Kia Soul mostra qualidades e abusa da ousadia para agradar a diferentes públicos

Eugênio Augusto Brito

Do UOL, em São Paulo (SP)

Dez anos após ficar conhecida como montadora de um veículo rústico, mas de custo relativamente baixo e com aptidão para o trabalho, o utilitário Besta, a coreana Kia tenta agora mudar ao menos parte de sua imagem no país. Para isso, apresentou na última sexta-feira o Soul, com apelo moderninho e milionária estratégia de marketing: o modelo já está na maioria das 125 lojas da rede no Brasil e aparece a todo momento na mídia, como "garoto-propaganda" de reality-show ou estrela de comerciais em jornais, revistas e na televisão.

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    Formas ousadas, frente pronunciada e carroceria retilínea garantem impacto ao Soul, mesmo com pintura convencional (na foto, o branco Clear White): preços começam em R$ 51.490

O objetivo da marca é aumentar sua participação no mercado em 25% até o final de 2009, vendendo agora modelos com maior requinte, tecnologia... e beleza. O Soul é um dos pilares da nova fase, junto com a nova geração do sedã Cerato, que chega em breve. Misto de hatch e monovolume -- é classificado como crossover pelo departamento de vendas da marca e de "carro-design" pela turma da publicidade --, chega em lote inicial de 700 unidades mas com fôlego para alcançar 3.000 até o fim do ano. Se tudo correr bem, deixará de ser importado da Coreia para ganhar vida em fábrica a ser inaugurada no Uruguai; com mais sorte ainda, poderá ser feito por aqui, quando e se a unidade de Salto (SP) ganhar vida.
 

ÁLBUM DE FOTOS
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RIVAIS POR TODO LADO
Anote a lista: Volkswagen CrossFox (com motor 1.6 e preço sugerido pelo site da fábrica, para São Paulo, de R$ 41.530), Renault Sandero Stepway (1.6, R$ 41.830), Nissan Livina 1.6 (R$ 46.690 a R$ 52.640), Fiat Idea Adventure (1.8, por R$ 51.890), Honda Fit EX 1.5 (R$ 58.280 a R$ 62.065, com câmbio manual ou automático, respectivamente), Ford EcoSport XLT 1.6 (R$ 57.060) e Fiat Doblò Adventure (também 1.8, a R$ 58.430). É a relação de adversários elencados para o Soul, que inclui quatro "aventureiros", dois monovolumes e um SUV, e mostra os diferentes habitats por onde o novo modelo terá de circular aqui no país.

Para enfrentar o desafio, o Soul se vale do visual marcante. A frente agressiva traz conjunto óptico irregular e grade do radiador formando o "rosnado de tigre", nova identidade da Kia -- o termo é moda entre as montadoras alemãs e foi de lá mesmo que veio, incorporado à marca coreana pelo designer Peter Schreyer, criador de modelos como o Audi TT original nos 25 anos em que trabalhou para o Grupo Volkswagen. Para-choques com ressalto plástico, caixas de rodas proeminentes e capô vincado exalam robustez e valentia à moda SUV. Laterais, linha do teto e detalhes da traseira formam um conjunto que, embora retilíneo, está longe de ser sem graça.
 

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  • Eugênio Augusto Brito/UOL

    Quem abre o capô do Soul vê o motor 1.6 a gasolina, com comando por corrente (e não correia), distante, bem no fundo do cofre. Parece ter sobrado espaço (ou faltado bloco).

    Acontece que, lá fora, o mesmo espaço pode ser ocupado por propulsores 1.6 a diesel ou 2.0 a gasolina, maiores. A Kia diz cogitar trazer ao país
    o motor de 2,0 litros, se a demanda surgir.

Mas a Kia também aposta no trem de força do Soul -- o motor quatro-cilindros, com 1.591 cm³, bloco em alumínio e comando de válvulas variado e contínuo (CVVT) é mais potente que os encontrados nos rivais: gera potência máxima de 126 cv (124 hp a 6.300 rpm) e 15,9 kgfm de torque máximo (a 4.200 rpm). Mas tem o "defeito" de só beber gasolina.

Como estamos no Brasil -- e como todos os rivais são equipados com bloco bicombustível --, é inevitável cogitar um Soul flex: com relutância, a Kia do Brasil diz ter encomendado a fabricação à matriz coreana, que poderá atender o pedido em 2010.

PREÇOS
Uma única versão do Soul, a EX, está à venda no país em três diferentes configurações com bom nível de equipamentos, mas de identificação complicada, feita pelo código de produto (um nome ou apelido ajudaria). A mais básica (U.101.90) custa R$ 51.490 e oferece câmbio manual de cinco marchas, direção elétrica progressiva, ar-condicionado manual, trio elétrico, ajuste elétrico de vidros e retrovisores, volante de três raios com regulagem de altura e controle de áudio, acerto de altura do banco do motorista, rádio com CD player/MP3, tela de LCD e entradas USB/Ipod/auxiliar, tomadas de 12 Volts no painel e no porta-malas, rodas de liga-leve aro 16 e airbag frontal duplo, entre outros itens.

Por R$ 55.900, a intermediária U.102.90 coloca assentos esportivos com logotipos estampados, sistema antitravamento e de distribuição da força (ABS e EBD), rack de teto, spoiler traseiro e faróis de neblina no pacote.

