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Carro "filmado" aumenta insegurança de motociclistas

Mário Villaescusa/Infomoto
O que o motorista do C4 está prestes a fazer? Ao motociclista, só resta esperar para saber (e desviar) Imagem: Mário Villaescusa/Infomoto

Cícero Lima

Colaboração para o UOL

29/04/2013 17h34

"Olhe no retrovisor do carro; se enxergar os olhos do motorista, saberá que ele consegue ver sua moto". Sempre que alguém conduz uma motocicleta, deveria estar atento a essa regra da pilotagem defensiva. O contato visual com o motorista também é uma garantia para pedestres, ciclistas e demais condutores.

Aí começam os problemas, principalmente com os donos de carros que usam e abusam das películas nos vidros de seus veículos.

A película, mais conhecida como insulfilm, tem a função original de reduzir os efeitos dos raios solares, amenizando a temperatura no interior do veículo. Mas seu uso foi disseminado como um escudo protetor contra roubos -- infelizmente tão comuns em nossas ruas. De acordo com dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado, foram registrados 4.378 boletins de ocorrência de roubos de veículos na cidade de São Paulo somente em março deste ano.

Devido à ineficiência na prevenção ao crime, observamos a proliferação de carros e utilitários transformados em verdadeiras "fortalezas visuais". Para regularizar o uso das películas, o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) publicou, em outubro de 2007, a Resolução 254, que trata do assunto. Segundo ela, os parabrisas e vidros laterais dianteiros são áreas "indispensáveis" à dirigibilidade do veículo. Ali, a transparência mínima deve ser de 70%; nos demais vidros, como os laterais traseiros, nunca pode ser inferior a 28%.

Porém, a simples observação do trânsito de São Paulo revela o verdadeiro festival de carros "travados no G5" -- terminologia dos instaladores quanto à transparência das películas (a G1 é a mais clara, e a G5, mais escura). Quem já dirigiu um carro com o filme mais escuro sabe que, em determinadas condições, a visibilidade fica comprometida. Manobrar em garagens subterrâneas é praticamente impossível sem baixar as janelas.

Sob chuva a situação torna-se ainda mais perigosa; durante a noite, a visibilidade cai a níveis impraticáveis. Nas saídas de garagens, esquinas e faixas de segurança, é comum ver carros e transeuntes em situação de risco, uma vez que o motorista não enxerga o pedestre, e vice-versa.

NÃO VEJO NADA
O risco não é somente de quem vai a pé, pois a "escuridão" também limita a comunicação visual entre motociclista e motorista. Se o carro não possui película, basta olhar no retrovisor: se o piloto da moto vê os olhos do motorista, tem a certeza de também pode ser visto. Além disso, expressão corporal e atitudes de quem está ao volante permitem ao motociclista antever algumas situações de risco.

A mais comum é o uso indevido do telefone celular, mas outra situação que pode ser detectada é a do motorista perdido. Este roda devagar à procura de um endereço; move-se dentro do carro, balança a cabeça e olha para os lados. São gestos característicos, que devem deixar o piloto da moto atento: a chance de ser fechado é grande. Com a visão do interior do carro bloqueada por películas muito escuras, o motociclista não percebe nada disso.

TRANSPARÊNCIA É SEGURANÇA

  • Mário Villaescusa

    Carro sem insulfilm permite que se veja, através das janelas, o que acontece no trânsito bem adiante; no caso, motociclista ou outro motorista que siga atrás do Linea consegue perceber até mesmo a frenagem da Palio Adventure que trafega à frente, podendo antecipar a reação

Outro hábito interessante é analisar as condições do trânsito mais ao longe olhando através do carro que vai à frente. Mas com a janela  traseira revestido de películas excessivamente escuras isso é quase impossível. Elas também reduzem a eficiência do brake-light.

Há cerca de um ano, Fernando Calmon, colunista do UOL, escreveu sobre o tema. A repercussão foi grande e centenas de leitores manifestaram-se. Muitos concordavam com a necessidade de maior fiscalização do uso do insulfilm, mas outros foram contrários à medida. Dos dois lados partiram críticas aos carros de polícia e de órgãos oficiais que, segundo os internautas, abusam desse recurso.

Como ocorre com muitas leis, parece que a regra para o uso da película não "pegou". Apesar da possibilidade de ser multado em R$ 127 e levar cinco pontos no prontuário, os motoristas parecem não se importar. Boa parte se tranca em seus carros "filmados", envoltos numa falsa (e escura) sensação de segurança -- sem preocupações com ciclistas, pedestres e motociclistas.

Cícero Lima foi diretor de redação da revista Duas Rodas

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