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Para especialistas, biocombustíveis podem piorar escassez de água

13/08/2007 09h32

O crescimento da produção de biocombustíveis pode exercer uma "nova e dramática" pressão sobre a ameaça global de escassez de água, caso práticas e estratégias inovadoras para o uso sustentável dos recursos hídricos não forem implementadas em âmbito internacional. A advertência foi feita durante a World Water Week, a conferência mundial que reúne esta semana na capital sueca 2.500 representantes de 140 países, organizações não-governamentais e agências da ONU para debater a questão da água.

"É preciso enfatizar o fator água no debate sobre os biocombustíveis", destacou em entrevista à BBC Brasil o professor Jan Lundqvist, diretor do Comitê Científico do Instituto Internacional da Água de Estocolmo (SIWI).

Projeções sobre o crescimento da demanda por biocombustíveis indicam que este aumento pode ter efeitos perversos sobre a oferta de água, já ameaçada pela necessidade de produzir alimentos para a crescente população global.

Consumo de água
"Atualmente a quantidade de água usada em todo o mundo na produção de alimentos é da ordem de 7 mil metros cúbicos. Em 2050, a previsão é de que essa quantidade aumente para 11 mil metros cúbicos, o que significa quase o dobro da água utilizada hoje", diz Lundqvist.

"E as projeções indicam que a água necessária para produzir biocombustíveis crescerá na mesma proporção que a demanda de água por alimentos, o que representaria a necessidade de 20 a 30 milhões de quilômetros cúbicos em 2050. E isto não é possível", ressalta o cientista sueco.

O professor Peter Rogers, da Universidade de Harvard, alertou em entrevista à BBC Brasil que a produção de biocombustíveis pode representar uma séria pressão adicional sobre o uso da irrigação em todo o mundo, além das conseqüências para a oferta de alimentos. Até o ano 2050 a população mundial deverá crescer em até três bilhões de pessoas, um aumento de 50%.

"A população mundial dobrou desde os anos 60 até agora. No mesmo período, o consumo de água aumentou seis vezes. Chegamos ao ponto em que já se usa mais da metade dos recursos de água doce existentes no mundo. Quando a população global for novamente dobrada em quantidade, de onde virá a água?" adverte Rogers.

Mudanças climáticas
As mudanças climáticas já representam um sério impacto sobre os recursos hídricos, observa o cientista americano. E a necessidade de cumprir a meta do Milênio da ONU, de reduzir para a metade a pobreza extrema no mundo em 2015, implica um aumento imediato da produção de alimentos.
"O aumento da produção de biocombustíveis pode significar, portanto, uma pressão adicional sobre os recursos hídricos", diz Rogers.

De acordo com os cientistas, os países precisam pensar duas vezes antes de embarcar em projetos de produção de biocombustíveis em larga escala. O Brasil deve evitar os riscos para o meio ambiente e a oferta de alimentos.

"O Brasil tem o potencial de aumentar a produção de biocombustíveis em áreas que não são utilizadas para o cultivo de alimentos e em regiões onde existe a possibilidade de elevar a produção sem conseqüências negativas diretas para o meio ambiente ou o abastecimento de alimentos", indica Lundqvist.

Apesar das advertências, os cientistas evitam fazer dos biocombustíveis uma espécie de novo vilão na questão da água. Segundo eles, o setor de biocombustíveis ainda é uma área relativamente nova, que traz também oportunidades.

"Tecnologicamente, haverá uma segunda geração de biocombustíveis, e já há pesquisas para tentar desenvolver bioenergia a partir de celulose, por exemplo. O que é urgente neste momento é estar atento para a necessidade de práticas e formas de produção, incluindo a de biocombustíveis, que façam de fato um uso sustentável da água", afirma Lundqvist.

Novas tecnologias
A solução para evitar uma crise global de escassez de água, segundo os cientistas, está na utilização mais eficiente da água e no desenvolvimento de novas tecnologias.

"Precisamos criar sistemas de produção mais eficientes, aperfeiçoar as fórmulas de gestão a fim de não desperdiçar a água de rios e reservatórios e fazer uso mais eficiente da água das chuvas a fim de reduzir a evaporação improdutiva. Já começam a surgir também tecnologias mais eficientes, assim como pesquisas para produzir alguns tipos de grãos com água salgada", diz Lundqvist.

O professor Rogers destaca a necessidade de vontade política de todos os governos e atores envolvidos para implementar o melhor gerenciamento dos recursos hídricos.

"É preciso desperdiçar menos, reciclar mais, encontrar novas práticas agrícolas para otimizar a utilização da água, reduzir a quantidade de água usada nas grandes metrópoles e deixar de ver a água como um recurso inesgotável. A margem de desperdício de água no mundo é enorme atualmente. Portanto, o potencial da melhoria da eficiência no uso da água é tambem enorme", conclui.

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