Importadores de carros atacam 'lucros exorbitantes' das montadoras nacionais

Do UOL, em São Paulo

  • Alf Ribeiro/Folhapress

    José Luiz Gandini, presidente da Abeiva e da Kia, vira porta-voz de quem mexe com "importados genuínos" na briga com a Anfavea

    José Luiz Gandini, presidente da Abeiva e da Kia, vira porta-voz de quem mexe com "importados genuínos" na briga com a Anfavea

A Abeiva, entidade que reúne as marcas de veículos que operam no Brasil, mas não possuem fábrica local, pegou carona em artigo do jornalista Pedro Kutney, divulgado em UOL Carros nesta sexta-feira (27), e criticou em nota oficial o que chama de "novas barreiras alfandegárias", como o aumento "abusivo" de 30 pontos percentuais da alíquota de IPI para os carros importados, em vigor até o último dia deste ano.

O texto de Kutney, originalmente publicado no site Automotive Business, relata que as montadoras instaladas no país enviaram para o exterior US$ 5,58 bilhões em lucros auferidos por aqui em 2011. Foi o setor da indústria que mais remeteu valores para as matrizes no ano passado.

Para José Luiz Gandini, presidente da Abeiva e da Kia, e que chama as sócias da Anfavea de "montadoras multinacionais instaladas no Brasil", tais números mostram que as medidas do governo federal são exageradas. "Quem vive fase de necessidade de proteção governamental não envia lucros exorbitantes às suas matrizes", diz Gandini, referindo-se às rivais da associação das fabricantes -- que, por terem uma ou mais fábricas no Brasil, estão dispensadas do IPI mais alto.

Os maiores sócios da Abeiva são Kia, JAC, Chery, BMW, Effa, Hafei, Land Rover, Suzuki e Audi. Da Anfavea, são Fiat, Volkswagen, General Motors, Ford, Hyundai, Toyota, Peugeot, Citroën e Renault.

COTA DE IMPORTADOS
Na nota emitida nesta sexta pela Abeiva, Gandini reitera o pedido -- já formalizado aos ministérios da Fazenda, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior e de Ciência e Tecnologia -- de "bom senso" para rever o Decreto 7.567, que reajustou o IPI. Nas contas de Gandini, a alta de 30 pontos porcentuais resultou em 428% de aumento no IPI para importados com motor de 1 litro, de 7% para 37%. Não admira a citação específica: o candidato da Kia a carro de volume é o Picanto, que tem motor 1.0 e "nasceu morto" na nova geração, de 2011 -- que ficou cara demais.

A proposta da Abeiva aos ministérios é de instituir um controle numérico das importações, que iriam até o limite de 200 mil unidades por ano, com IPI igual ao dos carros montados localmente. "Esse volume significa apenas 5,6%  do mercado brasileiro, levando em consideração a projeção inicial de 3,52 milhões de unidades em 2012", lembra a nota -- que não perde a oportunidade de sublinhar os 35 mil postos de trabalho nas 920 concessionárias que as importadoras possuem no Brasil.

A cifra de 200 mil carros liberados não é ocasional. Em 2011, o total de veículos importados pela Abeiva foi de 199.366 unidades, ou 5,82% do mercado nacional. Os importados pela Anfavea, que vêm do Mercosul e do México sem impostos extras, foram 651.047, ou 19% do mercado.

A TESE DO "SEGURA-PREÇO"
Outra vantagem de afrouxar as rédeas dos importados, segundo a Abeiva, seria a regulação dos preços no mercado automotivo -- um argumento muito utilizado por Sérgio Habib, presidente da chinesa JAC, que costuma dizer que os importados não incomodam os "nacionais" pelo volume de vendas, e sim pelo poder de balizar os preços (para baixo, é claro).

Até a publicação desta reportagem o artigo de Kutney republicado pelo UOL seguia repercutindo, com mais de 630 comentários. Nas redes sociais, jornalistas especializados debatem o tema, apoiando ou criticando a argumentação. Eis aí outra discussão que promete.

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