Hyundai ix35 mostra beleza e desempenho, sem justificar alto preço

Eugênio Augusto Brito

Do UOL, em Florianópolis (SC)

Foi em uma apresentação cheia de palavras de efeito, dezenas de slides e números para justificar cada argumentação que a Hyundai lançou oficialmente seu mais novo SUV no Brasil, o ix35, que por ora está disponível apenas com motor de 2,0 litros a gasolina, em configurações com câmbio manual de cinco marchas ou automático de seis, airbags ao menos para motorista e carona, freios com ABS e EBD e preços que variam de R$ 88 mil a R$ 115 mil.

Se você, assim como boa parte da imprensa especializada presente ao evento em Florianópolis (SC), estranhou os preços praticados com o ix35, que nada mais é do que a nova geração do Tucson (e assim é vendido em praticamente todo o mundo, exceto no Brasil), aceite a justificativa do vice-presidente do Grupo Caoa, Annuar Ali, representante da Hyundai no Brasil: "Quem viu o carro sabe que a qualidade é claramente superior e que veículo vai se vender em uma categoria acima. Além disso, o Brasil não foi um mercado que perdeu o Tucson, como ocorreu em outros, podendo assim manter os dois veículos".

 

HYUNDAI ix35 POR DENTRO

  • Murilo Góes/UOL

    Mesmo sendo apresentado como um modelo superior, o ix35 abusa da quantidade de plásticos duros. Painel tem desenho moderno

  • Murilo Góes/UOL

    Motor é um 2,0 l, capaz de gerar 166 cv,
    com torque máximo de 20,1 kgfm

  • Murilo Góes/UOL

    Porta-malas tem 728 litros de capacidade (2.885 l com bancos rebatidos) e rede protege a carga

O fato é que o Tucson "caixote", da geração lançada em 2004, foi substituído em outros países pelo "New Tucson" (tanto que este era o nome impresso no material distribuído aos repórteres estrangeiros, também presentes ao lançamento), o nosso ix35, por ser um projeto antigo e, agora, ultrapassado em termos de design, tecnologia e, principalmente, segurança. Tanto é assim que, segundo narra o jornalista Luís Perez, editor do site parceiro Interpress Motor e autor do Blog do Luís Perez, Ali afirma em conversa reservada "que o brasileiro tem como característica comprar automóveis de desenho mais antigo".

Novamente a todos os jornalistas presentes, Ali afirmou ainda que a Hyundai do Brasil está "fazendo o que o mercado faz, no mesmo patamar: se a concorrência não posiciona o veículo ao contrário, como [Chevrolet] Captiva e [Honda] CR-V, nós não faremos também". Poderia também ter citado, mas não o fez, o novo Volkswagen Gol e o agora chamado Gol G4. Mas aí entregaria que o ix35 é o novo Tucson...

E, assim, o Brasil segue com o velho Tucson, agora "nacionalizado" e montado em regime de CKD (com 38% de peças feitas por aqui e o restante chegando do exterior) na fábrica de Anápolis (GO), e com o novo ix35, importado.

FORÇA DA NATUREZA
Utilizando a palavra "qualidade" praticamente a cada frase, executivos da Hyundai mundial definiram o ix35 como um veículo para uso urbano com formas baseadas no conceito de "escultura fluida com grade frontal hexagonal", ponto de identidade dos atuais modelos da marca, onde formas sólidas ganham detalhes de refinamento como se fossem rochas trabalhadas por forças da natureza ao longo do tempo.

Na prática, entrega-se a ideia de um carro robusto (como o Tucson), mas ao mesmo tempo esguio (sem a forma de "caixote" do modelo anterior) e bonito o suficiente para permitir que o comprador -- pessoas solteiras ou famílias recém-formadas, na faixa de 30 a 40 anos -- se "exiba" enquanto dirige.

Segundo o coreano Ki Tae Kim, chefe da marca para América Latina e Central, o objetivo do ix35 é alavancar vendas e faturamento para que a Hyundai consolide a posição de quinta maior montadora do país -- atrás apenas de Fiat, Volks, GM e Ford -- até 2015. Já Annuar Ali explicitou a conta: a meta é vender 40 mil unidades do ix35 ao ano, pouco mais de 3.300 ao mês.