A U.103.90 é a topo de linha e, por R$ 59.900, incrementa o interior com espelho eletrocrômico (antiofuscante) com tela LCD de 3,5 polegadas para a câmera traseira de estacionamento, revestimento de couro para volante e alavanca do câmbio mecânico, retrovisores externos com aquecimento e rodas de 18 polegadas.

O câmbio automático de quatro velocidades está disponível para as duas configurações mais caras por R$ 5 mil (levando a conta para R$ 60.900 e R$ 64.900, respectivamente) e todos os preços consideram a redução do IPI e um dólar fixado a R$ 1,90.

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    Grade do radiador, em colmeia e com moldura cromada, faz parte da nova identidade Kia; material plástico no para-choque pode se estender em direção às laterais e sob os faróis (atrás)

O grande "senão" do Soul, está no abuso de plástico no interior da cabine -- e esta parece ser a condição para equilibrar o preço. O material domina o painel das portas (sem qualquer pedaço de tecido), console e miolo do volante, como num carro popular. No painel superior, porém, ganha uma textura interessante, sob inspiração do japonês Honda Fit.

O porta-malas não possui cobertura, mas conta com um compartimento extra sob o assoalho que aumenta a capacidade original de 340/818 litros (com o banco traseiro em uso ou rebatido, respectivamente).

E se você for conservador, entrará em choque também com alguns detalhes da cabine, como a peça em U do painel central que incorpora os comandos arredondados do ar-condicionado (de novo, como no Fit), o visor de LCD com iluminação avermelhada do rádio multifuncional e dois porta-objetos -- um compartimento fechado com interior vermelho (não importando qual seja a cor da pintura externa) e uma bandeja arredondada e aberta, que parece perfeita para esquecer CDs ou colocar pequenas coisas que vão sacolejar durante toda a viagem. O interior do porta-luvas, aliás, também é vermelho e conta com dois níveis feitos em plástico com rebarbas e parafusos aparentes.

Por outro lado, há itens de conforto como os comandos de áudio no volante, os para-sóis com haste extensível ou ainda o pequeno gancho para até 3,5 kg incorporado ao ombro do banco do carona. E, claro, como a câmera de vídeo (a mesma do utilitário esportivo Mohave), que pode vir instalada na traseira e cuja imagem em alta definição é projetada no canto esquerdo do retrovisor interno, auxiliando no estacionamento.

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    Volumes laterais, vinco que atravessa a carroceria e rodas aro 18 conferem robustez ao Soul

IMPRESSÕES AO DIRIGIR
UOL Carros avaliou o Soul em sua versão mais bem equipada, logo após a apresentação em Guarulhos (SP), em parte do percurso de 150 quilômetros preparado para o teste. Descontada a chamativa cor vermelha na variação Tomato Red (o catálogo do modelo tem onze tons com nomes em inglês, sendo que dois não devem vir ao Brasil a princípio), o impacto inicial provocado pelo Soul está no sentido de parecer ser muito maior do que apontam suas medidas.

Externamente, são 4,10 m de comprimento, 1,56 m de largura (1,78 m considerando os retrovisores) e 1,61 m de altura, mas dentro da cabine prevalece a impressão de que os ocupantes podem se "esparramar" sem a preocupação de encostar um no outro. Na prática, os 2,55 m de distância entre-eixos garantem mais espaço interno do que o encontrado no EcoSport, por exemplo.

À frente, ajustes de altura do assento e do volante (sem variação de profundidade, no entanto) e disposição dos comandos e mostradores ajudam o motorista a encontrar uma boa posição de direção. Atrás, há apoios de cabeça no formato de vírgula para os três ocupantes e espaço suficiente para que ninguém raspe o joelho à frente ou a cabeça no teto, mesmo medindo pouco mais 1,80 m. A pior posição acaba sendo a do carona, que vai esbarrar as pernas no console central e na tampa do porta-luvas, quando esta é aberta.

Na pista, o Soul se mostra valente, beneficiado pelos 126 cv de potência e pela chegada do torque logo cedo, graças à variação do comando de válvulas. O modelo testado estava equipado com câmbio automático, que se mostrou muito impreciso e, por diversas vezes, "matou" o desempenho. Em tomadas de velocidade e aclives, insistia em utilizar uma marcha alta demais, ao passo em que descia marchas subitamente durante a velocidade de cruzeiro. O modelo manual foi aprovado por colegas que o testaram, com ressalva para a quinta marcha, que poderia ser mais longa.

Outro problema está na rigidez excessiva do conjunto de suspensão, que não se mostrou totalmente adaptado ao terreno encontrado por aqui (foi desenvolvido para o Oriente Médio, segundo a fábrica).

A ausência de computador de bordo também impediu a aferição do consumo. Segundo dados da Kia, o modelo com câmbio automático pode rodar 11,3 km na cidade e 13,3 km na rodovia com um litro de combustível -- o tanque do Soul tem capacidade de 48 litros.

De toda forma, o principal entrave ao Soul pode estar mesmo na barreira psicológica ainda existente pelo fato do carro não pertencer a uma das grandes montadoras ou importadoras consolidadas no país. A Kia oferece garantia de cinco anos ou 100 mil quilômetros para o modelo, mas talvez precise de mais para satisfazer a alma do brasileiro.

Test drive a convite da Kia Motors do Brasil

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