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Honda Africa Twin vale R$ 75 mil? Rodamos 6 mil km para responder

Cicero Lima

Da Infomoto, em Cuzco (Peru)

12/03/2017 10h00

Aventura-teste sobre CRF 1000L Travel Edition ligou Brasil ao Peru

A CRF 1000L Africa Twin desembarcou no Brasil no final de 2016 com proposta de valentia no fora-de-estrada, mas com conforto para longas viagens, para colocar a Honda na disputa por um dos segmentos que mais cresce no mundo todo.

Para avaliar a Africa Twin embarcamos em uma viagem que habita o imaginário dos aventureiros: atravessamos a América do Sul de leste a oeste em um super-teste que durou 12 dias. O roteiro ligou os oceanos Atlântico (desde o litoral paulista) e Pacífico, passando pela fronteira entre Brasil e Peru. Foram diversos tipos de estrada e condições climáticas em mais de 6 mil quilômetros, situação ideal para avaliar o desempenho e o conforto da bigtrail.

Para a longa aventura, escolhemos a versão Travel Edtiion, vendida a R$ 74.900, que já vem de fábrica com malas laterais rígidas, top case, protetores de mão, do motor e cavalete central. Vale a pena desembolsar toda essa grana?

Pauleira com conforto e segurança

A rotina desse teste não foi fácil: os deslocamentos diários superavam os 800 km com temperaturas acima dos 35º C. Boa oportunidade, porém, para avaliarmos o conforto "touring" prometido pela Africa Twin. Como o banco tem espuma de boa densidade, dores ou incômodos foram minimizados -- claro que após várias horas sobre a moto era preciso alongar o corpo, com paradas a cada 200 km em média.

A regulagem de altura do assento é outro ponto interessante da CRF 1000L. Na posição mais baixa (850 mm), permite que pilotos baixos (como eu, que meço 1,66 m) alcancem o chão e façam manobras com mais facilidade. O peso reduzido (212 kg a seco) e o centro de gravidade baixo também facilitam a tarefa. A posição de pilotagem com o corpo ereto ajuda no começo da viagem, quando o corpo não está acostumado. 

O para-brisa, mais alto na versão Travel Edition, garante boa proteção contra o vento e a chuva. Feito de acrílico não distorce a visão, porém sua posição quase vertical dificulta o escoamento da água da chuva e acumula mais sujeira -- insetos, pó e óleo -- piorando a visibilidade.

Quando ao farol, o LED funciona como canhão de luz e amplia a segurança. Em um dos trechos mais complicados da viagem, entre Cuzco e Nazca, enfrentamos tempestade na subida de serra e o facho de luz branca ajudou a enxergar os muitos buracos da estrada através da neblina.

Valentia

Ao enfrentar estradas esburacadas e asfalto ruim, a roda dianteira de 21 polegadas na Africa Twin se justifica: bastava relaxar os braços, manter pernas flexionadas e deixar o conjunto suspensão/rodas absorver as imperfeições do piso.

Enquanto isso, o controle de tração cumpriu seu papel. Mantido na posição mais intrusiva (nível três), a luz no painel indicou a roda traseira patinando e o corte de giros do motor. O controle de tração também ajudou a enfrentar a água de degelo na base da Cordilheira dos Andes, onde depressões no asfalto por onde corre a água derrubam muita gente.

As cidades pequenas do Peru apresentam um trânsito frenético. Pedestres, animas e pilotos de "tuk tuk" surgem do nada, obrigando frenagens de emergência. Os dois discos dianteiros deram conta do recado, sem sustos ou risco de queda, graças ao sistema ABS (antiblocante) que, vale dizer, pode ser desligado na terra.

Bom desempenho

Um dos pontos mais polêmicos sobre a Africa Twin diz respeito ao desempenho do motor: o bicilíndrico de 999,1 cm³, arrefecido a líquido, produz "somente" 90,2 cavalos, menos do que a potência de três dígitos das concorrentes.

A Africa Twin não se comporta como uma moto de 125 cv, mas teria desempenho bom o suficiente para acelerar com vigor até 170 km/h. Acima disso, com perda de fôlego, chegaria a 200 km/h -- convenhamos, é suficiente e bem acima dos limites legais.

Mas a grande vantagem do motor é o torque desde os baixos giros -- até atingir o máximo de 9,3 kgfm a 6.500 rpm. Em conjunto com câmbio de seis velocidades bem escalonado, foi possível dar aquela "esticada" para ultrapassar a longa fila de caminhões que transportam soja e milho no Centro-Oeste brasileiro.

Consumo e autonomia

A cada 200 quilômetros, uma parada para esticar as pernas, tomar um café, verificar consumo e, se preciso, reabastecer o tanque de 18,8 litros.

Foram mais de 30 medições, variando de 14 km/litro a 18,5 km/litro. Rodando sempre entre 120 e 140 km/h, o consumo médio ficou na casa dos 16 km/litro. Ou seja: a autonomia da Africa Twin supera facilmente os 300 km. Portanto, não se assuste quando a luz de reserva acender logo depois de 200 km rodados e o computador de bordo ainda indicar boa distância antes de ter uma pane seca.

Manutenção

Por outro lado, retomadas no asfalto quente são, de fato, um fator de desgaste. Após 6.000 km, acreditamos que o pneu traseiro (principalmente sua banda central) não aguentaria a volta e teria de ser substituído.

Não tivemos de trocar o pneu, mas a câmara-de-ar sim. A Africa Twin tem rodas raiadas calçadas com pneus tube type, que usam câmara. Como ter um pneu furado é praticamente uma certeza em uma longa viagem – isso aconteceu em nossa aventura-teste -- tivemos o auxílio de carro de apoio e carreta.

Caso a viagem fosse solo, o jeito seria desmontar a roda, tirar o pneu do aro e trocar a câmara. Embora tenha cavalete central, que ajuda nessa tarefa, é bom lembrar que espátulas, bomba de ar, ferramentas e câmara sobressalente são necessárias.

Outra preocupação foi o estado da transmissão final: diferentemente de outras bigtrail, que têm eixo-cardã, a Honda optou por conjunto de corrente, coroa e pinhão. Mesmo rodando em ritmo forte, somente após 3.825 km, já em Rio Branco (AC), fizemos uma revisão: o conjunto estava em boas condições, mas foi preciso regular e lubrificar a corrente.

Renato Durães/Divulgação
Boa ergonomia e eletrônica foram úteis no trajeto de 6 mil quilômetros Imagem: Renato Durães/Divulgação

Conclusão

Depois de rodar 6.000 km, finalmente às margens do Pacífico, foi possível perceber que a Africa Twin nasceu para uma longa aventura. A moto tem capacidade de levar o piloto por estradas de terra, sem o temor de ficar atolado ou sofrer por conta do peso excessivo da máquina.

No asfalto, a Africa Twin mostrou atributos como conforto, segurança e maneabilidade. A roda aro 21 e o peso reduzido conferem agilidade rara em uma bigtrail de 1.000 cc. Em longa viagem, como essa, a versão Travel Edition, que traz o jogo completo de malas, justifica o investimento: destacáveis e práticos, os cases usam a mesma chave da ignição.

Claro que o consumidor tem que levar em consideração que com os R$ 74.900, é possível optar por alguma concorrente europeia com mais recursos eletrônicos e itens de conforto -- a Africa Twin fica devendo itens como aquecedor de manoplas, que não é vendido nem como acessório original. Mas as rivais não terão a mesma versatilidade no off-road.

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