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Marcas antecipam nova Revolução Francesa em Frankfurt

Murilo Góes/UOL
Citroën Tubik: veículo para até nove pessoas aponta coletividade contra ideia do carro particular Imagem: Murilo Góes/UOL

EUGÊNIO AUGUSTO BRITO<br>MURILO GÓES

Enviados especiais a Frankfurt (Alemanha)

16/09/2011 13h45Atualizada em 16/09/2011 16h32

Citroën, Peugeot e principalmente a Renault querem mudar o mundo automotivo nos próximos anos e dominá-lo, se possível, ainda que não o digam com todas as letras. As marcas francesas ainda estão distantes das gigantes Toyota, GM e Volkswagen, mas suas armas para tentar inverter o jogo são carros quase sempre de uso urbano, e adoção massiva de tecnologia híbrida ou elétrica, conforme fica claro em cada um dos respectivos estandes do Salão de Frankfurt, que abriu suas portas ao público nesta sexta-feira (16), após dois dias dedicados à imprensa e outro a autoridades e convidados.

Sob olhar atento do chefão Carlos Gohsn, presidente do grupo que controla a aliança além da Renault, a japonesa Nissan/Infiniti, a romena Dacia e a coreana Samsung, a marca do diamante mostrou um produto final, a nova geração do Twingo. O carrinho conhecido do Brasil em sua primeira geração (aquela de cara quadrada e bancos que pareciam o sofá da casa da tia) mudou muito desde então e agora é o primeiro a assumir a nova identidade da marca, projetada pelo holandês Laurent van der Acker e antecipada pelo conceito DeZir em 2010.

O novo "rosto" da Renault tem capô alto e faróis unidos por um friso, como se fossem asas de um avião; os faróis de neblina são enormes, mas não tanto quanto a tomada de ar, colossal. Por dentro, o aproveitamento é máximo, com painéis simétricos, tendo os instrumentos e equipamentos ao centro -- escancarando a plataforma aproveitada para diferentes projetos em diferentes locais do mundo, bastando apenas posicionar o volante no lado adequado da cabine. Os bancos seguem tendo aspecto de sofá retrô, mas o motor é mais moderno que de muito carrão por aí, um 1,2 litro de 75 cavalos capaz de percorrer 17 km com um único litro de gasolina. 

Twingo mostra nova cara da Renault
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Mas não será o Twingo o arauto do futuro. O real interesse do grupo está no plano elétrico: oficialmente, a aliança pretende reduzir suas emissões totais em 10% até 2016, algo que soa ecologicamente correto, samaritano até. Na prática, a aliança quer ser líder do mercado de automóveis elétricos -- quando e se este vier a se estabelecer -- e não poupa investimentos e ligações para isso.

Enquanto a Nissan celebra o sucesso de vendas do hatch elétrico Leaf sobre o rival americano Chevrolet Volt, a Renault mostra uma frota completa de soluções, sejam baratas e com baixo custo de manutenção ou caras.

Além de versões Z.E. (de "emissão zero" em francês) de carros comuns (há até um do sedã Fluence, já conhecida), a marca mostrou os conceitos Fredzy, van comercial ou de passageiros que pode dar origem a uma nova geração do Kangoo, e Twizy, a nova febre europeia para pequenas distâncias em ruas apertadas (Opel, Audi, Volks, BMW e smart têm projetos semelhantes): uma espécie de quadriciclo (a marca chama de minicarro, outros debocham e dizem ser uma moto com teto e duas rodas a mais), que vai custar menos de 7 mil euros, alcançar velocidade máxima de 80 km/h e, segundo projeta a fabricante, poderá dispensar a habilitação do condutor.

Além disso, há um acordo de cooperação com a alemã Daimler: a Infiniti, divisão de luxo da Nissan, vai compartilhar o desenvolvimento da nova plataforma para a família de carros compactos que a Mercedes-Benz está prestes a criar -- parece algo normal dentro do universo automotivo, mas já provoca discussão entre os japoneses, que acreditavam que todo carro da marca deveria ser construído no Japão; além disso, os novos produtos da smart, a divisão descolada da Mercedes que produz o fortwo, terão arquitetura compartilhada com a Renault... lembra do painel do Twingo? Isso explica tudo.

POR UM OUTRO MUNDO
Citroën e Peugeot, ramificações da PSA, apostaram na tecnologia Hybrid4 de carros com motores a diesel movendo as rodas dianteiras e motores elétricos acoplados ao eixo traseiro, criando uma espécie de tração integral. Na Peugeot, o resultado são a 508 RXH, produto real de 40 mil euros, com motor a diesel de 163 cavalos e elétrico de 37 cv, concebida para enfrentar as peruas médio-grandes alemãs Mercedes Classe E e BMW Série 5, e o conceito HX1, que pode ser a mesma station, mas numa versão futurista e totalmente elétrica.

  • Murilo Góes/UOL

    Perua RXH, derivada do sedã médio-grande 508, enfrenta alemãs com motores a diesel e elétrico

A Citröen monopolizou seu estande com carros da linha DS, que podem ser personalizados ao extremo. Segundo a marca, o DS3 (baseado no C3 europeu e prometido para estrar no Brasil até 2012) é um sucesso, com 100 mil vendas em 18 meses, ao passo que o DS4 (derivado do C4 europeu) já tem 14 mil pedidos feitos. O mais novo membro da família é o DS5, hatch grande e intrigante que conta com os mesmos 200 cv totais de potência e pode ter o interior, que originalmente tem jeitão de caça com seus inúmeros botões e painéis futuristas, totalmente modificado ao gosto do cliente.

O mais interessante, porém para está num cantinho, parado. O conceito Tubik é a releitura do Tub (apelido dado ao utilitário francês H1 do começo do século passado, mais ancestral que a alemã Kombi) e pode ser encarado de duas formas: uma van para até nove pessoas, substituta da C9, que pode ter os assentos configurados de acordo com a necessidade e permite diversas opções de interação/comunicação/diversão aos ocupantes; a outra possibilidade é a de um veículo que permita a pessoas abandonarem seus carros, ainda que por um dia, e dividirem seus trajetos até o próximo compromisso a bordo de um veículo espaçoso, confortável e conectado. A integração, aliás, já está em curso na França e na Alemanha, através do serviço Multicity da Citroën: sem pagar nada, a pessoa digita de onde vem e para onde vai, o sistema indica rotas e alternativas para quem quer ir de carro, mas também (e aí está o diferencial) para quem planeja utilizar outras formas de transporte, do táxi a bicicleta, do ônibus ao metrô, do carro alugado (que pode ser da Citroën ou de outra marca) ao avião (o serviço integra companhias aéreas e até hotéis no destino). A grande sacada do Multicity está no fato de ser atrativo até mesmo para os patrulheiros ideológicos que colocaram o carro, que é apenas um tipo de transporte, como símbolo do que há de pior na sociedade atual.

Segundo executivos da marca, o sistema não seria complicado de ser adaptado ao Brasil, mas estaria mais engessado ao pacote de serviços oferecidos aos clientes da marca. Nossa realidade ainda não é tão revolucionária assim.

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