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Harley Ultra Limited mostra luxo do histórico caminho do café em SP

Mario Villescusa/Infomoto
Luxuosa, Ultra Limited passa por região que já foi centro da riqueza do Brasil Imagem: Mario Villescusa/Infomoto

Arthur Caldeira

Da Infomoto, em Bananal (SP)

11/12/2014 21h03

"Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito". As palavras de Monteiro Lobato (1882-1948) escritas em 1906 no conto "Cidades Mortas" descrevem, de forma melancólica, os municípios do Vale Histórico, no extremo leste de São Paulo. A região já foi uma das maiores produtoras de café do Brasil, em meados do século 19. Atualmente, guarda apenas as lembranças de uma riqueza que não volta mais. Só restaram os belos casarios apalaçados de dois e três andares, as opulentas casas-grandes em belas e históricas fazendas que hoje não têm sequer nem um pé do "ouro preto", que trouxe e levou embora o progresso da região.

A luxuosa Harley-Davidson Ultra Limited é nossa condução em viagem até Bananal (SP), cidade que melhor simboliza a trajetória do Vale Histórico, pela história de suas fazendas na divisa com o Estado do Rio de Janeiro. Tombada pelo patrimônio histórico, já foi uma das mais ricas da então província de São Paulo entre 1830 e 1880, auge da produção cafeeira, quando chegou até a cunhar sua própria moeda.

Além da arquitetura e da riqueza histórica, Bananal fica aos pés da Serra da Bocaina. Bom destino para um roteiro de mototurismo no final de semana, a cidade oferece confortáveis hotéis-fazendas com uma simples, mas saborosa, culinária interiorana. E muitas belezas naturais.

Distante 310 km da cidade de São Paulo e 160 km do Rio, Bananal, ao contrário do que se possa imaginar, nada tem a ver com bananas. "Banani, na língua dos índios que aqui habitavam, denominava o rio sinuoso que corta a cidade. Daí veio o nome", conta João Antônio, bananalense de 47 anos, que vive da venda de suas obras em madeira talhada na Casa do Artesão, montada no Solar Aguiar Valim, uma das mais belas amostras arquitetônicas da cidade.

CAMINHO DOS TROPEIROS
Embora o sistema de navegação na tela de 6,5 polegadas da Ultra Limited indicasse outro caminho, optei pelo mais tradicional para se chegar a Bananal. Siando de São Paulo pelas rodovias Ayrton Senna e Carvalho Pinto, até Taubaté (SP), segue-se pela Dutra até o km 36. Lá, uma enferrujada placa indica o início da SP-068, a rodovia dos Tropeiros, caminho da viagem entre São Paulo e Rio na época do Império.

O asfalto da rodovia até Areias, uma das primeiras cidades do Vale Histórico, é precário. Porém, a paisagem rural e as boas curvas compensam o sacrifício. Depois, a estrada melhora e o sistema de som da Ultra, que se conecta por meio de Bluetooth à MP3 players e celulares, embalou a prazerosa viagem de 316 km até Bananal -- 120 km destes na rodovia dos Tropeiros.

Ao chegar à pacata cidade de 11 mil habitantes, o asfalto dá lugar ao calçamento tombado pelo patrimônio histórico. As primeiras placas indicam a Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte e a estação ferroviária, uma das atrações da cidade e que remete ao ciclo do café.

Toda de ferro e importada da Bélgica desmontada, a estação é quase um símbolo da decadência da cidade. A estrada de ferro que ligava São Paulo e Rio, construída por iniciativas dos barões do café, ficou pronta tarde demais -- em 1888, quando as plantações dali não eram mais prósperas -- e teve pouca importância econômica. Restaram apenas sua estrutura e uma velha maria-fumaça que percorria o ramal até Barra Mansa, já em terras fluminenses. Desativada em 1964, foi tombada pelo Patrimônio Histórico em 1969.

