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Há razões para sua moto fazer barulho, mas não para incomodar os outros

Divulgação
Motor exposto e escapamento imponente explicam parte do ruído das motocicletas, mas seguem especificações e regras técnicas; o problema é mexer ou não consertar Imagem: Divulgação

Roberto Agresti

Especial para o UOL

11/05/2012 22h57

Um colega da imprensa motociclística nacional revelou, após realizar uma avaliação de um scooter elétrico, que o veículo apresentava um insólito problema ligado à segurança. A quase que total ausência de ruído fez com que o colega frequentemente não fosse percebido pelos outros motoristas e principalmente pelos pedestres deslizando pelas ruas paulistanas, e a sugestão de como resolver tal "inconveniente" veio da infância: prender uma carta de baralho encostando nos raios da roda, como muitos de nós da velha guarda fizeram nas bicicletas no passado. Uma piada, claro, até mesmo por que o scooter não tem rodas raiadas.

De fato, maior que o novo problema do silencioso veículo elétrico é o exato oposto: o excesso de ruído que algumas motocicletas produzem. Não certamente as recém-saídas das concessionárias e portanto cumpridoras de legislação, que estabelece um teto para a quantidade de decibéis que cada modelo pode emitir. O problema ocorre quando, por várias razões, o sistema de escapamento original é alterado, seja em parte ou na sua totalidade.

A moto é um pouco vítima de sua própria morfologia. Geralmente o motor está exposto, e não envolto em um compartimento revestido por material fonoabsorvente como nos demais veículos. Além disso, por conta de dimensões limitadas, o tamanho do sistema de escape não ajuda a suavizar a natureza de um motor que, não à toa, é chamado de motor a explosão.

O fascínio pelo poderoso som de um motor de moto é algo perfeitamente entendido por uns e execrado por outros. De politicamente correto não tem nada, sendo apenas compreensível aos olhos dos que fazem do motor um culto, uma religião a ser propalada em altos brados pela ponta dos canos de descarga. Comparativo eficaz pode ser feito com aqueles que instalam altofalantes gigantes em carros e picapes e subjugam o mundo circunstante a seu gosto musical? Certamente sim.

Do scooter elétrico à cromadissima Harley-Davidson desprovida de silenciadores há um oceano de distância. Um erro comum é considerar que qualquer moto, mesmo as que não preservem estritas caracaterísticas de originalidade, sejam veículos mais agressivos do que outros em nossa fauna urbana quanto ao barulho. Um dito popular como "faz a fama e deita na cama" se encaixa à perfeição para explicar a percepção das pessoas ao generalizar, considerando a motocicleta o mais ruidoso agente.

COM LIMITES
Conama, Cetesb, Controlar, orgãos reguladores e fiscalizadores de emissões nocivas à saúde humana estabelecem limites precisos para a quantidade de ruído que cada veículo está autorizado a produzir, e o sistema de medição dos decibéis tem padrões para determinar qual veículo está dentro do limite ou fora dele -- e esse é o grande problema: como reproduzir o tal "padrão" em uma blitz de trânsito numa avenida movimentada?

Ao contrário de um bafômetro, um decibelímetro não poder ser usado em qualquer local mesmo que a moto, ao contrário de um cidadão, não possa se recusar a produzir provas contra si mesma recusando-se a ser ligada. E mais: não pode ser qualquer decibelímetro, mas sim um aferido pelo Inmetro. E desta forma criou-se um impasse, pois há uma lei que determina um limite em decibéis, mas este só pode ser medido em condições "de laboratório", em local específico. Por conta disso acontecem as arbitrariedades, com policiais multando "de ouvido", punições facilmente reversíveis através de recurso.

E na outra ponta estão os que transgridem descaradamente, pois sabem que a fiscalização não está equipada para punir efetivamente. E entre andar com a moto "careta" e se defrontar com um -- em certos lugares, ainda raro -- policial disposto a apreender a moto por conta de barulho, preferem levar adiante a imagem do selvagem da motocicleta e o decorrente estardalhaço, estereótipo batido mas ainda em voga em algumas das tribos dos motociclistas.

MOTONOTAS!

BMW S 1000 RR, a superesportiva alemã, cartão de visitas tecnológico da marca, é alvo de recall mundial. Foi detectada a possibilidade de afrouxamento de parafusos das bielas, o que poderia ocasionar o travamento do motor em casos extremos. A BMW anunciou que no Brasil o procedimento atingirá 296 unidades do modelo.

