Carros

Utilitário nacional 100% elétrico já é realidade

Ricardo Panessa

Especial para o UOL
Em Campinas (SP)

11/11/2009 08h00

Se depender do ruído de motor ou de rodagem para chamar a atenção, o Aris vai passar despercebido. Mas, ao primeiro olhar, é fácil notar que trata-se de um veículo diferente. Fabricado em alumínio, a carroceria tem cabine no incomum formato de gota, para-brisa levemente arredondado, capô bem curto e para-lamas dianteiros salientes. Seu grande diferencial, no entanto, é ser 100% elétrico.

  • Divulgação

    Utilitário compacto Aris, da Edra em parceria com CPFL Energia, é pioneiro elétrico no país

Dois protótipos do modelo, desenvolvidos em parceria entre a Edra Automotores e a CPFL Energia, foram apresentados ao público na segunda-feira (9), na abertura do 6º Seminário e Exposição de Veículos Elétricos, em Campinas (SP). Produzidos em Rio Claro (SP), eles utilizam motor elétrico de corrente alternada, com 18 cavalos de potência, importado da Itália, alimentado por baterias de fosfato de ferro e lítio de 84V e 200 A/h, importadas da China. A recarga, que pode ser feita em qualquer tomada, demora cinco horas.
 

UM CUPÊ ELÉTRICO NACIONAL?

  • O Aris, utilitário elétrico cujo texto de apresentação você lê nesta reportagem, faz parte de um projeto que consumiu R$ 2 milhões em desenvolvimento, e que não acaba com a 'picapinha' vista nas fotos.

    Se fosse colocado à venda hoje, custaria algo em torno de R$ 60 mil -- valor alto, mas que tenderia a cair conforme a escala de produção aumentasse.

    A fabricante Edra, porém, prepara voos mais altos caso seu primeiro fruto elétrico vingue: "A empresa é pequena, mas isso garante flexibilidade de desenvolvimento. Com isso, podemos até planejar um veículo de passeio, de dois lugares, com a mesma concepção do Aris", afirma o diretor comercial Flávio Eduardo Lopes.

    Os principais entraves para um cupê elétrico nacional são os mesmos que atravancam o caminho do Aris: o alto preço das baterias, importadas, e o peso excessivo dos impostos. (EUGÊNIO AUGUSTO BRITO, da Redação)

    SAIBA MAIS: INICIATIVAS PELO MUNDO

Concebido como utilitário urbano compacto, o Aris tem apenas 2,24 m de distância entre-eixos e 600 kg de peso em ordem de marcha, incluindo as baterias. Na configuração "picapinha" pode transportar duas pessoas na cabine e 350 kg de carga na caçamba, com autonomia para rodar entre 90 e 120 km e atingir velocidade máxima de até 80 km/h.

Em sintonia com a tendência mundial de redução das emissões de CO2 e preservação e respeito ao meio ambiente, o Aris além de apresentar nível zero de poluição otimiza ao máximo o aproveitamento da energia. Além do sistema de freios tradicional -- a tambor nas quatro rodas, com ajuste de folga na traseira e acionamento hidráulico --, o modelo oferece o recurso da frenagem regenerativa.

Este recurso, além de reduzir prontamente a velocidade, permite que o motor aproveite a energia que deixou de ser necessária para mover as rodas, para recarregar as baterias. Ou seja, quando o motorista tira o pé do acelerador, o motor inverte sua função e passa a funcionar como um gerador de energia elétrica. Em um veículo tradicional, a energia da frenagem é perdida na forma de calor. No Aris (como nos demais veículos 100% elétricos), essa energia vira combustível. É só é consumida para colocar o veículo em movimento.

SEM PARTIDA, SEM MARCHA, SEM RUÍDO
O Aris tem chave de ignição, mas não tem motor de partida. Tem alavanca de câmbio, mas não tem marchas. Basta girar a chave no contato e colocar a alavanca, posicionada entre os bancos, na posição "para frente". Ao pressionar o acelerador, o Aris arranca vigorosa e silenciosamente.
 

