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Marchionne reconstrói Fiat e Chrysler para tentar seduzir o mundo

Rebecca Cook/Reuters
Marchionne quer provar ser genial, não louco, ao apostar tudo na Fiat e Chrysler Imagem: Rebecca Cook/Reuters

David Rocks e Tommaso Ebhardt

Da Bloomberg

10/10/2014 14h07

Sergio Marchionne gosta de se mover com velocidade. O chefão da Fiat e da Chrysler é dono de meia dúzia de Ferrari, tem casas em três países e passa a maior parte de seu tempo em um jato privado, viajando entre Detroit (EUA, sede da gigante americana), Turim (Itália, cidade de origem da Fiat) e outros postos avançados de seu crescente império.

Movido por uma dúzia de expressos ao dia e maços de cigarros Muratti, ele irrompeu na Fiat uma década atrás e demitiu a maior parte da alta direção. Depois fez o mesmo na Chrysler, em 2009, instalando uma dúzia de recém-chegados em seu segundo dia.

Na manhã cinza de uma terça-feira recente, Marchionne pegou um Ferrari Enzo preto e deu uma volta na pista de testes de alta velocidade da Fiat, próxima à cidade de Balocco, 64 quilômetros a leste de Turim. "Quando você está irritado", disse ele, pisando no acelerador e levando o carro dos ainda confortáveis 200 quilômetros por hora para algo além dos 300, "não tem nada melhor do que isso".

Em um momento no qual ele e o presidente do conselho da Fiat, John Elkann, se preparam para tocar o sino do encerramento da Bolsa de Nova York, no dia 13 de outubro, para marcar um novo lançamento no mercado, o da Fiat Chrysler Automobiles, Marchionne está correndo para criar uma linha de carros que atraia compradores às concessionárias de todo o mundo.

Até 2018, a empresa combinada planeja investir cerca de US$ 60 bilhões (mais de R$ 145 bilhões) adicionando mais de 30 modelos, englobando de subcompactos a um veículo utilitário esportivo da Maserati. Isso, prevê ele, ajudará a nova empresa a ampliar as vendas em 60%, para 7 milhões de carros, despejando no grupo um lucro de 5 bilhões de euros (US$ 6,3 bilhões).

"Estamos nos movendo o mais rápido que podemos", disse Marchionne, após uma volta pelas curvas inclinadas do circuito.

ACIDENTE DE PERCURSO
Marchionne seria o primeiro a dizer que a velocidade pode ser perigosa. "No negócio de carros, às vezes você tem um acidente", disse ele. Ele deve saber o que diz: em 2007, ele destruiu um modelo de US$ 350.000 da Ferrari em uma rodovia na Suíça. Contudo, argumenta que mover-se mais lentamente seria ainda mais arriscado.

A Fiat Chrysler é o grupo número 7 na fabricação de carros, em vendas, e há muito tempo Marchionne diz que há espaço apenas para meia dúzia de grandes montadores, ou menos.

Reprodução
Marchionne a bordo do Alfa Romeo 8C em 2012 Imagem: Reprodução
O casamento transatlântico de duas fabricantes regionais de carros em dificuldades provavelmente será a pedra angular da carreira de Marchionne. Ele diz que se comprometeu a continuar na Fiat até 2018. A velocidade para colocar a nova empresa de pé durante suas voltas finais poderá determinar seu legado.

O plano de Marchionne conta com legiões de céticos. Metade dos analistas que cobrem a Fiat recomenda que os investidores vendam as ações, dizendo que as metas de vendas do CEO não são realistas e que sua dívida de 10 bilhões de euros (mais de R$ 30 bilhões) é muito alta. A empresa de pesquisas IHS prevê que a empresa ficará 1,8 milhão de carros aquém de sua meta para 2018.

"Eles lançarão mesmo todos esses modelos?", disse Ian Fletcher, analista da IHS. "Além disso, desenvolver novos modelos é uma coisa, atrair os consumidores é outra".

Tomando um expresso na varanda da sede da fazenda do século 19, no centro da pista de Balocco, Marchionne disse: "Eu estou acostumado à incredulidade". Ele disse que estabelece metas ambiciosas porque visar algo mais baixo seria "estabelecer a mediocridade como referência. Você colhe o que planta".