ROLF EPP, diretor da BMW Motorrad do Brasil, explica que a origem do problema está no equipamento robotizado que faz o aperto das bielas -- pode ter havido falha na manutenção deste robô ocorrida durante tradicional pausa para as férias de verão na Europa, em agosto passado -- e não relacionado a erro de projeto e/ou materiais empregados. A correção do problema, a ser realizada nos concessionários da marca, não se resumirá apenas ao reaperto dos parafusos mas sim sua subsitutuição. Em tal motor, a busca por baixo peso levou ao uso de componentes especiais, que admitem apenas uma única operação de aperto. O recall no Brasil atingirá 110 clientes já de posse de suas motos. O número total de 296 unidades engloba estoque em revendas, motos não desembaraçadas da alfândega ou ainda em viagem para o Brasil.

YAMAHA novamente sem um comandante para seu planejamento e marketing no Brasil. Luiz Augusto Zanini, que havia sido empossado no início do ano no cargo deixou a empresa, na qual estava havia sete anos. Por enquanto não foi designado substituto.

KTM, empresa austríaca famosa especialmente pelas sucessivas vitórias no fora-de-estrada, anunciou no final de 2011 que este ano iniciaria produção no Brasil. Todavia, a prevista fábrica em Manaus parece ser um sonho distante por conta de incompreensões com o parceiro brasileiro, o Grupo Izzo (ex-Aprilia, ex-Triumph, ex-Husqvarna, ex-Harley-Davidson).

THOMAS KUTTRUF, gerente de relações públicas da KTM na Áustria, revelou à nossa equipe estar no momento impossibilitado de dar maiores detalhes sobre os rumos da marca no Brasil, pois já está em curso uma disputa legal entre o Grupo Izzo e a KTM.

Uma delas, bem notória, cultua a lendária americana Harley-Davidson, marca que até mesmo patenteou o compassado pulsar de seus motores V2. O problema é que, na sanha da customização (o neologismo criado para indicar uma moto personalizada, preparada ou "mexida", como se dizia décadas atrás), o rugido acima dos limites da lei parece artigo de primeira necessidade. Outra tribo, a das impressionantes superesportivas e seus motores de cavalaria de dar inveja a qualquer haras, vai por outro viés: o barulho decorre da necessidade de liberar ao máximo a potência dos já megapotentes motores.

TEM ESCAPATÓRIA?
Milhares de dólares são gastos com tubos de escape de metais leves, como o titânio, para reduzir a massa e oferecer o máximo em performance. E a tais preciosos tubos se associam as ponteiras, nome dado ao terminal de escape ou "silencioso", realizados em liga leve ou fibra de carbono, que prometem não apenas urros guturais para arrepiar o séquito de adoradores, como garantem aquele "algo a mais" raramente desfrutável fora de uma pista de corrida.

Por último, mas nem por conta disso menos importantes (pois certamente os mais numerosos), estão os que trocaram as ponteiras de escapamento por razões estéticas ou por conta de acidentes. Um tombo de moto é algo que qualquer motociclista sabe fazer parte de seu destino e, invariavelmente, a vítima prioritária é o escapamento. Exposto como é, ao ser riscado, ralado ou amassado, mesmo que não tenha perdido sua funcionalidade, acaba com o visual de qualquer moto.

E é isso que movimenta a fornida indústria das ponteiras de escape "paralelas", não originais, muitas delas respeitadores das normas de emissões de ruídos, muitas outras não, mas quase todas certamente mais baratas que a ponteira original. Estéticamente válidos e mais em conta, alguns até oferecem melhor performance e economia de combustível. Tentadores, portanto.

O que resta deste polêmico assunto é que a motocicleta, assim como qualquer outro veículo, exige ponderação na hora de ter modificados seus sistemas originais, quaisquer que sejam eles. Por suas próprias características físicas, a moto é predisposta a personalizações, mas há que se ter bom senso ao realizá-las, e principalmente senso de civilidade.

O básico é entender que o que é música para o ouvido de alguns pode representar incômodo para outros. Velhos motociclistas, gente que ao guidão passou uma vida, sabe que quanto mais barulhenta for a moto, mais incômodo será rodar de verdade com ela. São pessoas que mensuram seus deslocamentos ao guidão em milhares de quilômetros -- e não em desfiles diante do local da moda.
 

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