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Ambientalistas se unem para dizer "não" ao carro a diesel no Brasil

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Atualmente, apenas veículos com mais de 1.000 kg de capacidade de carga (em sua maioria, SUVs e picapes de grande porte) podem rodar com diesel no Brasil Imagem: iStock

Do UOL, em São Paulo (SP)

Um conjunto de ambientalistas lançou nesta segunda-feira (13) um manifesto de repúdio ao Projeto de Lei 1013/2011, que libera fabricação e venda de carros de passeio movidos a motores a diesel no Brasil. O projeto pode ser aprovado nos próximos dias na Câmara dos Deputados e, depois, ir diretamente para o Senado.

Organizado pela rede Observatório do Clima, o manifesto foi enviado nesta manhã à comissão. Ele tem assinaturas de médicos, cientistas especialistas em poluição do ar, de organizações de pesquisa, entidades de defesa do consumidor, empresários e até de cinco ex-ministros do Meio Ambiente -- Rubens Ricupero, José Carlos Carvalho, Carlos Minc, Izabella Teixeira e Marina Silva, que também foi candidata à Presidência da República em 2014.

De acordo com o documento, a ideia é um "atentado aos interesses da sociedade" que poderá fazer o Brasil ir na contramão da tendência mundial de reduzir a poluição no setor de transportes.

Especialistas dizem que, se aprovado, o projeto deve causar danos à saúde pública e prejudicar a economia. O país não é autossuficiente na produção do óleo combustível, o que levaria à possível importação de diesel para complementar a oferta, encarecendo o custo do transporte.

Especialistas são contra

"É incrível que ainda tenhamos gente no Brasil que aposta no obsoleto para justificar ganhos de curto prazo. O mundo caminha na direção da economia de baixo carbono (...). O país que mostrou ao mundo o caminho dos biocombustíveis não pode ter como escolha usar diesel em carros de passeio. Não é só uma medida absurda ou extemporânea, é inaceitável", afirma a Izabella Teixeira, ministra nos governos Lula e Dilma (2010 a 2016), em comunicado.

UOL Carros procurou, às 18h desta segunda-feira, a assessoria de Marina Silva para ouvir o parecer da ex-senadora, mas ainda não obteve resposta.

Para André Ferreira, diretor-presidente do Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente), o projeto vai na contramão dos esforços para reduzir emissões de gases de efeito estufa. "Deveríamos discutir sobre como viabilizar um combustível renovável em substituição ao diesel, e não o oposto. Os veículos leves a diesel concorrerão diretamente com automóveis flex e, portanto, com o etanol. Sem falar que trata-se de uma barreira a mais para o avanço de carros elétricos".

Segundo Fernando Calmon, colunista de UOL Carros, argumentos usados por deputados a favor do projeto não se sustentam. Para o especialista, os dados de veículos europeus com motor a gasolina já são melhores que os de veículos equivalentes movidos a diesel, principalmente em relação à emissão de poluentes. 

"Um litro de diesel emite 2,65 kg de CO2; um litro de gasolina (sem etanol) libera 2,32 kg. Como os atuais motores de ciclo Otto estão bem mais modernos (downsizing, com turbo e injeção direta), eles cortaram a diferença de consumo. E a vantagem final em CO2 para o diesel diminuiu", aponta Calmon.

Risco à saúde

O médico Paulo Saldiva, diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP, afirma que o projeto de lei traz risco de dano à saúde de milhões de habitantes de metrópoles. "Os veículos a diesel são as principais fontes de compostos como particulados finos e óxidos de nitrogênio e enxofre, que causam problemas sérios de saúde. Deveríamos discutir como ampliar o transporte coletivo e reduzir o uso de diesel, mas o projeto propõe o inverso: mais transporte individual e mais diesel. Ou seja, mais congestionamento, ar poluído e, potencialmente, mais mortes precoces."

"O Brasil não tem políticas suficientemente robustas para mitigar os impactos ambientais dos carros a diesel", ressalta Cláudio Considera, presidente do Conselho Diretor da Proteste, a Associação Brasileira de Defesa do Consumidor.

"Antes de considerar a suspensão das restrições de carros a diesel, deveríamos implementar outras medidas que visam proteger a saúde e qualidade do ar provocadas pelas fontes energéticas já existentes, como gasolina, etanol e o próprio diesel em veículos comerciais e pesados", afirmou.

Para Jorge Abrahão, diretor-presidente do Instituto Ethos, há um risco adicional na proposta: mexer com a credibilidade internacional do Brasil. "A aprovação na comissão da Câmara de Deputados do PL do diesel será um grave retrocesso em relação aos compromissos assumidos pelo Brasil na COP21. Temos a oportunidade de ser um dos líderes da agenda do clima com preservação e inclusão social, mas decisões como esta trarão insegurança e colocarão em risco os investimentos e empregos na direção da economia de baixo carbono", diz.

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