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Blindagem dispara no Brasil em meio a medo e "neurose"

Avener Prado/Folhapress
Carro blindado que foi alvo de tiros em Santo André (SP): vale a pena se sentir seguro se for à toa? Imagem: Avener Prado/Folhapress

Leonardo Felix

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

17/03/2014 12h09Atualizada em 18/03/2014 14h52

Um dado do setor automotivo mostra como anda baixa a confiança do brasileiro na segurança pública: só no ano passado, estima-se que cerca de 10 mil veículos tenham passado pelo caro e demorado processo de blindagem no país, crescimento de aproximadamente 15% na comparação com 2012.

Os dados são da Abrablin (Associação Brasileira de Blindados), que deu a UOL Carros uma prévia do que deve constar no balanço anual da entidade, previsto para divulgação ainda este mês. É um percentual expressivo, maior que os índices do PIB e da venda de carros novos em igual período.

O Brasil já rompeu a barreira de 100 mil veículos com proteção balística circulando pelas ruas, número só comparável a países como Estados Unidos, México e Colômbia. "Houve um aumento da sensação de insegurança. A impunidade é grande e as pessoas ficam preocupadas. Esse é o principal motivo", aponta Laudenir Bracciali, presidente da Abrablin.

NÍVEIS DE BLINDAGEM

  • Avener Prado/Folhapress

    Há seis tipos diferentes de blindagem, sendo quatro de uso liberado, uma restrita a autorização do Exército e uma proibida

TIPOPROTEÇÃOGRAU DE RESTRIÇÃO
IRevólver .22

Revólver.38
Uso permitido
II-APistila 9mm

Magnum .357
Uso permitido
IIPistola 9mm

Magnum .357
Uso permitido
III-ASubmetralhadora 9mm

Magnum .44
Uso permitido
IIIFuzil FAL

Winchester.308
Uso restrito
IVM60Uso proibido
  • Fonte: Abrablin

O Estado de São Paulo concentra boa parte da demanda, com 70%, seguido pelo Rio de Janeiro (12%). Até aí, nenhuma surpresa. Em terceiro lugar, porém, aparece Pernambuco (4%), mostrando como este serviço tem ganhado força em outras regiões do país. "A demanda vem crescendo muito no Nordeste, que já representa 10% do mercado", afirma Bracciali.

A expansão do segmento é detectada pelos empresários do segmento -- como Rogério Garrubbo, dono da Concept Blindagens. Com sede em Mauá (SP), a companhia abriu as portas em 2003, ano em que blindou 23 unidades. Em 2008 o número já havia subido para 367 -- e no ano passado chegou a 626, alta de 20% ante os 12 meses anteriores (maior que a média do mercado, portanto).

"Tentamos encontrar algum motivo objetivo [para esse crescimento], mas não achamos. É sensação de insegurança, mesmo. Não houve nenhum fenômeno econômico que tenha favorecido isso", comenta Garrubbo.

QUEM BLINDA
Segundo dados da Concept, 70% dos pedidos partem de setores do governo, grandes companhias -- que buscam proteger seus executivos, principalmente se estrangeiros -- e também profissionais como advogados, médicos e dentistas, que solicitam a instalação por meio do CNPJ de seus escritórios. Os demais 30% são pessoas físicas.

O empresário do setor de logística Carlos André Gomes da Silva foi um dos que ajudaram a bombar as estatísticas. Desde que sua mulher passou por "situações de risco", há três anos, ele não sai à rua com um carro novo sem antes levá-lo para ser blindado. Atualmente, possui um Mercedes-Benz C180, um Mitsubishi Pajero Dakar e um Toyota Corolla, todos com proteção balística.

Tentamos encontrar algum motivo objetivo [para a alta na procura por blindagem], mas não achamos. É sensação de insegurança, mesmo

Rogério Garrubbo, proprietário da Concept Blindados

Blindei por causa dos assaltos. Passamos por duas situações em que minha esposa foi abordada

Carlos André Gomes da Silva, empresário

É preciso avaliar se a pessoa é mesmo alvo em potencial. Muita gente acha que é, mas não é. Há bastante neurose

Guaracy Mingardi, especialista em segurança pública

"Blindei por causa dos assaltos. Passamos por duas situações em que minha mulher foi abordada. Numa, ela estava na porta da escola buscando meus filhos", relata Silva. Perguntado se a blindagem o faz sentir-se mais seguro, ele responde, enfático: "Muito".