Atrações históricas

  • - Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus do Livramento

    Construída em 1811, em estilo colonial, possui no Santíssimo os Doze Apóstolo em madeira. De arquitetura simples com planta fechada, é motivo de orgulho dos bananalenses. Praça Monsenhor Cid França Santos

  • - Igreja Nossa Senhora da Boa Morte

    Existe desde o século passado, foi reformada várias vezes e até reconstruída. Rua Coronel João Ramos Nogueira Fragoso

  • - Estação da Estrada de Ferro

    Inaugurada em 1889, é um prédio de excepcional construção metálica, sendo o único na América Latina. Foi importada da Bélgica e é representativa da pré-fabricação em aço possibilitada com a Revolução industrial

  • - Sobrado da Dona Laurinha

    Construída em 1811 foi tombada pelo patrimônio e restaurada. Abriga pequeno museu com móveis, louças antigas, objetos raros e quadros com significativo acervo da época. No local há venda de artesanato. Largo da Matriz

  • - Solar Aguiar Valim

    Construído em meados do século 19, tem características neoclássicas, como as portas principais em arco pleno e a escada principal em lances simétricos. Apresenta pinturas murais de Villaronga. Atualmente, está fechado à visitação. Fica na Praça João Rubião

  • - Chafariz

    Inaugurado em 1880, marcou a conclusão dos encanamentos e o reservatório da cidade. Até poucos anos atrás, ainda jorrava água. Alguns historiadores afirmam que foi importada da Europa. Praça da Matriz

CASARIO COLONIAL
Pequena, Bananal concentra em alguns quarteirões diversas construções históricas. O ideal é estacionar a moto e percorrer, a pé, as ruas e praças para apreciar as fachadas de prédios como o Solar Aguiar Valim, infelizmente fechado para visitação. A Igreja Matriz fica em frente à praça principal, onde há também um antigo chafariz de onde não há muito tempo o povo podia retirar a água encanada desde a época do café

Na rua principal, fica a histórica "Pharmácia Popular", com a fachada e a grafia antiga preservadas. Uma das mais antigas em funcionamento, teve o interior modernizado depois da morte do antigo proprietário, seu Plínio, há três anos. Restaram apenas alguns recipientes antigos e o chão decorado com ladrilhos hidráulicos. Aproveite a caminhada para observar outros sobrados e construções que foram restauradas pelos atuais proprietários.

Se a fome bater, fica ali no largo da Matriz o restaurante "O Casarão", com self-service de uma gostosa comida caseira. Outra opção é o "418", ao lado do belo prédio do Fórum e do Solar Aguiar Valim. Na praça João Rubião Júnior, há ainda a Igreja do Rosário, a antiga capela dos escravos construída em meados do século 19.

Onde comer

  • - Chez Bruna

    Boa comida mineira e trutas no alto da Serra da Bocaina. Também oferece camping. Rodovia SP-247, km 28, Sertão de Bananal.

  • - Habeas Copus

    Essa cervejaria e restaurante é a única a oferecer comida à la carte em Bananal e funciona apenas à noite. Rua Dr. José Rangel de Almeida, 40.

  • - 418

    Oferece comida por quilo. Fica na Rua Antonio Valipte, 186, ao lado do Fórum e do Solar Aguiar Valim.

  • - Casarão

    Comida caseira saborosa em buffet variado de self-service. Praça Pedro Ramos, 113.

CASA-GRANDE
É fora da cidade, na continuação da rodovia dos Tropeiros, que ficam as maiores riquezas de Bananal: as antigas fazendas cafeeiras, algumas transformadas em hotéis e outras restauradas e abertas à visitação.

Uma das mais famosas, por ter sido cenário de inúmeras novelas e minisséries de televisão, a Fazenda Boa Vista oferece mais de 30 quartos com pensão completa e algumas atrações para crianças. Os quartos na casa-grande são antigos e aconchegantes. O mais luxuoso já hospedou até mesmo o Duque de Caxias e hoje pode acolher até cinco pessoas. Com uma vista privilegiada, de suas grandes janelas avista-se a majestosa entrada da propriedade com palmeiras imperiais. Recentemente, foi palco para a refilmagem de "Saramandaia" (2013).

