Cultura do carro

"Sem preconceito", loja de clássico vende de Gol GTI a carro de R$ 1 milhão

Rodrigo Mora

Colaboração para o UOL

16/03/2017 08h00

Mostramos o ambiente e as relíquias de algumas das principais revendas de veículos antigos espalhadas por São Paulo

Um Daimler XJ6 Sovereign recepciona quem chega ao número 47 da Praça do Vaticano, em São Paulo, já do estacionamento, como se estivesse ansioso para conhecer o próximo dono.

Atrás dele, à esquerda, o gorducho Mercury "Woody" Station Wagon 1951 reflete a elegante silhueta do BMW 635 CSi ao seu lado. O cupê alemão atrapalha a única passagem da turma do fundão, composta por um Porsche 911 SC, uma Ferrari 308 GTS e um Austin-Healey Sprite "Bug Eye".

Assim é uma loja de carros clássicos: marcas variadas, modelos que não sabíamos que existiam no Brasil e um certo aperto -- nada prático, mas até que charmoso.

Uísque, charuto e carburador

Um tanto escondida ao lado da avenida Europa, a via paulistana que reúne as "vitrines-ostentação" dos carros mais luxuosos e exclusivos à venda no país, a Private Collections surgiu em 2004, com foco nos colecionadores mais abastados.

"Quando começamos, queríamos atender os públicos das classes B e A, que não eram atendidos antes", explica Ricardo Robertoni, o proprietário.

No mezanino da loja, uísque 12 anos, charutos e um jazz em som ambiente embalam negociações de modelos mais raros e caros. Na rotina de Robertoni, vender automóveis antigos depende mais dos relacionamentos do que de um bom ponto comercial.

"O mercado mudou. Antes tínhamos quatro vendedores que recebiam quem entrava na loja. As vendas caíam no colo, porque estava na moda comprar carro antigo, a economia tinha saúde e os preços eram favoráveis. Hoje, 70% das minhas vendas vêm de rede de relacionamentos. Tenho um mailing de 14 mil clientes”, conta o empresário.

Seu foco sãos importados, resultado de 90% das negociações. Do volume de vendas, 50% são carros de até R$ 100 mil e 45% daí para cima. E 5% são compostos por exemplares de R$ 1 milhão ou mais, como modelos da Ferrari e até um raríssimo Mercedes 300 SL "Asa de Gaivota".

"Trouxemos muitas coisas importantes e valiosas de fora, que hoje abastecem grandes coleções", orgulha-se Robertoni.

O que não quer dizer que nacionais não tenham seu espaço: um Volkswagen Gol GTI acaba de ser vendido ali. Não há financiamento, mas em alguns casos a compra pode ser parcelada em até dez vezes. Também é possível deixar o carro lá em consignação. A loja fica com 10%. 

Murilo Góes/UOL
Private Collections recebe clientes com whisky, charuto e jazz ambiente. Lá, 50% dos carros valem mais de R$ 100 mil Imagem: Murilo Góes/UOL

Preciosidades de todas as nações

Não menos europeu é o showroom da L’art De L’automobile. Porsche havia quatro, entre eles três 911 da geração 993, a última do modelo com motor refrigerado a ar -- e, por isso mesmo, uma das mais inflacionadas, com valores chegando a R$ 400 mil.

"Nosso foco está nos europeus das décadas de 1960 e 70", justifica Delso Calascibetta Jr., um dos sócios. 

Isso não significa que outros antigos não sejam bem-vindos. O dono diz que "não tem preconceito" com nacionais, por exemplo, embora nem todos rendam bom negócio. "Há situações interessantes. Na linha Opala, só o que vende é o (esportivo) SS. Na linha Dodge é só o Charger. Já Fusca é exceção: estando em ordem, qualquer um vende bem", diz.

Entre as preciosidades mais raras que passaram por lá está um Bugatti 1925 de competição.

"Ele fora importado pelo Conde Matarazzo para correr algumas provas aqui e, depois, acabou esquecido. Havia outros quatro, mas só sobrou esse, que achamos largado e fomos montando aos poucos", conta Calascibetta, que prefere nem revelar o valor da venda (certamente na casa de sete dígitos).

Loja, biblioteca, café e cachaçaria

Prefira ir à Universo Marx, em Moema, de segunda a sexta. Se deixar para o sábado, chegue cedo. Depois das 10h, é impossível encontrar uma vaga para estacionar. Isso porque a loja reúne não apenas interessados em comprar seu primeiro ou 15º clássico, como quem vai só para encontrar amigos, entre eles o proprietário, Maurício Marx.

O ambiente também é convidativo. Uma área externa lateral já abrigou até food truck. Lá dentro, uma mesa cercada por cadeiras retrô e um sofá é vigiada por uma enorme estante, com livros e revistas temáticos. Todos disponíveis aos visitantes – assim como o café coado ou a cachacinha do bar.

"Isso não é apenas um trabalho. É um modo de vida que me faz viver ao lado dos carros antigos e sempre fazer amigos", afirma Marx.

O espaço ali também é apertado entre um Jaguar E-Type e um De Tomaso Pantera. Mas há lugar para um raro DKW Candango e também motos, como a clássica Honda CB 750 Four.

Assim como seus concorrentes, a Universo Marx fica com 10% do valor negociado por carro, em casos de consignação. "Trabalho com contrato aberto entre comprador e vendedor. Isso quer dizer que ambos saberão por quanto o carro está sendo vendido. Eu apenas ligo uma pessoa à outra", explica.

Outras menções

Menos emperiquitadas são a Jardineira Veículos Antigos e a Eduardo Veículos Antigos, porém igualmente bem recheadas. No caso da última, as ofertas vão de um Volkswagen SP2 1975 a um Rolls-Royce Corniche do mesmo ano. Na JS Autos Antigos, a visita tem que ter hora marcada.

Além do bom papo, do clima nostálgico e do banho gratuito de história automotiva, há outro charme especial nessas lojas: na próxima semana, muitos desses carros terão encontrado novos donos e outros chegarão, mantendo as vitrines sempre coloridas.

* Jornalista especializado, tem passagem por Programa Auto+, G1, Folha de S. Paulo, iG Carros e mantém paixão por carros antigos e o Instagram: @moranoscarros

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