O QUE ELE TEM
Embora o discurso oficial seja de que ainda não há unidades do Hyundai ix35 com motor de 2,4 l (177 cv e 23, 1 kgfm), algumas unidades desta configuração, com câmbio automático, tração sob demanda (4WD), todos os opcionais e a plaqueta com a inscrição "Limited", puderam ser testadas no test-drive reservado à imprensa.

Mas tanto este ix35 "maior" quanto o modelo com motor de 2,0 l convergem quanto a algumas características: há muito plástico rígido em todo o habitáculo, embora de bom acabamento e sem qualquer falha de montagem ou rebarba; apenas o motorista dispõe de regulagens elétricas (distância, altura do assento e inclinação do encosto em todos, e mais ajuste lombar no 2,4 l); há sistema de som com rádio/CD e conexão AUX-IN e iPod, mas não há Bluetooth; o revestimento de couro dos bancos é de muito boa qualidade; o volante de quatro raios com teclas multifunção tem boa pegada; o espaço é bom para até cinco passageiros.

O POVO FALA

"Olhei o carro de perto. O acabamento é péssimo. Parece carro popular de entrada. Pelo que cobra (R$ 92 mil) é uma péssima relação custo x benefício. Com R$ 90 mil dá para comprar um CRV LX, com mecânica, revenda, peças e serviços infinitamente superiores. O ix35 não vale mais do que R$ 75 mil. Temos que aprender a comprar carro. Querem empurrar beleza em detrimento da qualidade. Fala sério Hyundai!"
SANDRO (São Luís-MA)

"O que poderia ser um bom negócio de vendas para a Hyundai, vai acabar se mostrando um erro de estratégia muito grande devido ao preço exorbitante, considerando o tamanho e o acabamento. Lamentável. Pretendia realmente comprar, mas vou seriamente reconsiderar as opções nesta faixa de preço."
ROBERTO R. (Assis-SP)

"Dessa vez a Hyundai andou de ré com o lançamento do ix35, uma carro acima de R$ 90mil manual. Sem comparação com Captiva e Sorento que são muito mais carro. Abraços."
MARCOS CALABREZ (Matão-SP)

"Qual a justificativa para um preço tão fora da realidade como esse? São 20 mil a mais! Design? Não é tudo isso também. A versão preta fica parecendo um palhaço sorrindo com aquele cromado na frente."
SUVMAN (São Paulo)

Falar dos detalhes de cada configuração disponível seria maçante, até porque a própria Hyundai faz pouca questão de divulgá-los, mas todos os pormenores podem ser conferidos aqui (a baixa qualidade do arquivo deve-se ao fato de marca não ter distribuído cópias da lista de equipamentos aos jornalistas; UOL Carros fotografou a edição de um assessor da empresa e depois a converteu em documento digital).

Após uma apreciação minuciosa, fica-se com a mesma boa impressão que se tem ao embarcar no hatch i30, com a imagem clara de que o novo SUV é um Tucson que foi aperfeiçoado. Está melhorado, mas não o suficiente para ser vendido -- e cobrado como sendo -- um carro superior, abaixo apenas do Santa Fe, por exemplo. De toda forma, vale lembrar que o ix35 já vende bem: até julho, a Fenabrave registrou 862 vendas (703 no mês), números já suficientes para deixar o VW Tiguan, um de seus rivais, para trás.

IMPRESSÕES AO DIRIGIR
Cruzando a Ilha de Santa Catarina e passando ao continente, UOL Carros percorreu mais de 300 quilômetros sob baixas temperaturas (por volta de 4ºC) e chuva leve em alguns momentos, a bordo de duas unidades diferentes do ix35: uma com motor de 2,0 l e câmbio manual, a outra com o motor de 2,4 l que não será  vendida por enquanto. Estranhamente, ambas estavam equipadas com todos os opcionais disponíveis, incluindo seis airbags e controles de tração e estabilidade e auxílio em declives/aclives -- estranho porque, a princípio, o consumidor só poderia optar pelo ix35 completo em sua configuração automática, jamais com o câmbio manual.

O derradeiro estranhamento veio da presença de rodas aro 18 (pneus 225/55) também no modelo de 2,0 l, mas a Hyundai tratou de explicar que, diferente do que diz a lista de equipamentos, não haverá modelos com rodas aro 17 no país. Com isso, fica difícil calcular o preço das unidades avaliadas, mas a primeira ficaria ligeiramente abaixo dos R$ 115 mil pedidos pela versão mais completa disponível, enquanto a outra estaria, logicamente, acima deste patamar.

