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Na rua, na estrada, na pista: JAC J3 encara seu teste mais duro

Murilo Góes/UOL
JAC J3 se contorcendo em Interlagos: dura prova para o suposto melhor chinês Imagem: Murilo Góes/UOL

Claudio de Souza*

Do UOL, em São Paulo (SP)

26/04/2011 10h06Atualizada em 15/08/2012 14h00

OK, você certamente já ouviu falar da JAC Motors. Pode até escolher a pronúncia do nome: "djéc", como quer seu presidente, Sérgio Habib, ou "djác", como fala o apresentador Fausto Silva na propaganda do modelo J3, o primeiro da marca chinesa a ser vendido no Brasil. Especialmente se você mora em São Paulo, há grandes chances de já ter passado diante de alguma concessionária JAC -- na capital paulista, elas ocupam prédios em algumas das principais avenidas. Muita gente assimilou a ideia de que trata-se da fabricante de veículos chinesa com maior lastro de credibilidade numa operação verde-amarela. Entre outras coisas, porque seus carros têm garantia total de seis anos.

Mas, afinal -- e sendo curto e grosso na pergunta: os carros da JAC prestam?

Mais precisamente: o J3, primeiro produto da marca a ser vendido em grande escala no Brasil, presta?

UOL Carros conviveu com um J3 hatchback (há também a carroceria sedã, apelidada de Turin) durante quase duas semanas. Rodou 650 km com uma unidade praticamente zerada (o carro tinha menos de 200 km). Circulou pelas ruas de trânsito insano em São Paulo, deslizou nas boas e caras estradas paulistas e, fato raro ou mesmo inédito numa avaliação, participou de uma prova de regularidade em Interlagos. Tudo isso nos permite, cremos, dar a melhor resposta sobre um dos carros mais intrigantes (e importantes) lançados no Brasil no século 21.

ESTILO E INTERIOR
Antes de abordar o comportamento dinâmico do J3, valem algumas considerações sobre o estilo e o recheio do modelo. Uma das apostas da JAC é propagandear que, pelos preços fechados de R$ 37.900 (hatch) e R$ 39.900 (sedã), o dono de um J3 leva para casa um carro que não precisa de mais nada. "Ou você pega um completão, ou fica com um peladão", brincou Faustão durante o evento de lançamento à imprensa, em março último. Ao menos por enquanto essa frase não foi usada na publicidade da TV, mas ela expressa exatamente o que o experiente vendedor Habib -- introdutor da Citroën no Brasil -- diria a cada um dos potenciais compradores de um J3, caso trabalhasse num balcão de concessionária.

  • Murilo Gões/UOL

    Linhas do JAC J3, assinadas pela Pininfarina, não são ousadas, mas também não devem nada às dos demais hatches compactos do mercado brasileiro

De fato, o modelo tem muita coisa que, de um modo geral, só se obtém em carro vendido no Brasil quando se paga à parte, ou então em faixas de preço superiores -- digamos, perto ou acima de R$ 45 mil. Freios com ABS (antitravamento) e EBD (distribuição de força), airbags frontais, sensor de ré e faróis de neblina são exemplos de itens de segurança; ar-condicionado e regulagem elétrica dos retrovisores, de conforto; e rodas de liga-leve, de estilo. Compactos como Citroën C3 e Volkswagen Polo, tidos como "premium", não oferecem tudo isso de série e são mais caros (e têm garantias mais curtas).

O JAC J3 DIRIGIDO NA CIDADE

Vamos direto ao ponto: o JAC J3 é, de longe, o melhor carro chinês que desembarcou no país até o momento e é, sim, capaz de brigar em pé de igualdade -- e até superar em alguns pontos -- seus concorrentes diretos. E isso ficou claro ao rodarmos com o veículo em percurso urbano, quando o comportamento ágil proporcionado pelo motor se mostrou de grande valia, em especial durante acelerações após o sinal verde do semáforo. A unidade não é nenhuma "força da natureza" e fala alto em rotações elevadas, mas é adequada ao uso urbano.

