a própria Anfavea, além de Abeifa (associação das marcas apenas importadoras) e Sindipeças (sindicato dos fornecedores) -- finalmente "se deram as mãos" para discutir propostas para o futuro.

"Estamos pela primeira vez tentando estabelecer premissas básicas para o setor de uma forma mais ordenada. A indústria trabalha a longo prazo e precisa de previsibilidade para definir investimentos para daqui a três, quatro anos", disse Antonio Megale, presidente da Anfavea (associação dos fabricantes instalados no país) em encontro com jornalistas.

Segundo ele, o "Rota 2030" será desenvolvido sobre oito pilares: recuperação da fornecedores; nacionalização de tecnologia; relações trabalhistas; eficiência energética; pesquisa, desenvolvimento e engenharia; segurança; logística; e tributação.

Como se pode ver, nem todos os temas são exclusivos do setor automotivo, mas todos dependem do esforço conjunto de empresas, entidades e do governo. Acontece que apenas seis deles pontos têm metas claramente definidas. Para os demais, mais espinhosos, espera-se uma definição "de cima".

1. Recuperação de fornecedores

Mais do que desejo, é necessidade da indústria reerguer sua cadeia de fornecedores, tornando-a mais competitiva e profissional. Discutem-se formas de aumentar o índice de componentes feitos localmente, além de promover capacitações para deixar os empresários mais bem preparados para gerenciar os negócios e encarar situações de crise.

2. Nacionalização de tecnologia

Além de contribuir para o item anterior, a nacionalização reduz custos e aumenta a segurança e competitividade de carros nacionais. Embora executivos não confirmem, nossa reportagem apurou que uma das alternativas em discussão é estimular a nacionalização de motores e transmissões automáticas -- muitas das soluções mais atualizadas ainda são importadas das matrizes das fabricantes.

3. Eficiência energética

Em relação à eficiência energética, UOL Carros apurou que o governo estuda reformular as alíquotas de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). Atualmente, o imposto é determinado por capacidade cúbica dos motores, com teto de 25%.

A ideia é passar a contemplar índices de emissões e até potência. Dentro desse escopo, poderiam ser concedidas isenções em pontos percentuais a fabricantes que alcançarem metas preestabelecidas de emissões e consumo.

Há, ainda, forte pressão para que o governo estabeleça política de incentivo à renovação da frota, que incluiria bônus fiscais para troca de veículos, troca de maquinário de produção e até a criação de um sistema nacional de inspeção veicular.

4. Pesquisa e desenvolvimento

O setor quer propor a criação de fundos de fomento e linhas de financiamento para a área, sobretudo para o desenvolvimento de tecnologias relacionadas ao etanol.

Projetos como o da van elétrica movida a pilha de etanol da Nissan, projetos de biocombustível e até do carro movido a esgoto são exemplos de que há linhas de pesquisa nacionais, mas todas lentas e incipientes por falta de incentivo.

 "Precisamos virar exportadores não só de carros, mas também de serviços de desenvolvimento", defendeu Luis Pasquotto, conselheiro do Sindipeças.

5. Segurança

Na parte de segurança, o Contran (Conselho Nacional de Trânsito) deve apresentar um cronograma de implantação de itens de segurança obrigatórios para os próximos 10 anos de uma só vez. Atualmente, a regulamentação é feita a conta-gotas e de modo esporádico.

Controle eletrônico de estabilidade (obrigatório a partir de 2022), luz diurna (2023) e ganchos Isofix (ainda sem prazo divulgado) são três presenças garantidas na lista, segundo a Anfavea, mas passam longe de causar grande impacto.

Todos são itens cuja obrigatoriedade vem sendo debatida há tempos -- o Isofix, que segura cadeirinhas infantis aos bancos de forma mais segura, está cada vez mais presente em lançamentos e sem qualquer imposição do governo. Mas não é regra.

6. Tributação

Este é o ponto mais certo do novo programa automotivo: para todas as entidades e empresários ouvidos, os 30% adicionais de IPI para veículos importados vão cair. A medida foi implantada junto ao "Inovar-Auto" como protecionismo à indústria local, sendo questionada até pela OMC (Organização Mundial de Comércio). Assim, deve ser um dos primeiros pontos a ser revogado, se o governo seguir o rumo mais claro atualmente.

As fabricantes também querem pedir ao governo que simplifique a cadeia de impostos, embora admitam que uma desoneração efetiva seja quase impossível no momento. "Temos uma das maiores cargas tributárias do mundo, mas no momento não estamos pedindo para desonerar nada, sabemos das dificuldades do país", admitiu Megale.

É o suficiente?

De toda forma, esses seis passos agradam a todos os pontos da cadeia produtiva de carros e, de fato, são fundamentais para melhorar o setor. É o suficiente para transformar o Brasil num polo automotivo de primeiro nível?

Na quarta-feira (21), UOL Carros vai elencar os pontos mais nebulosos, que encarecem e defasam a indústria e os próprios modelos de carros feitos no Brasil. E que criam enormes dificuldades para que a resposta à pergunta acima seja sim.

 

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