Crédito volta e bancos esticam financiamento de carro por até 80 meses

Da Auto Press

Financiamentos com prazos a perder de vista. Essa é a receita de sucesso de bancos e financeiras de montadoras para reaquecer o mercado de veículos. Com o recente aumento do crédito disponível, retorna a prática dos financiamentos longos. Alguns bancos voltaram a praticar 80 meses de prazo e a oferta chega em um momento extremamente propício. Pela primeira vez na história, a taxa Selic chegou a um dígito: 9,25%. Além disso, até o fim de junho, está previsto o desconto no IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados). A redução da alíquota é oferecida desde dezembro, justamente quando a crise financeira "apertou" o crédito e derrubou significativamente os emplacamentos de veículos no país. "O financiamento de veículos é fundamental para o comportamento do mercado. Depois da forte retração do crédito no último trimestre de 2008, verifica-se seu gradual retorno, tanto em valores como em prazos para pagamento", defende Jackson Schneider, presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos).
  • Ilustração: Afonso Carlos/Carta Z Notícias
Embora o desconto do IPI tenha sido eficiente nas vendas, o comércio de veículos novos fica mesmo a reboque do crédito. Não por acaso, o setor comemora o retorno dos planos longos, seja por leasing ou CDC (Crédito Direto ao Consumidor). Desde outubro passado, o mercado não oferecia prazos superiores a 60 meses. Agora, é possível novamente adquirir carros zero em prestações "eternas". Enquanto o Itaú Unibanco financia em até 72 prestações, Bradesco e o Ford Credit já oferecem parcelamento de veículos em 80 meses, quase sete anos. Coincidência ou não, os financiamentos de veículos por leasing tiveram alta de 64% em abril na comparação com o mesmo mês de 2008, segundo dados da Anef (Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras). "O Brasil nunca havia experimentado prazos tão longos de financiamento. Mas o prazo médio foi de 42 meses entre 2007 e 2008, o que mostra que os consumidores, mesmo diante da oferta, optam por prazos menores e mais saudáveis", defende Luiz Montenegro, presidente da entidade.

Mais visados ou não, o fato é que a oferta de financiamentos superiores a 60 meses reabre o mercado para um público estimado pelos bancos entre dois milhões e três milhões de consumidores. Isso porque o principal efeito do alongamento dos prazos é a redução no valor das prestações. Nos planos de 72 meses, por exemplo, há uma queda de 10% no preços das parcelas mensais em relação às do financiamento em 60 meses. Essa redução só não é maior porque, nos financiamentos mais longos, são cobradas taxas de juros maiores. Mas o que define a maioria das compras é o valor das parcelas. "Os prazos são mais importantes que as taxas de juros, justamente por diluir o custo total do empréstimo e fazer as parcelas caberem no bolso dos consumidores. Isso faz com que estes sequer tenham a percepção das taxas que estão pagando", alerta o economista Alexandre Andrade.

TAXAS ATRAENTES
O grande porém nos "novos" financiamentos de longo prazo é que as condições de acesso mudaram sensivelmente. Agora, é exigida uma entrada de 20% do valor do modelo. Isso porque, apesar da confiança na economia ter se reestabelecido nos últimos dois meses, ainda há no mercado um receio de aumento da inadimplência, principalmente nos financiamentos a longo prazo. Atualmente, a média de atrasos acima de 90 dias é de 5,2% sobre o total de carteiras de crédito. "Tivemos uma participação acentuada das vendas à vista nos últimos meses, por causa da menor oferta de crédito. Mas esse cenário deve se normalizar gradualmente. Os pré-requisitos para aprovação de financiamentos estão menos rigorosos. Até porque, sem isso, não adianta oferecer crédito", salienta, o gerente Reinaldo Faga, da Ford Credit.

ACELERADAS

- De acordo com a Anef, a taxa média de juros ao mês para CDC e leasing hoje é de 1,59%. No "boom" da oferta de crédito, entre 2007 e 2008, a média mensal era de 1,55%, segundo a Anfavea.
- O crédito disponível para financiamento veículos novos e usados soma cerca de R$ 145 bi.
- Em novembro passado, quando a crise financeira derrubou os emplacamentos em 26%, as exigências para liberação de crédito endureceram -- os bancos adotaram planos conservadores de financiamento limitados a 36 meses, entradas de 30% em média e taxas de juros de cerca de 2,5% ao mês.
- A Anef apontou um crescimento de 64,8% nos financiamentos por leasing em abril na comparação com o mesmo período de 2008. No relatório de 15 de junho, a carteira saltou de R$ 38,9 bilhões para R$ 64,1 bilhões.
E a normalidade econômica deve ser mesmo fundamental para que a volta do crédito facilitado seja suficiente para manter as vendas de carros aquecidas. As taxas de juros estão em declínio desde abril, o que deve tornar os financiamentos ainda mais atraentes. Nos planos a longo prazo, a média atual da tarifa é de 1,57% ao mês. Mas há outros, como o do Bradesco, em que a taxa cobrada já é menor: 1,2% ao mês. "O crédito retornou, mas ainda não aos patamares anteriores à crise. Ainda não identificamos a necessidade de ampliação dos planos de longo prazo. Um prazo médio entre 40 e 42 meses é adequado", pondera Luiz Montenegro, presidente da Anef.

LIMITES SOBRE DUAS RODAS
A falta de crédito pegou em cheio a indústria de motocicletas desde o fim de 2008. No acumulado de janeiro a maio, a queda nos emplacamentos foi de 30%, com 602.921 unidades contra as 861.750 comercializadas no mesmo período do ano passado. E a explicação está justamente na maior exigência para a concessão de crédito para financiamento, que exclui pessoas de poder aquisitivo mais baixo. No caso das motos, a maioria dos consumidores vem de classes mais baixas e não dispõe de um valor para dar de entrada no ato da compra. "O valor de entrada exigido atualmente varia entre 10% e 20% sobre o preço da moto. É um inicial elevado para boa parte dos consumidores. E ainda tem o seguro obrigatório", reforça Moacyr Alberto Paes, diretor executivo da Abraciclo (Associação Nacional das Fabricantes de Motocicletas).

O medo da inadimplência é o principal agente dessa restrição de crédito no setor. Enquanto o índice no mercado de carros é de 5,5%, nas motos, a quantidade de inadimplentes acima dos 90 dias chega a 8% do total de financiamentos. Um problema que o governo tenta minimizar desde o fim do primeiro trimestre, com a isenção do Cofins. E, recentemente, com a liberação de R$ 100 milhões para linhas de crédito. Mas esse valor está disponível somente para motoboys regularizados por meio do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador). "Essa linha é mais um estímulo à regularização dos motoboys que uma ação para aquecer as vendas. Só os profissionais registrados têm acesso", aponta Moacyr Paes, da Abraciclo. Em São Paulo, cidade que possui o maior número de profissionais, apenas 10% dos 200 mil motoboys são credenciados. (por Diogo de Oliveira)

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