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Food truck bomba Ducato, van chinesa e Kombi; adaptação parte de R$ 50 mil

Murilo Góes/UOL
Ducato é a preferida para food truck; veículo com esse uso exige manutenção especial Imagem: Murilo Góes/UOL

Leonardo Felix

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

02/12/2014 15h47

Manhã de sexta-feira. O pátio da FAG Brasil, empresa de São Caetano do Sul (SP) especializada em personalização de veículos, está lotado de trabalho. Dos dez veículos em preparação, sete vão virar food trucks, nova moda gastronômica da cidade de São Paulo.

O velho Agrale dos anos 1980, antes uma oficina móvel, será transformado em sorveteria, mesmo destino da Volkswagen Kombi amarela; ao centro, um Renault Master com baú começa a tomar formas de temaqueria; no canto direito, uma van Fiat Ducato está prestes a virar hamburgueria.

"De um ano para cá, a demanda aumentou de três a quatro para até dez pedidos por mês. Só pedidos de orçamento eu recebo uns 300", contou a proprietária da oficina, Gislene Gonçalves Viana. Para dar conta do serviço, ela dobrou o número de funcionários e reformou o galpão.

Dependendo do nível de personalização e dos materiais usados, o preço da preparação varia de R$ 50 mil a R$ 150 mil. O pacote inclui confecção de balcões, armários, pias, fogões e espaço para embutir refrigeradores e botijões de gás.

Em algum lugar escondido do veículo (geralmente abaixo do assoalho), são acopladas baterias elétricas que dão autonomia de três a cinco horas aos equipamentos, com tempo de recarga entre oito e dez horas. Placas de energia solar vêm como "opcional": elas expandem a autonomia para oito horas e pedem duas horas a menos de recarga.

Tudo isso acrescenta, no mínimo, 500 quilos extras às vans e furgões, e até 700 quilos no caso de caminhões-baú. "Em alguns casos, pedimos que o cliente reforce as molas das suspensões", disse Gislene.

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A procura é tão grande que alguns empresários esperam até seis meses pela preparação do food truck (a FAG promete a entrega em 50 dias) Imagem: Murilo Góes/UOL
Somando o automóvel, que não sai por menos de R$ 80 mil se for zero-quilômetro, mais pintura e envelopamento com o tema escolhido (até R$ 7.000), alguns empreendedores chegam a gastar mais de R$ 300 mil para começar no negócio de food trucks.

É o caso da Esquina Pasta Gourmet, criada por uma fabricante de massas em convênio com uma empresa de comunicação visual. Os donos investiram R$ 225 mil para comprar e preparar uma Fiat Ducato novinha. "Escolhemos esse modelo pela segurança de ter um zero quilômetro", explicou Cleuza Alves, uma das gerentes.

Os gastos superam em muito ter um carrinho de pipoca ou cachorro-quente, mas são menores que os de montar um restaurante em ponto fixo. É o que garante a consultora de serviços de alimentação do Sebrae-SP Karyna Muniz. "A economia é de pelo menos 50%, fora gastos com aluguel e manutenção do espaço, funcionários e IPTU", comparou. 

É óbvio que também há desvantagens: o espaço de trabalho é limitado, e não há montadora de utilitários que faça milagre quanto a isso; o cliente não tem o mesmo conforto de um ambiente fechado; a concorrência está acirrada (o Sebrae estima que 500 pontos de comida de rua estarão em operação na capital paulista até o início de 2015); alugar espaço nas principais feiras da cidade é caro (a diária vai de R$ 300 a mais de R$ 1.000, dependendo do local e dia da semana); e o empresário precisa gastar com estacionamento, limpeza, combustível e manutenção do veículo (não menos que R$ 2.000 mensais). Além disso, precisa ter um local para guardar e preparar previamente os alimentos, seguindo as normas da Vigilância Sanitária.

Pensando nisso, o empresário gaúcho Ivan Haubert quer trazer para São Paulo uma central de suporte a food trucks, ideia já implantada em Porto Alegre. Num mesmo espaço, os proprietários teriam acesso a serviços de lavagem e assepsia do veículo, e de armazenagem dos alimentos em depósitos secos ou câmaras frias. "Estamos estudando local, capacidade de operação e preços, e pretendemos começar em meados de 2015", contou. 

Ducato domina

  • Imagem: Divulgação
    Divulgação
    Imagem: Divulgação

    Van da Fiat é preferida entre zero-quilômetro

    Rolando Vanucci, presidente da RuaSP (Associação Paulistana de Comida de Rua), diz que a Fiat Ducato (R$ 83.650) é o modelo preferido dos 140 associados. Depois vem a Renault Master (R$ 85.670). Destacam-se também Mercedes-Benz Sprinter (R$ 93.510) e Kia Bongo (R$ 66.900). Entre os mais antigos, a Volkswagen Kombi (fora de linha) é a mais popular.

