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Buzinar não ajuda a salvar vidas de motociclistas

Cícero Lima/UOL
Caminhão com a inscrição "Buzine, por favor" na Índia; país é campeão de buzinadas e acidentes Imagem: Cícero Lima/UOL

Cícero Lima

Colaboração para o UOL

07/04/2013 21h17

Buzinar é um ato simples: um leve toque no botão e está dado o aviso. Pode ser um alerta, um alô, uma provocação, ou até um pedido de desculpas. Mas usada sem critério a buzina torna-se inútil, e buzinar passa a ser um ato banal. O som estridente e incômodo confunde-se com outros ruídos das cidades, e o sinal sonoro perde sua maior função, que é evitar acidentes.

Diariamente utilizo a ligação Norte-Sul de São Paulo (leia-se, as avenidas Tiradentes e 23 de Maio), que, segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), é um dos pontos de maior concentração de motocicletas da cidade. Em minha rotina diária, alterno o uso de moto e de carro, conforme o horário e os compromissos do dia -- mas sempre sou "freguês" do corredor. Na condição de motorista, gosto de observar os hábitos dos motociclistas; e vice-versa.

Quando estou atrás do volante, chama a atenção a agressividade dos motociclistas entre eles mesmos. Se o piloto for novato, ou "safra 2012" como são chamados pelos motoboys, será alvo de buzinadas incessantes até encontrar uma brecha e liberar o corredor para seus "legítimos donos". A agressividade aumenta se estiver à frente uma moto de grande porte. Nesse caso, o motociclista ouvirá "elogios" como "Tio, vai passear na estrada", "Seu rolha!" e outros comentários impublicáveis.

Mas o que mais irrita o motorista na ligação Norte-Sul e em outras vias movimentadas da cidade é o excessivo -- e inútil -- som das buzinas. Para muitos pilotos ela é garantia contra acidentes e seu uso constante adverte os motoristas, evitando o perigo de uma troca de faixa, por exemplo. Só que isso não é verdade.

  • Mário Villaescusa/Infomoto

    Motos circulam em "corredor" no trânsito de São Paulo: trilha sonora da cena, buzinas não protegem

Isso lembra a fábula de Pedro e o Lobo, em que o pastor de ovelhas mentia gritando que o lobo atacava o rebanho. No começo, os fazendeiros acreditavam e corriam para salvá-lo -- mas ao perceberem que era uma brincadeira de Pedro, pararam de atender aos gritos. Um dia, o lobo apareceu de verdade, e Pedro não contou com a ajuda dos fazendeiros. O mesmo ocorre com as buzinas: o sinal sonoro deixa de chamar a atenção, o motorista parece não acreditar mais nele como sendo de alerta.

Fora isso, buzinar de forma intermitente infringe o artigo 277 do código de trânsito, o que pode custar ao piloto uma multa leve: três pontos no seu prontuário e um prejuízo de R$ 53,20.

VICE-VERSA
Quando estou na moto, acompanho essa cena por outro ângulo. Não vou dizer que sou o "rolha" do corredor, mas piloto na velocidade em que me sinto seguro e com tempo para reagir no caso de alguma fechada ou situação de emergência. Além disso, mantenho uma distância segura do veículo que está à frente. Procuro antecipar-me às possíveis reações dos motoristas e pedestres.

Por vezes, a buzina é inevitável e cumpre sua função -- porém, quase sempre o ideal é reduzir a velocidade e esperar o motorista (ou mesmo o outro motociclista) concluir sua manobra e seguir seu caminho. Não é raro, lá na frente, ao passar pelo mesmo motorista que me fechou, ouvir um pedido de desculpas.

Na Índia e na China, buzinar é uma instituição; mas, segundo a OMS, os países são 1º e 2º no ranking de acidentes

Seja qual for sua condição, motorista ou motociclista, é bom saber que estamos numa encruzilhada. Se continuarmos a usar nossos veículos de forma agressiva, abrindo caminho na base da buzina, nosso trânsito terá as mesmas características de um país que conheci dois anos atrás.

"Horn please", ou "Buzine, por favor": o pedido escrito em letras garrafais na traseira do velho caminhão dava mostras de quanto o trânsito pode ser agressivo e complexo. Em meio ao forte cheiro de pimenta e jasmim que impregna as ruas de Bangalore, o som das buzinas explode no ouvido do turista e avisa: você está na Índia, um país que até julho de 2013 terá uma população próxima a 1,3 bilhão de habitantes.

Lá, a buzina é uma instituição em meio ao trânsito caótico de suas cidades, a ponto de os motoristas de veículos maiores pedirem para ser avisados por ela.

TRISTE RANKING
E qual será o futuro de nossas ruas? Ele depende dos motoristas e motociclistas. Podemos ter ruas calmas e pacíficas, onde buzinar e envolver-se em acidentes são exceções, ou seguir o exemplo da Índia, onde buzina e acidentes fazem parte do cotidiano. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), a Índia é o segundo país do mundo em mortes no trânsito. O primeiro é a China, outro país "viciado" em buzinas. Apenas para ajudar na sua escolha: o Brasil ocupa o terceiro lugar nesse ranking.

A redução de acidentes é a principal meta da Década de Ação pela Segurança no Trânsito (2011-2020), promovida pela Organização das Nações Unidas, da qual o Brasil faz parte. O que devemos ter em mente é abandonar essa "guerra civil" urbana que mata gente todos os dias, e adotarmos ações eficientes buscando a harmonia do trânsito. É fundamental o engajamento de todos na busca de um trânsito melhor, mais seguro -- e mais silencioso.

VÍDEO MOSTRA "SINFONIA DE BUZINAS"

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