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Motos "velhinhas" têm carisma, mas pilotá-las hoje é um risco

Diego Rosa
Motos Agrale e Honda do século passado durante passeio no interior de São Paulo Imagem: Diego Rosa

Cícero Lima

Colaboração para o UOL

29/03/2013 17h30

Não faz muito tempo, uma discussão nas redes sociais sobre a evolução das motocicletas chamou minha atenção. Foi curioso perceber como várias pessoas defendiam modelos aventureiros dos anos 1980 como exemplo de motos resistentes e adequadas para longas viagens. Os mais empolgados criticavam o excesso de eletrônica nas motocicletas atuais -- mesmo que a eletrônica seja importante aliado da segurança e do bolso dos pilotos modernos.

A eletrônica embarcada permite que modelos médios, como a Honda XRE 300, ofereçam até sistema de freio com ABS, que permite frenagens mais seguras, principalmente em situações emergência. Outro argumento em favor das motos atuais é a injeção eletrônica de combustível, que aposentou o carburador e proporciona melhor desempenho com menor consumo de combustível, seja de gasolina ou de etanol – caso das também modernas motos bicombustíveis.

  • Cícero Lima/UOL

    Agrale Dakar 30.0, de 1987: bacana, mas cansa

Ainda assim, os saudosistas não parecem satisfeitos, e buscam argumentos para justificar que motos como as jurássicas Honda XL 250 R e as Agrale Dakar 30.0 são modelos que nunca deveriam ter deixado a linha de produção e ainda hoje seriam utilizadas.

Para tirar a dúvida, fui rodar com ambas.

Tenho grande intimidade com esses modelos, pois em 1992 fim uma longa viagem com eles até a Argentina e o Uruguai; a aventura foi publicada pela revista "Duas Rodas" e praticamente me iniciou no jornalismo especializado.

Nessa época, as motos importadas começavam a desembarcar de forma tímida no Brasil. Restavam ao motociclista brasileiro que buscava uma moto on-off road de média cilindrada a Honda XL 250R, a Yamaha DT 180 ou as Agrale STX  e Dakar 30.0, as principais opções na época.

VIAGEM NO TEMPO
Um amigo colecionador desses modelos emprestou uma Honda XL 250, ano 1983, e uma Agrale Dakar 30.0 de 1987, além de me acompanhar na avaliação. Percorremos cerca de 80 quilômetros, distância que separa as cidades paulistas de Atibaia e Joanópolis.

Nas curvas, ficava clara a falta de aderência dos pneus. E veio o formigamento nas mãos, devido à vibração do motor.

Sobre a Agrale Dakar 30.0

A nostalgia tomou conta daquela manhã enquanto eu batia no pedal de partida. Os motores foram ligados (com a ajuda do afogador, claro) e em pouco tempo nos acostumamos às motos. Excentricidades não faltam ao modelo Agrale: odor do óleo dois-tempos, fumaça branca, resposta ríspida do motor, interminável troca de marchas e frenagem instável.

Enquanto pilotava a Agrale rumo a Joanópolis, acompanhado de meu amigo na Honda XL 250R, constatei que as duas motos são boas apenas na memória.

O passeio tornava-se inseguro e cansativo: foram muitas trocas de marcha em busca de torque do motor para superar os aclives. Nas curvas, ficava clara a falta de aderência dos pneus. Ao fim do passeio, veio o formigamento nas mãos, causado pela vibração do motor -- que também impede o funcionamento dos retrovisores: eles oscilam e não mostram a aproximação dos carros.

Para superar os 110 km/h a Agrale exigia longas retas e muita perícia nas saídas de curvas para não perder o embalo. Outra grande diferença em relação às motos atuais é a ergonomia sofrível dos controles e a ineficiência do farol.

A oscilação na suspensão dianteira e o desempenho tímido quase inviabilizam seu uso nas rodovias. As curvas mais rápidas eram um desafio.

Sobre a Honda XL 250R

(Lembrei de minhas viagens noturnas e a dificuldade para enxergar a estrada mal sinalizada. Ainda assim, fui a Curitiba (PR) pela BR-116 diversas vezes à noite. Hoje, não o faria.) 

Trocamos de moto: agora eu estava no comando da Honda XL 250 R, sensivelmente mais confortável. Seu motor quatro-tempos é mais silencioso e não emite fumaça, mas a oscilação na suspensão dianteira e o desempenho tímido para uma 250cc quase inviabilizam seu uso nas rodovias. As curvas mais rápidas eram um desafio para sua estabilidade -- assim como com a Agrale, é preciso ousar nelas para não perder velocidade.

E isso é um problema, pois em caso de emergência os freios (a lona na dianteira e traseira) não transmitem segurança, e exigiram cautela durante a avaliação. E, se o farol da Agrale é ruim, na XL 250 R ele é praticamente inexiste, assim como as luzes-espia do painel. Com menor vibração, a Honda não cansou como a Dakar 30.0, mas a baixa velocidade máxima foi seu maior problema em meio aos carros e caminhões na movimentada Rodovia Dom Pedro I.

  • Diego Rosa

    Honda XL 250 R: mesmo bem conservada, moto transmite insegurança para o piloto

TENHA CUIDADO
Uma viagem curta foi suficiente para mostrar como essas motos eram limitadas se comparadas aos modelos atuais, como a Honda XR 300 E ou a Yamaha XTZ 250 Lander, ambas com injeção eletrônica e partida elétrica -- sistemas completamente fora da realidade da década de 1980.

Devo admitir que reconhecer o valor e o carisma de uma moto clássica é importante e aceitável. Mas discordo de quem argumenta contra a eletrônica e as mudanças que ela trouxe às motos atuais. Se ainda assim você é apaixonado por uma dessas aventureiras "trintonas", não há como argumentar contra. Escolha a sua e vá se divertir. Sem dúvida, você terá muitas histórias para contar.

Mas não se esqueça de usar todos os equipamentos de segurança e manter a noção do risco que é pilotar uma “velhinha”, principalmente em uma estrada.

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