Depois de diversas indicações dos funcionários da Boa Vista, pegamos as motos para visitar a Fazenda Loanda, alguns quilômetros à frente. Para chegar lá é preciso pegar cerca de 600 metros de estrada de terra batida, fácil de percorrer e sem problemas até para as enormes Harley-Davidson que pilotávamos.

Mario Villescusa/Infomoto
Ultra Limited contrastam com o estilo das fazendas históricas Imagem: Mario Villescusa/Infomoto
Construída em 1790, no estilo colonial mineiro, a Loanda foi reformada em 1840. "A moda na Europa era o estilo neo-clássico e o então proprietário, o Barão da Joatinga, fez questão de aplicá-lo a sua morada", conta Pedro Teixeira, atual proprietário e que recebe os visitantes para visita guiada ao custo de R$ 10.

A Fazenda Loanda passou por completa restauração que durou mais de 10 anos. "É caro restaurar e fui fazendo aos poucos", explica Teixeira. Um trabalho digno de elogios e que manteve muito do mobiliário e da planta original. Os cômodos no andar superior -- que incluem os quartos, a sala de sarau, banheiro e uma enorme cozinha -- ocupam cerca de 750 m².

Em cada canto, em cada quarto, há uma boa história a ser contada. O piano alemão de 1800 foi restaurado e funciona perfeitamente como nos tempos em que embalava os saraus. No salão, há ainda uma bela namoradeira, onde os noivos podiam sentar-se lado a lado, mas sempre sob o olhar atento de algum membro da família. "Como não havia luz elétrica, quando começava a escurecer o 'vigia' acendia uma vela para ficar de olho nos namorados. Daí veio a famosa expressão 'segurar vela'", conta Teixeira. Escondido em um dos cantos, há um quadro pintado por Anita Malfatti e adquirido pelo pai do proprietário na década de 1940.

No andar inferior, o antigo porão abrigava os escravos e também serviçais como sapateiro, marceneiro, selador. O local também servia de pouso aos visitantes. "Antigamente, não se tinha costume de receber quem não fosse da família no andar superior. Tinham muito receio do contato de estranhos com as mulheres jovens e solteiras", esclarece.

A antiga capela também foi restaurada. Os afrescos e painéis não puderem ser recuperados e foram repintados. Já o altar é o mesmo trazido da Europa há muito tempo. Além da Loanda, parada obrigatória de quem vai a Bananal, as fazendas Coqueiro e Resgate também merecem ser visitadas.

Mario Villescusa/Infomoto
Serra da Bocaina tem opções de hospedagens e diversas caminhadas em trilhas até belas cachoeiras Imagem: Mario Villescusa/Infomoto
NATUREZA
Depois da aula de história in loco, fomos conhecer o tal "Sertão de Bananal". Não se deixe enganar pelo nome, o bairro fica incrustado na verdejante Serra da Bocaina. Para chegar até lá, pura diversão em duas rodas: 26 km por uma estreita e sinuosa rodovia, que exige perícia e cuidado nas curvas, mas com asfalto recém-terminado e uma paisagem de tirar o fôlego. Bastou engatar terceira marcha e deixar que o excelente torque do motor V2 da Harley desse conta do recado.

Se você busca também o turismo de aventura, essa região da Serra da Bocaina tem opções de hospedagens e diversas caminhadas em trilhas até belas cachoeiras. Há ainda alguns mirantes para se apreciar as montanhas e os muitos pássaros da região.

Fomos até lá atrás da boa comida e da tranquilidade do restaurante "Chez Bruna". Fechado durante a semana, o local serve boa comida mineira e trutas deliciosas aos sábados e domingos.

Fazendas para visitar

  • - Loanda

    Restaurada pelo atual proprietário mantém um impressionante acervo mobiliário. Oferece visitada guiada aos finais de semana por R$ 10. Durante a semana é preciso marcar com antecedência. www.fazendaloanda.com. Rodovia dos Tropeiros, km 328.

  • - Resgate

    Tombada, a fazenda mantém o imponente casarão com seus cômodos, a senzala e uma capela. O acervo tem preciosidades como pinturas, móveis, santos de madeira e um cravo que pertenceu à Marquesa de Santos. Foi a principal fazendo do Comendador Aguiar Valim, que também construiu o solar da cidade. Agende a visita com antecedência. www.fazendaresgate.com.br. Rodovia dos Tropeiros, km 324.

