Exportações de carros começam a reagir após turbulências pós-crise

Da Auto Press

Quando a crise mundial surgiu, no final de 2008, o mercado brasileiro foi um dos menos afetados. Mas das exportações de veículos não se pode dizer a mesma coisa. Só que 2010 tem sido um ano de surpreendente retomada no mercado de exportações automotivas do país, depois de um 2009 de preocupante retração.

Luiz Carlos Murauskas/Folhapress
 
Em 2009, carros de exportação ficaram parados nos pátios de transportadoras

Nos sete primeiros meses deste ano passaram pelos portos brasileiros rumo ao exterior 444,7 mil carros, um número 78% superior ao mesmo período do ano passado. E apenas 22 mil abaixo do número dos sete primeiros meses de 2008, ano pré-crise que totalizou 734 mil unidades enviadas para fora do país. Mesmo com este ensaio de reação, no entanto, os executivos revelam precaução. "Apesar da melhora nas exportações, não temos fôlego nem competitividade para chegar ao mesmo nível que tínhamos. Precisamos fortalecer nossa engenharia para exportar com mais força" revela Cledorvino Belini, presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).

A razão para esta animação contida é justamente o efeito da crise. "Claro que é uma boa noticia. Mas é sempre bom lembrar que esta recuperação vem depois de uma crise mundial que afetou a maioria dos nossos parceiros e diminuiu bastante as nossas exportações", explica Euler Ervilha, gerente de exportações da Fiat para a América Latina. A marca italiana, por exemplo, registrou um recorde de exportações em 2008, com 102 mil veículos, mas caiu 54% no ano seguinte. Para 2010, a previsão é um grande aumento de 70%, mas com apenas 80 mil unidades.

O grande abalo nas exportações de carros provenientes do Brasil aconteceu principalmente por uma questão cambial. Enquanto as principais moedas do mundo ficaram desvalorizadas, o real manteve um patamar de valorização perante o dólar. Comparativamente, a moeda brasileira ficou mais cara. "Todas as montadoras aqui instaladas possuem índice de nacionalização elevado, ou seja, a maior parte dos nossos custos são em reais. Em contrapartida, os preços internacionais são cotados em dólar, fazendo com que os veículos brasileiros percam competitividade no quesito preço", explica Marcos Miazima, gerente geral de exportações da Honda Automóveis.

Essa flutuação do valor de compra e venda da moeda brasileira e da moeda norte-americana significa que, dependendo do preço do real, o mercado para o qual o veículo é exportado não consegue absorver o produto. "A flutuação da moeda nos deixou num patamar que desfavorece qualquer situação financeira positiva", reclama José Carlos Pinheiro Neto, vice-presidente da General Motors. "Quando esse fator estiver nivelado, poderemos brigar com mais força", completa Euler Ervilha.

Em relação aos destinos de exportação, os obstáculos também apareceram. Com os grandes centros em crise e sem compradores, a alternativa foi vender para mercados secundários -- como o Oriente Médio, por exemplo -- os carros que os países desenvolvidos não compraram por preços mais baixos. Só que esses mercados periféricos não quiseram desembolsar pelos produtos brasileiros valores próximos aos produtos europeus. "Um dos problemas das montadoras é que muitas vezes o competidor é a nossa própria marca em outros países", ressalta Belini. A partir deste panorama, os fabricantes nacionais resolveram apostar em países com que o Brasil tem algum acordo comercial. A GM, por exemplo, chegou a exportar para 40 países em 2005. Hoje esse número é de apenas oito, a metade com alguma isenção de impostos, como Argentina, Uruguai, Paraguai e México.

E, na carona da retomada das empresas privadas, o setor também se movimenta em busca de uma conjuntura melhor. A Anfavea, anunciou que vai tentar melhorias no setor, como redução do custo do aço no Brasil, melhor logística, atração de investimentos e formação de engenheiros. "Temos de buscar soluções para questões como custo do aço no Brasil, logística, a atração de investimentos e a formação de engenheiros. Somos o Bric com maior tradição automobilística e precisamos fortalecer nossa engenharia para exportar este tipo de serviço", avisa Belini.

O LADO "HERMANO"
Tradicionalmente o mercado automotivo argentino é caracterizado por vender a maior parte de sua produção para fora do país. Mesmo com o mercado interno local fortemente abalado pela crise, esse panorama se manteve. Nos sete primeiros meses de 2010, o número de carros exportados pela Argentina cresceu 53,7% em relação a 2009, chegando a 146 mil unidades. O impressionante é que isso representa 61,7% de toda a produção local. O principal mercado argentino também é o Mercosul, em especial o Brasil. De todas as exportações dos "hermanos", 86,3% tem terras verde e amarelas como destino.

O mercado interno do país vizinho também está em processo de recuperação. A produção acumulada de 2010 chega a 364 mil veículos e supera em quase 50% os números do ano passado. A previsão da Associação de Fábricas de Automotores da Argentina -- Adefa -- é que cerca de 700 mil carros sejam feitos neste ano e que 400 mil destes serão destinados à exportação. A compras internas nas concessionárias -– importados somados à produção nacional -- deve chegar a 600 mil unidades. (por Rodrigo Machado)

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