A suspensão vence as esburacadas ruas brasileiras sem dificuldades. Ainda é cedo para dizer como ela irá se comportar após um maior tempo de uso, mas, no geral, saiu-se bem e apresentou um bom compromisso entre conforto e estabilidade. Valetas e lombadas também não são problema e, mesmo em momentos de descuido, o J3 não raspou a frente. A direção é levíssima em baixas velocidades, o que auxilia nas manobras. Andando mais rápido ela endurece, mas continua mais leve que o recomendado. O que causa mesmo um certo desconforto é o volante, fino demais.

Feitos os elogios, vamos ao grande problema do modelo: a caixa de câmbio. Essa questão fica ainda mais evidente no ciclo urbano, que exige trocas constantes. O conjunto, apesar de bem escalonado, possui engates pouco precisos. Por vezes, ao tentar engatar a quinta marcha, ela escapava e o câmbio ia ao ponto-morto. É irritante e, certamente, o ponto fraco do J3.

A vida a bordo do modelo é agradável. Com quatro pessoas na cabine, havia bom espaço para as pernas de todos os ocupantes. A reclamação, no caso, foi contra a altura do teto sobre o banco traseiro: a queda acentuada pode causar incômodo aos ocupantes. Os comandos estão bem localizados, mas vale notar que a entrada USB do sistema de som aceita apenas conexões mini-USB, pouco usuais para o consumidor brasileiro. (por Rodrigo Lara)

Pelo lado de fora o J3 entrega um design relativamente contemporâneo, mas ainda um tanto derivativo. A dianteira tem alguma personalidade, com grade e conjunto óptico em "U" formando um desenho (supostamente) inspirado em máscaras do folclore chinês -- mas a traseira parece de Fiat Palio velho, e nela se destaca o infeliz corte interno reto das lanternas, o qual, em vez de simplificar, complicou os contornos da tampa do porta-malas. A silhueta é mais alongada que o padrão dos hatches, mas o carro, na verdade, é curto: mede 3,96 metros, pouco mais que um Volkswagen Gol.

Em suma, não é um carro bonito, muito menos na insossa cor prata da unidade que testamos (o preto é mais interessante). Mas também não é feio. É neutro.

Por dentro o J3 se mostra um bom anfitrião. O espaço da cabine é suficiente para quatro adultos, aproveitando ao máximo o entre-eixos de 2,4 metros. Os materiais não são nobres, mas agradam bastante -- o plástico do painel frontal é texturizado, o tecido dos bancos é de boa qualidade e há aros cromados envolvendo as saídas de ar centrais. A posição de dirigir é boa, mas o assento do motorista clama por um ajuste de altura. O volante o possui -- mas não oferece regulagem de profundidade. E o inacreditável logotipo da JAC (uma estrela de cinco pontas) em seu centro sempre lembrará o motorista de que carro NÃO É um Mercedes-Benz.

Sempre? Bem, uma das características mais irritantes dos comandos em carros da marca alemã é a disposição das alavancas de direção e do cruise control, ambas do lado esquerdo do volante, a convidar o motorista à confusão. No J3 há uma falha semelhante: a alavanca que aciona lanternas e faróis fica totalmente escondida pelo volante. Como a iluminação do painel é permanente e não há luz-espia indicando o uso das luzes externas (só há para o farol alto), é preciso esterçar o volante para olhar a alavanca. Ou então aprender a decifrar a posição pelo tato.

E por falar em painel: ele é horroroso. A cor azul, segundo a JAC, foi escolhida a dedo para agradar ao público brasileiro, em vez do âmbar mais ao gosto dos chineses. Pode ser, mas o tom quase arroxeado, excessivo e irritante, só agrava a confusão causada pelos marcadores concêntricos de rotações e velocidade. E não há computador de bordo -- o que, juntamente com as distorções típicas do uso em pista, impediu uma marcação confiável de consumo médio (a JAC não informa esses dados).

