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Ferrari de R$ 52 milhões provoca disputa que vai do Paraguai à Suíça

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Ferrari 375 Plus 1954: 334 cv, 280 km/h de máxima e apenas cinco unidades Imagem: Bonhams

Jeremy Hodges

Da Bloomberg

10/07/2015 19h17

Procura-se: dono cuidadoso para um esportivo da Ferrari, cor vermelho cereja, de 1954. A propriedade atual está sendo extremamente contestada.

Quando um engenheiro do Exército dos Estados Unidos, que trabalhou no Projeto Manhattan durante a 2ª Guerra Mundial, comprou um chassi acabado de Ferrari por US$ 2.500 em 1958 (equivalente a US$ 20.670 atuais, cerca de R$ 66 mil), ele não tinha a menor ideia de teria nas mãos o carro mais disputado do planeta.

A Ferrari fabricou apenas cinco unidades do 375 Plus naquele ano, e só restam quatro desses reluzentes símbolos da época áurea do automobilismo. O estilista Ralph Lauren e o bilionário dos doces Giorgio Perfetti (da Perfetti Van Melle) têm dois deles. O último titular incontestável do 375 Plus, cujo motor gera 334 cavalos e pode levar o esportivo aos 280 km/h, foi Karl Kleve, o engenheiro do Exército que se tornou designer, artista, reparador compulsivo e autor de um livro sobre a relação entre a calvície e a circulação sanguínea.

Agora, após 16 anos de processos judiciais e declarações de titularidade do Paraguai à Suíça, o destino do roadster -- que Les Wexner, fundador da Victoria's Secret, pensou que tinha comprado no ano passado por US$ 16,5 milhões (mais de R$ 52 milhões) -- parece estar prestes a ser definido em um tribunal de Londres. 

O avanço rumo à conclusão do caso -- ou da maldição -- ocorre em meio a um aumento vertiginoso no valor de modelos Ferrari antigos. Um 250 GTO de 1962 arrebatou US$ 38,1 milhões (R$ 120 milhões) em um leilão no ano passado, o maior valor já conquistado por um carro. O índice Ferrari da Hagerty de 13 modelos mais que triplicou desde 2010 e atingiu o pico de US$ 5,4 milhões (R$ 17 milhões) em maio.

"Esse carro, junto com alguns outros, entraram no campo da arte", disse Dave Kinney, editor do guia de preços "Hagerty" para carros clássicos, em entrevista por telefone.

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Motorzão V12 de 4,9 litros produz 334 cavalos Imagem: Bonhams

Assalto ao trailer

Kleve, que morreu em 2003 aos 90 anos, comprou o chassi danificado do carro do herdeiro da fortuna dos lenços Kleenex, Jim Kimberly, para aumentar sua coleção. Ele ficou mofando em um trailer do lado de fora da casa perto de Cincinnati, Ohio (EUA), durante três décadas até ser roubado entre 1985 e 1989, conforme documentos judiciais. Aí as coisas começaram a se complicar.

Pouco depois, a máquina italiana, ou pelo menos parte dela, passou por Atlanta e chegou a Antuérpia (Bélgica), onde tinha sido comprada por um comerciante local. Funcionários da alfândega ficaram com o carro para definir a titularidade depois que Kleve informou o roubo, mas as autoridades ficaram do lado do comerciante. Depois disso, ele foi vendido por um valor não divulgado a outro belga, Jacques Swaters, que vende Ferrari e foi piloto de corrida.

Sem saber do furto, Swaters, que se considerava amigo íntimo de Enzo Ferrari, o falecido fundador da fabricante esportivos, passou anos restaurando o carro e a carroceria de alumínio estilo barchetta. Em 1999, depois que Kleve encontrou o carro e confirmou a titularidade com o número do chassi (0384M), Swaters concordou em pagar US$ 625 mil (quase R$ 2 milhões) para ficar com o carro.

Uma década mais tarde, após a morte de Swaters e de Kleve, uma filha de Swaters abriu um processo em Ohio para argumentar que Kleve tinha violado o acordo de vendas porque ficou com algumas peças do carro, de acordo com os documentos jurídicos. À essa reclamação de titularidade seguiram-se duas outras -- de outro morador de Ohio e de um cidadão americano que mora na Suíça.

Em 2013, as quatro partes decidiram conjuntamente "acabar com todas as reclamações e reconvenções" e permitir que a Bonhams, uma das mais antigas casas de leilão do mundo, venda o roadster para que eles possam dividir os lucros. Assim, em junho do ano passado, depois de uma ampla campanha de marketing, ele foi vendido a Wexner, o bilionário da lingerie, em um leilão no histórico Festival de Goodwood, no Reino Unido.

Mas as rixas não acabaram aí.

Bonham's
Visual do roadster da Ferrari leva assinatura Pininfarina Imagem: Bonham's

Concessionária paraguaia

Wexner processou a Bonhams depois da venda porque alega que não foi informado das disputas de titularidade não resolvidas. O empresário demanda o reembolso total mais danos. A Bonhams, por sua vez, processou a filha de Kleve, Kristine, por supostamente vazar as condições do acordo antes da venda.

E isso não é tudo: a Bonhams também está processando uma concessionária paraguaia por fraude. A concessionária, disse a empresa em uma queixa, enviou uma carta três dias antes do leilão para reivindicar a titularidade da Ferrari. A Bonhams, ansiosa para evitar o cancelamento do destaque de Goodwood, supostamente lhe pagou 2 milhões de libras (quase R$ 10 milhões), de acordo com os documentos.

Todos os quatro processos relativos ao carro em Londres foram reunidos para que um juiz possa resolver os litígios de uma vez por todas. A próxima audiência está marcada para setembro.

Embora Kleve talvez não tenha previsto o quanto as pessoas fariam para ter seu velho chassi, com certeza teria gostado da paixão que foi despertada.

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