Cultura do carro

Montadoras driblam vendas baixas no Carnaval caindo no samba

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Nissan March vira "destaque" na Acadêmicos do Salgueiro durante ensaio na Sapucaí Imagem: Divulgação

Karina Craveiro

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

24/02/2017 08h00

Dá samba? Parceria nem sempre rende título, mas gera visibilidade

A maior festa popular do Brasil é uma enorme vitrine, um show de publicidade. Para onde quer que se olhe lá estão os anúncios de marcas de cerveja, remédios para ressaca, preservativos e... carros! Sim, por que não de carros? Mais comum que fantasia de unicórnio em bloquinho de rua tem sido a participação das marcas no Carnaval.

Ano após ano, há sempre alguma representante da indústria envolvida na folia. O objetivo de toda marca é ter visibilidade em época de baixo movimento nas concessionárias (sobretudo em anos de crise) e, de quebra, rasgar a fantasia de vilã, muito associada a tudo o que tem ligação com automóvel nos dias atuais.

A Nissan comemora neste fevereiro quatro anos de parceria bem-sucedida -- apesar da falta de títulos -- com o Acadêmicos do Salgueiro, no Carnaval do Rio. A sugestão de se unir à Escola veio do agora ex-presidente global da montadora, Carlos Ghosn. O executivo sempre entendeu que a empresa precisava reforçar sua relação com o país e mostrar-se "brasileira", mesmo tendo origem japonesa.

"Ser parceiro do Salgueiro é apoiar a cultura brasileira. Reforçamos também a relação estreita que Nissan tem com o país, pois temos um compromisso aqui”, explica o diretor de marketing da Nissan do Brasil, Arnaud Charpentier, que prefere não revelar o montante investido na agremiação vermelha e branca.

A marca aparece para o público na Marquês de Sapucaí sem rodeios: nos ensaios técnicos, no lugar dos carros alegóricos, ainda em fase de construção, desfilam modelos como o Nissan Kicks, Versa, March.

Em 2014, um dos carros do Salgueiro tinha duas alegorias que lembravam a minivan Nissan Note, que estava sendo sondada para chegar ao Brasil naquele ano (o que acabou não ocorrendo). Visibilidade maior é impossível.

Narcelo de Jesus/UOL
Olha o Note aí, gente: em 2014, alegoria do Salgueiro tinha toda a cara da minivan que nunca estreou Imagem: Narcelo de Jesus/UOL

Samba de alemão e de americano

Em São Paulo, a Mercedes-Benz bate ponto nos ensaios da Rosas de Ouro há seis anos. A marca alemã, no entanto, passou de patrocinadora (entre 2011 a 2014) à condição de colaboradora. Em 2013 foi além ao ser homenageada pela escola no enredo "Os Condutores da Alegria: numa fantástica viagem aos Reinos da Folia" -- a montadora representou "simbolicamente o transporte do público", na visão dos carnavalescos.

Atualmente, mantém o projeto social "Samba se Aprende na Escola", que visa incentivar crianças e adolescentes, moradores da região onde está localizada a quadra da escola (na Zona Norte), no interesse pela arte, pela cultura e formando a bateria-mirim da Rosas de Ouro.

Além da programação cultural, o projeto oferece cursos profissionalizantes, oficinas de dança, percussão, atendimento psicológico, odontológico e consultoria jurídica para as famílias dos participantes. Só falta o título, que não veio em nenhum ano dessa parceria -- a Rosas foi campeã pela última vez em 2010.

"Esse apoio faz parte de nosso pilar social e também incentiva a cultura brasileira por meio da formação de novos músicos", diz o diretor de comunicação corporativa e responsável pelo Comitê de Responsabilidade Social da Mercedes-Benz, Luiz Carlos Moraes.

"Em complemento ao apoio, cedemos nossos caminhões para o transporte das alegorias e da bateria durante os ensaios técnicos e também no dia do desfile oficial", completa.

Na Bahia, a Ford participa do Carnaval local desde o ano 2000. Pelo décimo sétimo ano consecutivo patrocina o famoso Trio Fobica, de grande sucesso entre os foliões, e apoia postos da Polícia Militar da Bahia em dois circuitos concorridos: Dodô (Barra/Ondina) e Osmar (no Campo Grande).

"Acreditamos que estamos inseridos na comunidade baiana com a nossa presença no Estado", limita-se o gerente de imprensa Célio Galvão, também sem revelar o investimento.

Divulgação
Mercedes-Benz já foi até tema de enredo da Rosas de Ouro, em São Paulo, em 2013 Imagem: Divulgação

Contrapartidas carnavalescas

Se o Carnaval também é uma festa comercial, o investimento das montadoras reservam algumas contrapartidas e "regalias". A Nissan tem direito a um camarote na quadra do Salgueiro, que começa a receber os convidados sempre a partir de outubro. A capacidade é de 60 pessoas por noite e a lista de convidados inclui funcionários, fornecedores, concessionários, jornalistas e, claro, celebridades. Também há um espaço na Marquês de Sapucaí, onde cerca de 20 convidados vão acompanhar o desfile da agremiação no próximo domingo (26).

Já a Mercedes tem cerca de 60 fantasias com desconto para colaboradores e mais 20 gratuitas, estas sorteadas internamente. A fabricante ainda leva convidados da empresa aos ensaios realizados na quadra da escola -- são até 80 convidados por noite.

No caso da Ford, a única exigência é a exposição da marca em faixas e cartazes ao longo dos espaços.

De toda forma, o retorno das ações carnavalescas não é mensurável em venda de carros. "É muito mais no relacionamento com a comunidade do que um resultado de vendas. Ter um camarote é um grande atrativo, uma oportunidade de nos relacionarmos com os 'stakeholders' e diversos públicos que se relacionam com a empresa", aponta Charpentier, da Nissan.

Reprodução
Osmar (acima) inventou, ao lado de Dodô, o "trio elétrico" ao plugar guitarra e alto-falantes a um Ford A. Isso aconteceu em 1950, em Salvador (BA) Imagem: Reprodução

Atravessando o samba

Diversas montadoras têm histórico de participação no Carnaval, mas nem sempre o enredo é de sucesso.

A Renault resolveu colocar seu nome no Carnaval paulistano em 2016, em associação com a Vai-Vai, maior campeã dos desfiles na cidade (15 títulos). No último ano, a agremiação cantou no Anhembi um samba-enredo em homenagem à França, mas terminou em quarto lugar. E foi o fim da parceria.

Outras duas marcas fizeram samba de uma nota só no Carnaval. Em 2014, a Chevrolet apoiou a paulistana Imperador do Ipiranga, que homenageava a cidade de São Caetano do Sul, onde estão as instalações da marca. Em 2012, foi a fabricante de motos Kasinski quem patrocinou o Carnaval carioca. Durante o desfile da Acadêmicos do Grande Rio, oito unidades da moto Comet 150 acompanharam o último carro alegórico da agremiação. E foi só.

Há ainda uma tentativa de pegar carona na história da folia por parte da Ford. Segundo a marca, a invenção dos famosos "trios elétricos" na Bahia, por iniciativa de Dodô e Osmar, em 1950, se deu com um carro da marca.

De fato, Adolfo Antônio Nascimento (Dodô) e Osmar Álvares de Macedo (Osmar) saíram pelas ruas de Salvador a bordo de um Ford Modelo A (modelo fabricado em 1929), levando instrumentos parecidos com guitarras elétricas plugadas a alto-falantes para ampliar o som. Mas isso foi um fato aleatório, não um incentivo da marca norte-americana.

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