Mais considerações de estilo e sobre o recheio e a ergonomia do J3 podem ser encontradas nas legendas das fotos de Murilo Góes, logo abaixo:

Toda a equipe de UOL Carros experimentou o J3 hatch; diferentes motoristas deram ênfase a diferentes terrenos e situações. Algumas opiniões podem divergir pontualmente -- não houve consenso sobre o câmbio, por exemplo, e teve gente que gostou da iluminação azul...

As experiências com o carro em cidade e estrada estão nos boxes de texto. O que vem a seguir é um relato sobre o uso do J3 em condições mais extremas, em pleno Autódromo de Interlagos, em São Paulo.

O JAC J3 NA PISTA
No dia 13 de março, levamos o carro chinês para competir na 1ª etapa do Festival de Regularidade 2011, em Interlagos. Trata-se de uma prova aberta ao público em geral (mediante uma taxa, é claro) e disputada com carros de passeio de qualquer marca e motor. Ao longo de uma hora de competição, é preciso cravar o mesmo tempo a cada volta. Segundos a mais ou a menos são punidos com perda de pontos.

Como o J3 é um carro de motor pequeno -- de 1,3 litro, embora a JAC exagere (como fazem outras marcas) e o descreva como um 1,4 litro --, achamos mais prudente escolher o maior entre os três tempos propostos para cumprir os 4.309 metros de Interlagos: 2m54s, o que pediria uma velocidade de constantes 89 km/h caso o traçado pudesse ser feito uniformemente. Como Interlagos não é um circuito oval (muito ao contrário), isso é impossível -- e excelente para testar um carro.

O JAC J3 DIRIGIDO NA ESTRADA

UOL Carros submeteu o J3 a cerca de 150 km de trecho rodoviário na região metropolitana de São Paulo, em duas sessões -- uma diurna, outra noturna. Em ambas o hatch proporcionou boas condições de dirigibilidade, mas com a ressalva de que sua proposta é nitidamente urbana.

A vida a bordo do J3 é tranquila também na estrada: a qualidade do isolamento acústico surpreende para um carro mais voltado ao segmento popular, e na maior parte do tempo são notados apenas os ruídos típicos da rodagem, provocados pelo atrito dos pneus com o asfalto e pela resistência do ar. Isso é algo que você não vai encontrar nos rivais das quatro grandes marcas, e nem nos das chamadas newcomers. O fluxo do ar-condicionado é adequado e mantém o ambiente de toda a cabine confortável.

À noite, a iluminação azulada com detalhes em vermelho do painel (inspirada no padrão da Volkswagen) se mostra correta e pouco cansativa aos olhos do motorista -- o que alivia, em parte, a confusão de números provocada pelo conta-giros instalado ao centro do velocímetro.

A grande questão, porém, é que o conjunto mecânico do J3 está mais ajustado ao trânsito urbano. Nada a reclamar da suspensão, que mais uma vez mantém o hatch na linha e sustenta bem a carroceria, mesmo em curvas contornadas com maior ousadia. Câmbio e motor vacilam, porém, numa situação comum a alguns modelos 1.0 e 1.4. Imagine a situação: pista livre à frente, você embala e assume um ritmo constante, entre 90 e 100 km/h, para então subir uma marcha de modo a reduzir giros e o gasto de combustível. Tudo parece ir bem até que...

Até que o motor esvazia e a velocidade cai, cai e cai, seja por uma curva mais inclinada ou um leve aclive. Isso é algo comum com o J3 e, com o trabalho constante de reaceleração, o consumo tende a subir, quando se espera justamente o contrário (mas não pudemos aferi-lo devido à ausência de computador de bordo). E não adianta desligar o ar, que não fará diferença. À falta de fôlego do motor se alia a imprecisão do câmbio, que ainda prejudica o motorista em situações de ultrapassagem.

