Carros

Mulheres fazem cursos de mecânica para zerar machismo em postos e oficinas

Divulgação
Professores vestem luvas rosas junto com as alunas como símbolo na luta pela igualdade e dão aulas práticas Imagem: Divulgação

Karina Craveiro

Colaboração para o UOL

01/04/2017 08h00

Conhecimento reduz abuso em redutos ainda machistas; montadoras apostam em movimento e criam mais aulas

A queixa é recorrente e ouvida por qualquer motorista. Mas entre as mulheres parece soar pior: basta encostar o carro na bomba de combustível para ouvir do frentista que o óleo está baixo ou é preciso completar o líquido de arrefecimento. "Ok, vou pedir que meu mecânico olhe. Obrigada", digo sempre, em frase ensaiada.

Filha de mecânico e há nove anos no setor automotivo, fui vacinada desde sempre de abordagens do tipo. Mas não é assim com todo mundo. "Dá raiva. Já me senti enganada em várias situações e me empurraram coisas que meu carro não precisava", relata a funcionária pública Danielle Honda, dona de um Hyundai i30.

Embora 45% das vendas de automóveis sejam para elas -- e 58% dos emplacamentos de carros novos influenciados também por elas (dados da Fecomercio) -- ainda é raro que mulheres sintam-se seguras ou confiantes para discutir sobre algum problema no carro. É como se isso fizesse parte da cultura masculina.

Mas está mudando!

Como parte de um movimento que se fortalece na sociedade, cada vez mais mulheres buscam cursos e trenamentos para adquirir conhecimentos mecânicos. O resultado as deixa mais cheias de si e para para que não se sintam mais enganadas em relação aos serviços oferecidos para seus veículos.

Aproveitando o impulso, na tentativa de estreitar o relacionamento com suas clientes, diversas marcas do setor automotivo promovem cada vez mais cursos gratuitos de mecânica para mulheres ao longo do ano. É o caso de Volkswagen, Chevrolet, Hyundai-Caoa e até mesmo de seguradoras, como a Porto Seguro. 

Geralmente, nos casos das marcas, apenas clientes podem participar e as inscrições são feitas pelos sites oficiais de cada empresa. Mas vale também procurar instituições como o Senac para cursos independentes.

"Agora, quando for trocar o óleo do carro, vou querer saber qual a marca, especificação e vou pedir para ver o filtro, caso tenha sido trocado. Falaria para minhas amigas, sem exceção, sobre o curso. Mudou tudo sobre minha maneira de pensar no assunto", discorre Danielle, dona de um i30, que participou de curso ministrado pela Hyundai em março, na carona do mês da mulher, com 80 clientes e carga horária de três horas lecionadas por mecânicas.

Nos próximos meses, a representante Caoa pretende estender a ação para concessionárias do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais, Bahia, Distrito Federal e Pernambuco. Ainda planejam ter turmas em São Paulo para o desenvolvimento de um segundo módulo de estudo, mais avançado.

"Minha sugestão é que houvesse um curso para todos os públicos. Acho que os jovens, por exemplo, se interessariam bastante pelo tema", afirma a engenheira civil Soraia Vallilo, que tem três Hyundai na garagem.

"A gente observou e mapeou a questão do gênero e viu a necessidade de criar isso. Elas, às vezes, não veem oportunidade de sanar as dúvidas que têm no assunto. Achamos que a mulher sempre desejou ao menos desvendar um pouco desse universo”, avalia o diretor de pós-venda da Caoa, Rogerio Gonzaga.

Divulgação
As 20 alunas afirmaram que se sentiram mais à vontade em um ambiente apenas feminino Imagem: Divulgação

O conteúdo incluiu nove temas, entre eles passagens superficiais sobre motor, transmissão, suspensão, direção e freio. O cursinho se dividiu entre partes teórica e prática -- com apostila e visita à oficina da loja, com direito a carros suspensos em dois elevadores e luvas na cor rosa para quem quisesse "por a mão na massa".