  • Divulgação

    Jeito simples: vidros são elétricos, mas direção não é assistida; câmbio tem posições 'à frente' e 'ré'.

Espartano como convém a um utilitário, o protótipo do modelo, que pode ser rapidamente avaliado em recinto fechado durante a feira, tem até vidros com acionamento elétrico, mas as portas utilizam limitadores de abertura de lona, como nos antigos veículos militares. O painel é rústico mas o quadro de instrumentos indica as principais funções através de três mostradores circulares analógicos. O volante da direção oferece boa empunhadura mas, sem direção assistida, é de acionamento pesado para um veículo desse porte, com apenas 600 kg.

Segundo Paolo Antonio Poli, diretor da Edra, fabricante do veículo, o mais importante é o conceito do projeto. "O produto será aprimorado continuamente. Depois que o projeto foi aprovado junto à CPFL, produziremos o carro em apenas cinco meses. Até o final deste ano vamos produzir mais três unidades, que serão utilizadas internamente pela CPFL até a homologação definitiva do veículo, em meados do próximo ano, quando então serão incorporados à frota da empresa para atendimento aos serviços conjugados de reparos, medições, ativação de energia, entre outros. O importante é demonstrar que os veículos elétricos são factíveis", disse o executivo.
 

FICHA TÉCNICA

Edra-CPFL Aris
Motor: transversal de corrente alternada.
Potência: 18 cv a 8.000 rpm.
Tração: Traseira.
Aceleração: 0 a 60 km/h em 5 segundos.
Velocidade máxima: 80 km/h.
Autonomia: até 120 km.
Bateria: Fosfato de ferro e lítio, 84V, 200 A/h.
Carregador: Inteligente, 84V, on-board, eletrônico, bivolt de 25A/h, com tempo médio de recarga de cinco horas.
Direção: mecânica, tipo pinhão e cremalheira. Diâmetro mínimo de curva: 8 m.
Freios: Hidráulicos, a tambor nas quatro rodas, com ajuste automático de folga nas rodas traseiras.
Rodas e pneus: 5,5 x 13", em liga de alumínio, pneus 175/70 R13" 88T.
Entre-eixos: 2,24 m.
Peso: 600 kg, com baterias.
Capacidade de carga: 350 kg.

MENOS DE DEZ ANOS
Factíveis, os veículos elétricos certamente são. Para o vice-presidente de gestão de energia da CPFL, Paulo Cezar Tavares, "comercialmente, os veículos elétricos (VE) serão plausíveis de ocupar 20% das garagens dos consumidores brasileiros em menos de 10 anos".

A empresa já desenvolve um programa de veículos elétricos há cinco anos, do qual fazem parte também o projeto da perua Palio Weekend elétrica em parceria com a Fiat, e o de motos elétricas, em parceria com a Unicamp, nos quais já foram investidos cerca de R$ 1 milhão, segundo o executivo.

IPI ALTO É PRINCIPAL OBSTÁCULO
Tudo indica que a projeção é bastante realista. Em que pese ainda um longo caminho a percorrer no desenvolvimento de baterias e motores eficientes no Brasil, o futuro automotivo parece mesmo ser dos veículos elétricos. "Por enquanto estamos utilizando baterias de fosfato de ferro e de lítio importadas da China, mas em breve teremos baterias e motores de alta qualidade produzidos no Brasil", afirma Antonio Poli, da Edra.

Destacando que os veículos elétricos estão alinhados ao posicionamento de sustentabilidade, Cezar Tavares reitera o interesse da CPFL em apoiar a pesquisa e o desenvolvimento de projetos inovadores no setor de energia alternativa e de proteção ao meio ambiente, mas ressalta: "nós desenvolvemos a tecnologia, os montadores produzem, mas o governo também tem que fazer a parte dele, revendo a carga tributária sobre os veículos elétricos, que hoje é de 25% de IPI".