Assim, fica a dica: se pegar estrada, mentalize que seu ritmo deverá ser mais moroso, ajuste o nível do ar-condicionado, coloque um som agradável via rádio ou MP3 e curta a tranquilidade da cabine do J3. Os chineses demonstram ímpeto em conquistar o mercado brasileiro, mas você sempre pode ir com muita calma até o seu destino. (por Eugênio Augusto Brito)

Para se ter uma ideia: nas dez voltas que valeram para efeito de pontuação, a velocidade máxima registrada pelo J3 foi de 146 km/h, aferida nos postos de cronometragem no final de reta (segundo a JAC, o carro pode chegar a 186 km/h). Mas a cada volta a média ficou sempre entre 88 km/h e 93 km/h. A amplitude desses números deixa entrever o quanto o J3 foi exigido em freadas fortes, retomadas até o limite dos giros e acelerações abusadas.

E ele surpreendeu.

O início da prova foi de natural desconfiança, especialmente em relação à suspensão: o sistema do hatch visivelmente foi elevado para enfrentar o asfalto urbano brasileiro com mais conforto, deixando um vão entre carroceria e pneus digno de um off-road light. Só que o asfalto de Interlagos é perfeito, e fazer curva não é para carro "altinho".

Tudo bem: o J3 se segurou no traçado quase o tempo todo, eventualmente escorregando um pouquinho ao completar o S do Senna e na entrada do Laranjinha -- curvas que requerem cuidados especiais. Após algumas voltas, o J3 já era quase nosso velho conhecido, com um comportamento bastante previsível. Consequentemente, e muito importante na pista, antecipável.  

O propulsor de quatro cilindros, 16 válvulas, 1.332 cm³ de deslocamento, 108 cavalos de potência e 13,8 kgfm de torque a 6.000, movido apenas a gasolina (o motor flex está prometido para o futuro), obviamente não é uma turbina de Boeing, mas mostrou vontade e resistência ao longo da prova. Terceira e quarta marchas foram sempre esticadas até perto do limite de giros do motor, logo acima de 6.500 rpm, e não houve sinal de sobreaquecimento ou de qualquer outro tipo de "cansaço" do conjunto. O câmbio manual de cinco marchas se mostrou bem escalonado e aceitou trocas mais agressivas. Não é excelente, mas é melhor que o de um Fiat Palio, por exemplo.

Pena que o volante -- que tem alguma folga, perceptível em retas -- seja de empunhadura mais delicada: ao menos para uma direção esportiva seria preferível uma peça mais encorpada. E o banco excessivamente mole também não ajudou a preservar as costas do piloto.

No fundo, o aspecto mais importante a ser ressaltado nessa experiência de pista com o JAC J3, muito mais que qualquer número de desempenho, talvez seja o fato de ele nos ter passado suficiente segurança para irmos até as últimas consequências (dentro de nossas habilidades como piloto) numa prova cujas principais demandas para o carro são versatilidade e confiabilidade, e envolvendo modelos de diversas outras marcas -- alguns novíssimos, outros com mais de 15 anos de uso, mas todos de fabricantes com décadas de tradição, no Brasil e/ou fora dele. Em outras palavras: nenhum deles era chinês. E o JAC J3 trabalhou de igual para igual.

No geral, a equipe de UOL Carros aprovou o modelo chinês, com ressalvas menores (como as de estilo e acabamento). Tudo parece indicar que este -- digamos assim -- é um carro "sério". Se é durável, e se a JAC do Brasil conseguirá cumprir promessas audaciosas como a garantia total de seis anos, só mesmo o tempo para dizer. Por ora, faça (ou não) a sua aposta. É disso que se trata.

*Com Eugênio Augusto Brito, da Redação, e Rodrigo Lara, colaborador

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