Ponto para as meninas

Nenhuma dúvida foi deixada de lado: mãos levantadas e perguntas feitas, o tempo todo. E se durante a discussão de um tema alguém lembrasse de algum episódio ou problema com seu carro, algum técnico vinha prontamente ouvir o caso. "Meu carro está com o volante trepidando demais", disse uma participante. "Me fala a placa dele, vamos fazer um balanceamento agora", bradou a assistente.

"Esses reparos já estavam previstos. Não tem custo para elas. Isso aconteceu em outras turmas também. Pedi à equipe que não tivesse filtro. Eu quero saber os problemas e resolvê-los”, afirmou Gonzaga.

As iniciativas de fabricantes automotivas, que ainda estão em estágio inicial, se valem do rótulo "exclusivo para mulheres". E fica a questão: será que a segmentação de gênero é mesmo necessária? Se depender das participantes, a resposta é sim. Todas as 20 alunas da turma do último sábado de março, dia 25, afirmam que sentem-se mais à vontade em um ambiente apenas feminino.

"Tem nossa linguagem. Ainda é um universo muito machista. Acho que ter professoras mulheres também faz a diferença. Quando o assunto é carro, eles têm presunção de que já sabem tudo. Buscamos igualdade, mas ainda não chegamos lá", opina a advogada e proprietária de um Tucson, Clarisse Abel, que já havia feito cursinho semelhante na Chevrolet, há cinco anos.  

A também advogada Maria Belo conta que sentiu-se menos impotente depois do treinamento, mas que ainda está longe de conhecer totalmente o assunto. "A iniciativa é muito bacana e acho legítimo que a mulher seja inserida nesse universo. Vejo como uma oportunidade de inserção social. Ainda tem uma divisão muito forte entre atividades femininas e masculinas, mas é um conceito cultural. Acho que vai mudar, mas não agora. De qualquer forma, qualquer passo nisso é importante", pondera a proprietária de um ix35.

Divulgação
Primeira parte do curso é teórica e tem até apostila para as alunas, que são clientes da Hyundai Imagem: Divulgação

Para a técnica de serviços Vanuza Alves da Silva e a consultora de serviços Juliana Chaves, professoras escaladas para lecionar no intensivo, o balanço de um mês de curso foi positivo. "Achei muito boa a experiência. Sou mecânica, faço reparo em transmissão automática e motor e nunca tinha dado aula. Se fosse para homens, usaria termos mais técnicos. Já passei por preconceito na profissão, é diferente o tratamento. Tem que ter força de vontade, já pensei em desistir, mas muitas pessoas me ajudaram e estou aqui hoje”, emociona-se Vanuza.

Juliana conta que sentiu-se lisonjeada com o convite. "Essa iniciativa me emocionou. Como eu sou consultora e atendo muito o público feminino, entendo que elas ficam mais à vontade com uma mulher. Foi emocionante. Acho que ganhei mais do que elas. Com o público masculino também usaria termos mais técnicos. Eu os encararia, sem problemas. Pode chamar homens que a gente vai dar aulas para eles também", completa Juliana.

Ao final das contas, vestindo luvas rosas ou de qualquer outra cor, é apenas o conhecimento que vai libertar as condutoras de uma possível posição medíocre ao visitar uma oficina ou posto de combustível...

Divulgação
"Com os homens também usaria termos técnicos. Eu os encararia. Pode chamá-los que a gente dá aulas também", diz a professora Imagem: Divulgação

ID: {{comments.info.id}}
URL: {{comments.info.url}}

Ocorreu um erro ao carregar os comentários.

Por favor, tente novamente mais tarde.

{{comments.total}} Comentário

{{comments.total}} Comentários

Seja o primeiro a comentar

{{subtitle}}

Essa discussão está encerrada

Não é possivel enviar novos comentários.

{{ user.alternativeText }}
Avaliar:
 

* Ao comentar você concorda com os termos de uso. Os comentários não representam a opinião do portal, a responsabilidade é do autor da mensagem. Leia os termos de uso

Escolha do editor

{{ user.alternativeText }}
Escolha do editor

Mais Carros

Topo