GOSTO PELO RISCO
Fanático pelo pôquer, a ponto de insistir que os passageiros do jato corporativo da Fiat joguem cartas com ele noite adentro, Marchionne tem um histórico melhor como negociante do que como fabricante de veículos. Na última década, ele tirou tanto a Fiat quanto a Chrysler de uma posição no limite da concordata. Em 2005, ele enfrentou a General Motors, ameaçando cumprir um contrato que teria exigido que a companhia americana, em dificuldades, comprasse uma Fiat em estado ainda mais crítico; ele saiu do caso com um acordo de US$ 2 bilhões em dinheiro.

Quatro anos depois, ele assumiu a Chrysler, gastando apenas 10% dos US$ 36 bilhões que a Daimler AG, da Alemanha, havia pago pela companhia em 1998.

Marchionne tem tido menos sucesso com os carros. Ele abandonou a célebre marca italiana Lancia após tentar relançar modelos Chrysler com o logotipo da Lancia para vendê-los na Europa. Ele chegou tarde à China. E apesar das promessas iniciais de levar a Alfa Romeo de volta aos EUA já em 2011, a marca de carros esportivos de luxo não chegará lá antes de 2016, com exceção de um modelo de dois lugares lançado neste ano, que não venderá mais de 1.000 unidades.

"Eu sou louco por carros", disse ele, olhando para uma frota de Maserati e Ferrari sob o pórtico de um estábulo reformado, em Balocco. "Mas meu instituto de sobrevivência é mais forte que o meu vício por carros".

Esse instinto de sobrevivência o levou praticamente a abandonar o mercado popular na Europa, que ele diz estar cheio demais para oferecer um lucro significativo. Em vez disso, ele quer transformar fábricas italianas subutilizadas da Fiat em máquinas de exportação para carros caros. Em 2000, a Fiat fabricou 1,4 milhão de veículos na Itália. Até 2013, sua produção italiana havia caído para menos de 400.000 depois que a Fiat reduziu a fabricação de modelos que competem diretamente com campeões de venda como o Golf, da Volkswagen AG.

"Fizemos um grande exame de consciência para tentar ver como utilizar melhor o que tínhamos na Itália", disse o chefe de Marchionne, Elkann, tataraneto de Giovanni Agnelli, que fundou a Fiat em 1899.

Xinhua/Brancolini/Fotogramma/Ropi/ZUMA Wire
Marchionne não hesita em demitir desafetos: Montezemolo, da Ferrari, foi o último Imagem: Xinhua/Brancolini/Fotogramma/Ropi/ZUMA Wire
RIVALIDADE
A musculosa marca Jeep é fundamental para o plano deles. Marchionne pretende iniciar a fabricação do Cherokee SUV na China até 2016 em sua busca pela duplicação das vendas, para mais de 1,9 milhão de veículos, em grande parte quintuplicando a comercialização no país mais populoso do mundo. O nome Jeep, diz Marchionne, "é confiável e é compreendido por todos". E ele espera que a Alfa Romeo e a Maserati roubem clientes da BMW, da Mercedes e da Audi.

A reputação dos alemães como fabricantes de carros de maior qualidade que os italianos "é besteira", disse Marchionne, apagando seu cigarro em um cinzeiro.

A Fiat está lustrando sua imagem nos EUA e na Europa como fabricante do retrô-hipster 500, pensado como uma resposta à marca Mini, da BMW. O problema é que a identidade da marca é confusa nos demais lugares. O Brasil, por exemplo, agora constrói mais Fiat do que qualquer outro país, por isso "quando um brasileiro vai a Nova York e vê um Fiat, ele diz 'ei, esse carro é brasileiro'", disse Marchionne.

CAÇA À TOYOTA

Embora tenha dito que a Fiat pode administrar seu plano de investimento por conta própria, Marchionne avaliaria uma outra aliança se surgisse a oportunidade certa. Sem identificar possíveis parceiros, ele disse enxergar a possibilidade de uma fusão que criaria uma empresa maior que a Toyota, a maior fabricante de veículos do mundo.
 
"O setor precisa disso", disse Marchionne. "Este ainda é um setor muito fragmentado para o nível de capital que você tem que investir".
 
Mesmo se um acordo como esse acontecer, Marchionne não pretende continuar na empresa depois de 2018 para torná-lo um sucesso. Ele diz estar preparando vários membros de sua equipe para o cargo mais alto do grupo, pois Elkann diz que não está interessado em acumular os títulos de presidente do conselho e CEO.
 
"Você me pergunta se eu gosto de outras coisas além disso? Extraordinariamente, sim", disse Marchionne, acendendo outro Muratti. "Eu gosto de poder pensar e isso nem sempre é possível neste cargo".

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