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Carlos Ghosn: do jato particular à prisão em Tóquio

Takuya Isayama/Asahi Shimbun
Jato que trouxe Carlos Ghosn a Tóquio, em 19 de novembro. Desde então, tudo mudou para o executivo Imagem: Takuya Isayama/Asahi Shimbun

Em Tóquio (Japão)

29/11/2018 07h00

Em uma semana, vida do executivo sofreu mais reviravoltas que série de TV

A inesperada detenção de Carlos Ghosn em Tóquio, quando saía de seu jato particular, deflagrou uma onda de reações que, em apenas uma semana, derrubaram o todo-poderoso líder da maior aliança de fabricantes de automóveis do mundo.

Na tarde de 19 de novembro, em Tóquio, o jornal "Asahi Shimbun" antecipou em sua página online a notícia da iminente detenção do empresário franco-libanês-brasileiro, chefe da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi e que recuperou a Nissan da falência nos anos 2000.

O jornal publicou imagens gravadas um pouco antes, às 16h35 locais, nas quais se vê um jato Gulfstream com matrícula N155AN, em analogia à palavra "Nissan", após aterrissar. As autoridades esperavam o empresário.

Homens de preto sobem na aeronave. As persianas são baixadas uma a uma. Na imagem seguinte, descem seis homens. O vídeo termina aí.

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Dimensão política

Pouco depois das 17h locais, cerca de dez homens chegam à sede da Nissan em Yokohama, ao sul de Tóquio, segundo o "Asahi". Outra equipe de investigadores entra no luxuoso apartamento de Ghosn no bairro de Motoazabu. Uma multidão de repórteres já está de plantão na frente do imóvel.

No aeroporto de Haneda, Carlos Ghosn teria, segundo a imprensa, passado horas em seu avião com os investigadores da Procuradoria.

Rapidamente, o restante da imprensa japonesa informa que aquele que dirige o conselho de administração da Nissan e da Mitsubishi Motors está sendo investigado por suspeitas de sonegação. A Procuradoria confirmaria a informação depois.

Em nota, a Nissan afirma que uma investigação interna revelou que Ghosn "declarou durante muitos anos uma renda inferior ao montante real".

Às 18h, o grupo anuncia uma entrevista coletiva. Antes do início, a crise ganha uma dimensão política. A 10.000 quilômetros do Japão, de Bruxelas, o presidente Emmanuel Macron promete que o Estado francês, acionista da Renault, vigiará de perto a estabilidade da aliança e do grupo nacional.

A entrevista coletiva começa às 22h.

Uniforme de presidiário

Apenas diante das câmeras, o presidente-executivo da Nissan, Hiroto Saikawa, anuncia para quinta-feira um conselho de administração com o objetivo de formalizar a saída do presidente.

Saikawa pronuncia palavras muito duras, expõe durante uma hora e meia o "lado obscuro" de seu mentor e a concentração de poder em suas mãos durante anos.

Ghosn, de 64, começa então sua primeira noite de prisão preventiva no imponente edifício de 12 andares do centro de detenção de Katsushika, em Tóquio.

O presidiário tem uma rotina rígida. Às 7h, começa o dia. As luzes se apagam às 21h. São três refeições diárias e 30 minutos de exercício. Dois banhos por semana.

Na prisão, recebe a visita do embaixador da França, a do cônsul do Brasil, João de Mendonça, que diz à AFP ter conversado com Ghosn em português pelo vidro. O empresário -- disse o cônsul -- "parecia estar bem" e vestia "o uniforme do centro de detenção".

"Golpe de Estado"

A rapidez com que a Nissan agiu e o tom de Saikawa despertam as suspeitas de alguns analistas de que essa situação poderia ser um "golpe de Estado" do grupo japonês contra aquele que salvou a empresa, para evitar uma aliança ainda mais importante com o construtor francês. A hipótese foi rejeitada pelo Eliseu.

Já a Renault pede informações sobre o caso à Nissan. O número dois do grupo, Thierry Bolloré, assume provisoriamente.

Na quinta-feira, o conselho de administração do fabricante japonês dura horas. Apresentam-se as "provas" e, depois de quatro horas, Ghosn é afastado da presidência por unanimidade.

Nesse mesmo dia, em Paris, os ministros francês e japonês da Economia, Bruno Le Maire e Hiroshige Seko, respectivamente, reúnem-se e reafirmam seu apoio à aliança.

Desde então, os jornais japoneses publicam todos os dias rumores sobre mais malversações e abusos de bens sociais cometidos por aquele que apelidaram de "suspeito Ghosn".

Carlos Ghosn nega as acusações até agora.

Na segunda-feira, o Conselho de Administração da Mitsubishi Motors também anunciou seu afastamento.

O empresário continua detido.

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