MEDO EXACERBADO
De um lado, a Abrablin, empresas do ramo e mesmo seus clientes falam da blindagem automotiva como um serviço essencial para quem quer trafegar de forma segura pelas ruas brasileiras. Sempre são lembradas histórias de pessoas que tiveram a vida salva, ou que deixaram de ser assaltadas e sequestradas, por usarem proteção balística em seus automóveis.

Do outro, especialistas pedem menos "neurose" e mais cautela na hora de decidir se vale a pena ou não blindar um carro. "É preciso avaliar se a pessoa é mesmo um alvo em potencial. Muita gente acha que é, mas não é", pondera Guaracy Mingardi, especialista em segurança pública pela USP (Universidade de São Paulo).

PASSO-A-PASSO DA BLINDAGEM

  • Primeiro, é feito um esboço mostrando quais regiões serão blindadas. As partes em amarelo recebem fibra de aramida; as em verde, chapas de aço; em vermelho, lâminas de aço no entorno dos vidros.

  • O carro então é todo desmontado e a 1ª camada a ser inserida é a de aramida.

  • Depois, são encaixadas chapas de aço onde a aramida não protege.

  • A seguir, vem a soldagem das lâminas de aço nas janelas, em sobreposição às áreas onde a aramida não oferece a resistência necessária

  • Passada essa fase, automóvel fica pronto para receber os vidros.

  • Passado o precesso, veículo é remontado e encaminhado a uma série de testes, como este de simulação de chuva intensa, para verificar se há infiltrações. Um inspetor também roda com o carro para ver se há peças soltas e se a suspensão responde bem ao peso extra.

  • Aprovado em todas as inspeções, veículo ganha um "trato" antes de ser devolvido ao dono.

"Para assaltos comuns, pode até ajudar, mas há muita neurose em cima disso. As pessoas têm medo de ser assaltadas e sequestradas no farol, mas essa é uma sensação errada. O grande momento dos sequestros-relâmpago já passou, foi no início dos anos 2000", garante o especialista.

Para Mingardi, a maneira mais eficaz de combater os crimes relacionados a veículos seria aparelhar melhor a Polícia Civil. "É preciso cobrar investigações policiais fortes, que peguem as grandes quadrilhas. Blindagem é só mais um obstáculo, e os criminosos sempre pensam em como burlar obstáculos. Eles estão sempre à frente de medidas paliativas", frisa.

Procurada por UOL Carros, a Divisão de Investigações sobre Roubos e Furtos de Veículos e Cargas (Divecar) da Polícia Civil de São Paulo informou que não é atribuição sua avaliar os efeitos do aumento do número de blindados no país, e que a opção pelo uso de proteção é de "foro íntimo de cada pessoa".

COMO FUNCIONA
No Brasil, a blindagem é regulamentada por duas normas: a NEB E-316, do Exército e que tem mais de 20 anos, e a NBR 15000, criada em 2005 pela ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). Ambas são complementares. As regras permitem quatro tipos de blindagens para civis: I, II-A, II e III-A. A de nível III é restrita e só pode ser instalada com autorização prévia da Forças Armadas, enquanto a do tipo IV é restrita às Forças Armadas e chefes de estado em território nacional.

O processo de instalação dura entre 30 e 45 dias, pois é dividido em várias etapas e requer o desmonte quase integral do veículo (poupando apenas os componentes eletrônicos e de trem-de-força.

Na carroceria, as fábricas utilizam a chamada blindagem "opaca", com camadas de fibra de aramida e aço, enquanto as janelas são reforçadas com lâminas de cristais de plástico ou resina sintética (transparentes), que ficam "ensanduichadas" entre duas camadas de vidro. Lâminas de aço também são usadas para compor as bordas das janelas.

Os materiais costumam aumentar o peso do carro de 150 a 200 kg, o que demanda ajustes nas molas da suspensão. "A média saudável [de peso extra] tem que ficar em 12%. Quando passa muito, a partir de uns 16%, já não recomendamos o serviço", calcula o dono da Concept.

Os preços partem de R$ 30 mil, no caso de uma proteção tipo I em um sedã médio, e se aproximam dos R$ 100 mil, para blindar utilitários grandes com o nível III. Entretanto, 90% dos blindados usam proteção III-A, cujo preço fica entre R$ 50 mil e R$ 75 mil.

As empresas especializadas recomendam fazer revisões anuais nos materiais, e a realizar sua troca integral em caso de agressão, seja por projéteis de armas
de fogo ou acidente.

  • Leonardo Felix/UOL

    Concept Blindagens, em Mauá (SP), já está bem perto da média de 60 clientes/mês

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