  • - Dos Coqueiros

    Construída em 1855 pelo major Cândido Ribeiro Barbosa e sua esposa d. Joaquina Maria de Jesus, mantém intacta sua estrutura e tem um banheiro típico dos tempos coloniais. Exige agendamento prévio. www.fazendadoscoqueiros.com.br. Rodovia dos Tropeiros, km 309.

ULTRA NO CAMINHO DO CAFÉ
A mais luxuosa e confortável Harley-Davidson é um convite para pegar a estrada. Dotada de duas malas laterais e um grande topcase, acomoda bem a bagagem de um casal para um roteiro de final-de-semana -- ao todo são 135 litros de capacidade. Oferece um completo equipamento de entretenimento com sistema de som, rádio "citizen band" e conexão Bluetooth ou por USB a MP3 Players e celulares. Há ainda um útil sistema de navegação por GPS para você não se perder por aí.

Mario Villescusa/Infomoto
A mais populosa das touring da HD parte de R$ 86.200 Imagem: Mario Villescusa/Infomoto
Reformulada para 2014 por meio do Projeto Rushmore, a touring ganhou motor V2 Twim Cam 103 -- de 1690 cm³ -- com sistema de refrigeração líquida no cabeçote, que esquenta menos e tem mais potência e torque. Oferece câmbio de seis marchas e piloto automático. A Ultra também conta com sistema de freios Reflex com ABS combinado eletronicamente para distribuir a força de frenagem entre as rodas.

Com banco muito confortável e excelente proteção aerodinâmica, a Ultra Limited parece navegar na estrada. Basta programar o piloto automático para a velocidade limite da rodovia e curtir o som e a paisagem, mas sem deixar de prestar atenção à estrada. Embora seja pesada, 414 kg em ordem de marcha, a Ultra Limited, a exemplo de outros modelos da linha touring, tem ciclística bastante equilibrada e mal se nota o excesso de peso em movimento. Sofreu um pouco nos primeiros quilômetros da rodovia dos Tropeiros em função do asfalto ruim, bem como nas curvas mais fechadas, onde as pedaleiras raspam no chão. Mas essa enorme H-D manteve a trajetória. Atenção e cuidado na hora de estacionar e manobrar, em função do porte e peso a moto.

Com tanque de 22,7 litros, a Ultra Limited teve consumo variando entre 14,6 km/l e 16,2 km/l. Com isso a autonomia superou facilmente os 300 km, suficiente para ir até Bananal sem parar para abastecer. O preço sugerido parte de R$ 86.200.

Onde se hospedar

  • - Fazenda Boa Vista

    Originária do final do século 18, foi a maior produtora de café do município. Hoje, guarda resquícios do passado e é palco de minisséries e novelas. Oferece pensão completa. www.hotelfazboavista.com.br. Rodovia dos Tropeiros, km 327.

  • - Fazenda Três Barra

    Conta-se que, em 1822, hospedou D. Pedro em suas viagens a São Paulo, em episódios que culminaram no grito do Ipiranga. Sem o esplendor de outrora, ainda conserva o aposento duplo usado pelo príncipe com os móveis da época. O restante da casa sofreu modificações. www.hotelfazendatresbarras.com.br. Rodovia dos tropeiros, km 320.

Como chegar

  • - De São Paulo

    São 316 km de distância pelo corredor Ayrton Senna-Carvalho Pinto e Dutra até a saída 36. Depois aprecie a bela paisagem e as curvas da rodovia dos Tropeiros, que corta o Vale Histórico até Bananal.

  • - De Belo Horizonte

    Siga pela BR-040 até Juiz De Fora e depois pegue a BR-267 e MG-353/RJ-151 para Volta Redonda (RJ). Vá até Barra Mansa e pegue a saída 273 da Dutra. São 449 km.

  • - Do Rio de Janeiro

    Fica a cerca de 160 km do Rio pela Dutra. Em Barra Mansa, pegue a saída 273 para Bananal.

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