Anfavea defende manutenção do acordo com México, apesar do prejuízo de US$ 1,5 bilhão

Eugênio Augusto Brito
Rodrigo Lara

Do UOL, em São Paulo

Embora sejam vítimas diretas de uma possível mudança na regra atual da venda de carros no país, nenhuma das montadoras estabelecidas no Brasil e que também importam modelos do México quis se pronunciar individualmente sobre a informação, publicada pelo jornal "Valor Econômico", de que o Planalto estaria estudando o rompimento unilateral do acordo comercial com o país. A tarefa coube à Anfavea, entidade que reúne os fabricantes de carros instalados no Brasil, e que se posicionou como favorável à manutenção do acordo, mesmo que com adaptações.

Segundo a "Agência Brasil", o comércio de carros importados do México foi responsável pelo prejuízo de US$ 1,55 bilhão (cerca de R$ 2,8 bilhões) na balança comercial brasileira em 2011. Enquanto faturou US$ 512 milhões em exportação de carros para o México, o país gastou US$ 2,07 bilhões na compra (importação) de automóveis fabricados em unidades mexicanas (leia mais aqui).

Procuradas por UOL Carros, Chevrolet, Fiat, Ford e Volkswagen (as chamadas "quatro grandes"), Chrysler e Honda afirmaram que o assunto é de alçada "setorial" e, como tal, deveria ser discutido com e pela Anfavea.

A Nissan, por sua vez, fugiu um pouco do discurso ensaiado, afirmando que só irá se manifestar quando houver informações oficiais. "Não vamos comentar especulações", informou a assessoria de imprensa da marca, que pode ser apontada como principal prejudicada por uma futura (e ainda não confirmada) reviravolta do tratado com o México.
 
A montadora, que faz parte da aliança franco-nipônica Renault-Nissan, saltou da 12ª posição geral de vendas em 2011 (1,97% de participação) para a sexta colocação no primeiro balanço de 2012 (3,32%), divulgado na última quarta-feira (leia aqui), empurrada sobretudo pelas boas vendas da dupla March/Versa, importados do país norte-americano. Além dos dois modelos, que têm apelo mais popular, a marca também traz daquele país os médios Tiida (hatch e sedã) e Sentra.
  • Murilo Góes/UOL

    O sedã Nissan Versa, que chega do México, seria um dos afetados por mudanças alfandegárias

Também chegam do México, sem pagar tarifa de importação, nem sobretaxa de 30 pontos percentuais no IPI, o utilitário Freemont e o compacto estiloso 500, da Fiat; o Captiva, da Chevrolet; o New Fiesta (hatch e sedã) e o médio-grande Fusion da Ford; o Jetta, da Volkswagen, terceiro sedã médio mais vendido do país em janeiro; o utilitário CR-V, da Honda, líder do segmento no primeiro mês do ano, deixando Ford EcoSport e Renault Duster para trás; e o SUV Dodge Journey, da Chrysler, co-irmão do Freemont.
 
Todos estes modelos somados foram responsáveis por pelo menos 112.024 unidades vendidas por importação no Brasil em 2011 -- o "pelo menos" diz respeito a um lapso de contabilidade do modelo New Fiesta pela Fenabrave, que contabiliza o sedã como um carro único, mas que não precisa a quantidade de unidades do hatch que chegam ao país.
  
Cada um deles teria sobretaxação no preço atual, perdendo totalmente a competitividade, caso a intenção de encerrar o acordo comercial de modo unilateral se confirmasse.
 
O México é o terceiro maior exortador de carros para o país atualmente, tendo sido responsável pela entrada de US$ 2,07 bilhões (cerca de R$ 3,6 bilhões) em automóveis e autopeças no último ano, segundo a "Agência Brasil" -- ficou atrás da  Coreia do Sul (das marcas Hyundai, Kia e SsangYong) e da Argentina (do vizinho chegam modelos da Fiat, Volkswagen, Chevrolet, Ford, Renault, Peugeot, Citroën e Toyota).
Escalada para falar em nome das montadoras, razão de sua existência, aliás, a Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) se pronunciou há pouco. Em nota oficial, a entidade evitou polemizar o assunto, mas assumiu uma postura de defesa do acordo entre Brasil e México. A entidade diz considerar importante a "manutenção do Acordo de Comércio Automotivo Brasil-México", mesmo que isto demande um ajuste das atuais regras para o comércio entre os países. 
 
Com apenas cinco parágrafos curtos, a declaração divulgada pela diretoria de relações institucionais da Anfavea afirmou ainda que acordos como o firmado com o México são promotores de "estabilidade e de competitividade das relações" comerciais entre os países. A nota, porém, comete um equívoco ao citar o ano de 2000 como momento inicial do acordo -- o pacto entre Brasil e México foi firmado em junho de 2002.
 
De fato, o Acordo de Complementação Econômica assinado em 2002 prevê que o abatimento de tarifas de importação entre os países possa variar de 20% a 100%, podendo ser negociado a qualquer momento, desde que respeitado um prazo de 14 meses entre o anúncio e a entrada em vigor do novo regime.
 
- Leia abaixo a íntegra da nota da Anfavea:
 
ACORDO AUTOMOTIVO BRASIL-MÉXICO
 
São Paulo, 02/02/2012 - Com referência a notícias sobre o Acordo de Comércio Automotivo Brasil-México, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores emite o comunicado que segue:
 
“A ANFAVEA considera importante a manutenção do Acordo de Comércio Automotivo Brasil-México, celebrado em 2000, por sua relevância como fator de integração comercial e de fomento do comércio bilateral entre os dois países.
 
O comércio automotivo de veículos e peças Brasil-México, no valor de US$ 4,3 bilhões em 2011, representa 47% do fluxo comercial entre os dois países. Entre 2000 e 2011 as exportações brasileiras de veículos e peças para o México totalizaram US$ 21,2 bilhões e as importações totalizaram US$ 8,7 bilhões.
 
A ANFAVEA entende que acordos internacionais de comércio, a exemplo do Acordo Brasil-México, são dinâmicos e podem ser atualizados, ampliados e ou ajustados em sua abrangência e condições.
 
A ANFAVEA defende ainda a celebração de novos acordos internacionais de comércio e preferências tarifárias, como instrumento indutor e promotor do comércio exterior brasileiro e como fator de estabilidade e de competitividade das relações de trocas”.

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