  • Divulgação

    Inicialmente, Aris será testado em serviços internos de concessionária de energia; se projeto for aprovado, modelo pode entrar em produção em até cinco meses. Maior entrave é IPI alto: 25%


LEGIÃO DA PILHA
Além da picape Aris e da station wagon Fiat Palio Weekend, a 6ª edição mostra motos elétricas da Motor Z, um ônibus híbrido da Eletra e um caminhão para 3,5 toneladas Iveco Daily. Além de fabricantes de equipamentos, como a WEG e seu novo motor de tração refrigerado a água de até 185 kw, e a Moura com duas baterias específicas para veículos híbridos.
 

MAIS INFORMAÇÕES

Edra Automotoresfalecom@edraauto.com.br
(19) 3534-0648
ABVEabve@abve.org.br
INEEinee@inee.org.br

O ônibus híbrido fabricado pela Eletra tem quatro baterias, fixadas na capota do veículo, que armazenam e fornecem energia conforme a necessidade. Com elas, a redução do consumo de combustível pode chegar a 20%. Atualmente, mais de 40 veículos produzidos pela Eletra circulam na capital paulista e na cidade de São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo.

Já o caminhão elétrico da Iveco é o primeiro do Brasil e o primeiro da América do Sul movido a energia 100% limpa. Desenvolvido em conjunto com a Itaipu Binacional, não será produzido em série, a princípio. Apenas 10 unidades serão produzidas e vendidas a empresas parceiras, dentro do galpão da Itaipu, onde é produzido a Palio Weekend elétrica. Por enquanto, a sua autonomia é de 100km, atinge 85km/h e a recarga da bateria dura 8 horas.
 

ELETRICIDADE EM PAUTA

A eletricidade ronda os automóveis desde quando, por volta de 1800, o italiano Alessandro Volta inventou a pilha voltaica (uma pilha elétrica que produz corrente contínua com dois eletrodos, um de zinco e outro de cobre, com eletrólito de ácido sulfúrico), a antecessora das baterias atuais. Hoje, o componente é um dos principais focos de atenção nas pesquisas de desenvolvimento de motores elétricos automotivos.

Veículos elétricos (VEs) são veículos acionados exclusivamente por motor(es) elétrico(s). Embora o assunto possa parecer novidade, eles já existem há um bom tempo. Segundo José Luiz Vieira, jornalista e autor da coleção "A História do Automóvel - A Evolução da Mobilidade" (2008, Editora Alaúde), o primeiro veículo elétrico de fato foi construído pelo escocês Robert Anderson, em Aberdeen (Reino Unido), por volta de 1857. O modelo era equipado com um motor elétrico primitivo, que consistia de barras de ferro girando ao redor de um tambor, puxadas por eletromagnetos e células primárias intermitentes. A autonomia era de incríveis cinco minutos. Mais de um século depois, o físico inglês Sir William Grove descobriria o princípio da eletrólise, produzindo o protótipo de um pequeno gerador de eletricidade a partir do hidrogênio, o precursor da célula de combustível.

Hoje a realidade é muito diferente. Os VEs estão entre os trólebus, que recebem energia de uma rede aérea, os automóveis a bateria, que se abastecem na rede elétrica quando estacionados, além de ônibus, caminhões e automóveis híbridos. Nestes, a energia é gerada a bordo a partir de combustíveis convencionais ou de células a combustível que utilizam hidrogênio. Podem atender a todas as classes de veículos: de duas rodas e triciclos, carros de passeio, ônibus e caminhões.

Organizado pelo INEE (Instituto Nacional de Eficiência Energética) e pela ABVE (Associação Brasileira do Veículo Elétrico), o Seminário e Exposição de Veículos Elétricos discute e divulga as novidades do setor. (por Ricardo Panessa, colaboração para UOL Carros)

 

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