Sem novos "sustos", o ix35 se destacou pelo vigor de seu estilo, ressaltado pela "cara de mau" formada pela grade hexagonal e pelo conjunto óptico afilado; apenas os carros na cor preta perdem este impacto, já que o miolo da grade cromada sobressai do restante e toma o aspecto de uma "boca sorridente de palhaço". Vincos por toda a parte (repare na linha que "forma" os faróis e segue em direção às portas, se repetindo atrás com as lanternas, ao se olhar o carro lateralmente), maçanetas cromadas e faróis e lanternas oblíquas que se esticam em direção às laterais compõem a chamada "escultura fluida" e fazem o SUV se destacar no trânsito.

VÁ COM CALMA NO OFF-ROAD

  • Murilo Góes/UOL

    Versão com motor de 2,4 l, tração sob demanda 4WD, bloqueio de diferencial ligado...

  • Murilo Góes/UOL

    ... e as rodas aro 18 patinam no terreno molhado, a frente pronunciada quase encostando no barranco.

  • Murilo Góes/UOL

    Com pneus para asfalto e visual nervoso, ix35 mostra que seu lugar é em ruas, avenidas e rodovias, onde tem bom desempenho e consumo.

O motor de 2,0 l, 166 cv e comando de válvulas variável tanto na admissão quanto no escape precisa trabalhar em giros mais altos, acima das 3.000 rpm, para dar conta da tarefa, mas consegue cumpri-la a contento, ainda que "reclamando" alto em algumas situações. Assim, o que quase sempre ocorre é o motorista ter de pisar mais para ter melhor desempenho e, com isso, acabar por aumentar o consumo médio. Rodando em trechos urbanos, a média ficou em cerca de 4 km/l (24 l/100 km no computador de bordo), subindo para 6 km/l na estrada (15 l/100 km).

Por sua vez, a unidade com motor de 2,4 l rodou com mais economia, chegando a cravar mais de 8 km/l (12,4 l/100 km), mais suavidade e com maior destreza, graças também ao gerenciamento de tração 4WD sob demanda, que distribui o torque para as rodas com maior aderência, sempre que preciso.

Em ambas, porém, o trabalho de câmbio deixou a desejar: o manual se ressente da ausência de uma sexta marcha, que daria mais fôlego ao conjunto, enquanto o motorista tenta achar a melhor forma de engrenar segunda e terceira marchas no movimento um tanto indeciso da alavanca. Já a caixa automática se mostra molenga demais em retomadas e trechos de subida, reduzindo a marcha tarde demais e forçando o motorista a optar pelo modo manual sequencial (apenas na alavanca) sempre que quiser ter maior desenvoltura.

Ainda quanto ao 2,4 l 4WD, embora a unidade estivesse equipada com bloqueio de diferencial (acionável por uma tecla no painel), foi fácil perceber que o modelo não é adepto fervoroso do off-road: além da pouca altura livre para o solo (170 mm), sua frente proeminente e seus pneus de uso urbano não o tornam um bom escalador de obstáculos. Assim, a tração acaba atuando para aumentar a aderência no asfalto molhado ou para se livrar de alguma imperfeição maior de nossas ruas. Nada além disso.

No fim das contas, ao assumir o volante do Hyundai ix35 , que conta com assistência hidráulica progressiva, mas que só tem regulagem de altura, o motorista percebe que o SUV se mostra desenvolto para os seus 4,41 metros de comprimento, 1,82 m de largura e cerca de 1.500 kg. E também ágil. E que tem nas mãos um carro muito bonito, mas que em momento algum chega a surpreender, como surpreendem alguns modelos alemães e americanos, por exemplo, seja no leque tecnológico (o ix35 não conta com luzes por LEDs, sensor de chuva ou um sistema de piloto automático ativo em configuração alguma, embora tenha teto panorâmico elétrico de duas lâminas e até uma câmera de estacionamento), seja com um pacote mecânico mais apurado. Claro, sempre tendo em consideração o preço, que pode se posicionar num patamar realmente superior, bem acima dos R$ 100 mil.

Viagem a convite da Hyundai do Brasil

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