LEGISLAÇÃO
Fora se preocupar com a adaptação, o dono de food truck precisa legalizar o automóvel. Primeiro, tem que homologar as modificações no Denatran (Departamento Nacional de Trânsito), por meio de laudo do Inmetro que será entregue ao Detran do respectivo estado -- as principais empresas preparadoras já fazem esse trabalho para o cliente. Depois, precisa solicitar vistoria da Vigilância Sanitária (em São Paulo, a taxa média é de R$ 30).

Por fim, é necessário conhecer a legislação local para operar com o negócio em espaços públicos (cada município tem a sua). Em São Paulo, exige-se a obtenção de um TPU (Termo de Permissão de Uso), onde o solicitante irá determinar o local de atuação (há a cobrança de uma taxa anual, que varia de acordo com o preço do metro quadrado na região escolhida). Os veículos não podem passar de 6,3 metros de comprimento e devem deixar pelo menos 1,2 metro de espaço para os pedestres na calçada. No caso de espaços privados, os acordos são feitos individualmente entre as partes interessadas.

JUNTANDO FORÇAS
Para diminuir os custos, algumas franquias já consolidadas buscam parcerias com grandes empresas para dar novos passos. Rolando Vanucci, proprietário da Rolando Massinha, a já tradicional rede de trucks que vende massas, churros e hambúrgueres, é um exemplo: ele aceitou proposta da fabricante chinesa Lifan para trocar sua frota de Kombis (atualmente são seis) por nove vans da Foison, marca de utilitários lançada no Brasil este ano.

Além do desconto na aquisição dos veículos (nenhuma das partes revelou valores), Vanucci permitirá que outros investidores abram filiais de sua marca, num esquema de franquia, comprando um pacote fechado do Foison preparado por R$ 120 mil.  
Murilo Góes/UOL
Tradicionais Kombis da Rolando Massinha serão trocadas por nove Lifan Foison Imagem: Murilo Góes/UOL
"Vou expandir o negócio e, ao mesmo tempo, economizar com caminhões, com preparação (que será feita em convênio com uma companhia especializada) e manutenção. Manter um truck mais antigo, por mais bonito que seja, é inviável", analisou o empresário.

Hermes Bernardo, dono da Fish & Chips (especializada em combos de batata frita com peixe empanado, "iguaria" da Inglaterra), também contou com a ajuda de um grande grupo alimentício para comprar um segundo veículo -- um Fiat Ducato -- maior do que sua Asia Towner, para emular um típico ônibus inglês. "No nosso caso, achamos uma Ducato seminova em boas condições, e economizamos bastante", afirmou.

Para quem está começando, é importante ficar atento às seguintes dicas: 

Dicas para um food truck feliz

  • Veículo novo é mais seguro

    Ter um food truck retrô pode dar um ar exclusivo ao negócio, mas a manutenção será mais difícil e cara, e o veículo não terá itens de segurança e conforto como direção assistida, freios com sistema ABS (antitravamento) e airbags. "Usar um modelo ainda em produção também ajuda na hora de expandir a franquia seguindo o padrão original", alertou Karyna Muniz, especialista do Sebrae.

  • Não use para outros fins

    Por conta do peso extra, que pode chegar a 700 kg, não se recomenda andar com os food trucks no dia-a-dia. Use só para levá-lo de casa (ou do local onde fica guardado) até o ponto de venda, e vice-versa, ou -- no máximo -- para comprar os ingredientes.

  • Sem ilusão com o espaço

    Por maior que seja o veículo usado como food truck, ele jamais terá o espaço operacional de uma cozinha de restaurante, nem as facilidades de um prédio (por exemplo, banheiros).

  • E sem gambiarra

    Ter um food truck mais profissional custa dinheiro, não tem jeito. Fuja de oficinas que não trabalhem em conjunto com o Detran e a Anvisa, e também de serviços baratos, mas toscos.

  • Conforto da cabine para fora

    Os clientes não vão comer dentro do veículo. Ou seja, se chover, vão se molhar (ou, pior, não vão nem aparecer). Vai se sair melhor o food truck que oferecer uma varandinha, por exemplo. Outra dica: carro e rua são coisas sujas. Que tal disponibilizar álcool gel em abundância para os clientes?

No fim, só os mais criativos e preparados não vão jogar dinheiro fora. "O mercado de comida de rua se fortaleceu para valer, mas, assim como qualquer outro negócio, só os melhores vão sobrar", previu Karyna Muniz, do Sebrae. E, claro, oferecer os serviços num veículo bacana e em bom estado será fundamental.

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