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O pitaco de Pitágoras na polêmica dos preços

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Pitágoras, grande matemático grego, andava a pé Imagem: Reprodução

FERNANDO CALMON

Colunista de UOL Carros

08/07/2011 21h53Atualizada em 10/07/2011 16h25

Confesso que nunca escrevi um texto de apenas 3.000 toques com tanta repercussão. A maioria dos leitores com comentários ácidos não me impressionou. Só me bastam algumas opiniões de pessoas que julgo sensatas:

"O cara lê o artigo, espinafra o autor e se sente o Chicote de Deus... Agem no embalo do populismo barato. Isso é sempre perigoso."

"A capacidade cognitiva da maioria não é assim tão grande... Não vale a pena esquentar a cabeça com o que diz a maioria sem base para criticar. Perdoai-os, ó Mestre. Eles não sabem o que dizem..."

"Escrever para agradar ao público da internet deve ser fácil, mas nada gratificante quando se trata de temas espinhosos e que exigem maior grau de conhecimento. A minoria pensante não costuma se manifestar."

Aqui posso me estender com números para embasar o que escrevi antes num texto compacto [leia nota do editor ao final do texto]. Não menosprezo o trabalho dos outros só porque tive 1/10 do espaço para expor os fatos. Também não distorço o que os outros escrevem na ânsia de aparecer bem na foto.

Fui bastante claro: preços dos carros no Brasil são influenciados -- de forma permanente -- por três fatores: impostos, Custo Brasil (visível e invisível) e as variações cambiais. O aloprado "Lucro Brasil" é uma nuvem no céu e muda a cada vez que você olha e faz as contas que convêm a uma determinada convicção ideológica.

Um leitor perguntou o que é custo invisível. Entre vários outros, nossas estradas em petição de miséria são as mais caras do mundo, recolhem pedágio para os bolsos errados mesmo sem as cancelas e encarecem os carros com reforços estruturais e elevação da altura de rodagem, o que aumenta o arrasto aerodinâmico, o consumo de combustíveis e as emissões.

Comparar custos visíveis exige uma moeda de conversão, dólar ou euro. Anote essas diferenças:

a) Custo total de produção de veículos no Brasil: 60% maior que a China e 33% superior ao México.
b) Aço: 40% mais caro que México, China e Índia.
c) Juros: sem comentários, mas balizam os custos de investimentos. No Japão, 2% para descontar uma duplicata, no Brasil 45% ao ano.
d) Hora da mão-de-obra com ônus diretos e indiretos: 340% superior a Índia e China; 104% mais cara que o México.
e) Água industrial: 97% mais cara que no México; 900% mais cara que na Argentina.
f) Gás: 185% mais em relação ao México; 263% superior à Argentina.
g) Eletricidade: 100% sobre o México; 150% a mais em relação à Argentina.

Sabe quantas horas são gastas apenas para administrar a burocracia de tributos no Brasil? São 2.600 horas/ano. No México, 549 horas; na China, 504; Índia, 300; Estados Unidos, apenas 187 horas.

A fonte é a empresa internacional de consultoria PriceWaterhouseCoopers, estudo de 2010. Claro, sempre a "maioria" vai achar que o Lucro Brasil anula tudo isso com folga. Mas não provam, porque lucro é a diferença entre preço (possível) de venda e os custos, abatidos os impostos.

Aliás, muitos aqui adoram uma teoria da conspiração. Balanço financeiro que mostra lucro elevado só pode ser exploração do povo, não importando se a empresa perdeu dinheiro no passado. Se revelou prejuízo, deve ter sido fraudado para esconder o lucro.

A QUESTÃO DA MOEDA
Vamos à discussão cambial. O real não é moeda conversível. Então é preciso eleger o dólar como referência, utilizado nas transações e comparações no mundo.

Suponha que a moeda americana valesse R$ 3,00 e não R$ 1,55 como agora (já esteve em quase R$ 4 no final de 2002). Um Fiat Mille custaria US$ 7.333,33 com toda a carga fiscal brasileira. O carro mais barato nos Estados Unidos começa em torno de US$ 12.000 (lá o frete é cobrado à parte). Mas se enfrentasse a mesma carga fiscal direta brasileira custaria US$16.000, no mínimo.

Em matérias jornalísticas é comum informar preços em reais. Vamos a eles. Pode-se comparar o Toyota Corolla nos EUA e no Brasil, quase iguais. No câmbio atual, o americano custa R$ 28.000 e o brasileiro, R$ 67.000. Chocante, mas se o dólar estivesse, como em dezembro de 2008, a R$ 2,53, o Corolla americano valeria R$ 45.000, e com o dólar a R$ 3, R$ 54.000. Ou seja, igualando-se os tributos, o carro de lá sairia mais caro que o daqui, apenas pelo efeito cambial, esvaziando essa discussão meio tola.

Fator Big Mac (a moeda fictícia FBM$). De fato, penitencio-me pelo erro absurdo na minha coluna. O preço correto do Big Mac é de R$ 9,50 (só o hambúrguer) e havia tomado como referência R$ 15,50 com refrigerante e batatinha frita. Nos EUA, US$ 3,49 (só o hambúrguer) mais 8,25% de imposto, ou US$ 3,78.

Para comprar o carro mais barato lá, o americano gastaria o equivalente a FBM$ 3.174 e no Brasil, FBM$ 2.315. Por esse critério neutro, um automóvel de entrada é mais barato no Brasil do que nos EUA. Obviamente não estou comparando equipamentos nos veículos e sim a capacidade de o cidadão se motorizar. Não sei quanto custa esse sanduíche na Índia, mas estimo que com algo em torno de FBM$ 1.000 se compre um Tata Nano.

Quem discordar, escreva uma carta para Pitágoras no Além. Criador da matemática, ele se foi desse mundo em 497 a.C.

E quanto aos impostos incidentes sobre veículos no Brasil, apresento um estudo feito em 2007 (com dólar menos desvalorizado) por uma consultoria especializada em comércio exterior. Em resumo, um carro que chega aos portos brasileiros por US$ 10.000 aparece nas lojas por US$ 30.571. Veja o passo a passo aqui.

Ah, Pitágoras manda lembranças. Acabei de receber um e-mail dele, psicografado.

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Nota do editor de UOL Carros -- Decidi ceder este espaço ao colunista Fernando Calmon espeficamente para que ele aprofundasse o raciocínio sobre os preços dos carros no Brasil. Fiz assim porque o jornalista Joel Leite -- que defende ponto de vista diametralmente oposto, e que aceitou a polêmica com Calmon -- pode expor seus argumentos num espaço virtualmente infinito em seu blog em UOL Carros. Por mais proveitoso que seja o debate, fica também determinado que, caso desejem, os dois jornalistas poderão escrever em confronto direto mais uma única vez, em textos de igual extensão e publicados simultaneamente na editoria, com destaque editorial garantido.


 

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