Motos fora-de-estrada vão na contramão do mercado e crescem no Brasil

Roberto Agresti

Roberto Agresti

Colunista do UOL
  • Arthur Caldeira/Infomoto

    Motocicletas como a Yamaha XTZ Super Ténéré e a BMW R 1200 GS são bem preparadas para o off-road

    Motocicletas como a Yamaha XTZ Super Ténéré e a BMW R 1200 GS são bem preparadas para o off-road

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Em pleno andamento, a 30ª edição do Enduro da Independência -- a mais antiga prova de fora de estrada para motos do Brasil --, é uma boa chance para reflexão sobre o uso de motos tipo trail.

Vocação para enfrentar terrenos ruins motos sempre tiveram, algo que está relacionado à gênese do veículo no início do século 20 e às precárias condições das estradas à época. E no Brasil, caminhos de terra ainda não faltam: dos estimados 1,7 milhão de quilômetros de estradas de nosso país, apenas 220 mil são asfaltados, cerca de 13%.

MERCADO
Em 2011, os emplacamentos indicam que o segmento das motos trail e congêneres representou 14,6% do total no Brasil, enquanto em 2012, de janeiro a agosto, a média mensal teve sensível crescimento, passando a representar 16,6% do bolo, e indicando que em números absolutos o atual momento de queda do mercado face ao ano passado não afetou as motos dotadas de pneus mistos e guidões largos.

Líder do segmento, a Honda NXR 150 Bros é a versão da Honda CG 150 Fan -- a motocicleta mais vendida do Brasil -- dotada de suspensões reforçadas, de maior curso e adequações para uso em fora-de-estrada leve. De fato, a Bros está para a best-seller CG assim como as tão disseminadas versões de carros "Adventure" estão para os modelos urbanos dos quais derivaram.

Uma preponderante preferência dos consumidores por uma NXR 150 Bros ou sua concorrente da Yamaha, a XTZ 125, seria comprensível considerando não apenas a quantidade de estradas de terra como também a má qualidade geral da pavimentação nas nossas cidades.

MOTONOTAS!

+ KTM e Husqvarna são marcas cuja expertise em motos fora-de-estrada é notória. A primeira, de origem austríaca, venceu nada menos do que onze vezes consecutivas aquele que é considerado o maior evento do off-road mundial, o Rali Paris Dakar. Já a Husqvarna, originalmente sueca mas sob gestão italiana desde 1987 (e atualmente de propriedade da BMW), tem nada menos do que 82 títulos mundiais em seu currículo, a maioria no motocross e enduro.
+ Grupo Izzo, polêmico representante de muitas marcas de motos no Brasil, atuou tanto com Husqvarna como com KTM no passado recente. Consta que a Husqvarna tenha chegado a acordo para voltar ao mercado sob gestão da BMW do Brasil, o que deverá acontecer em 2013. Já a KTM -- cujos planos eram ambiciosos e previam inclusive a construção de fábrica em Manaus -- está buscando reaver o direto de comercialização no país por vias judiciais.
+ Yamaha TT125, modelo pioneiro em termos de moto fora-de-estrada fabricada no Brasil, era uma simples derivação da estradeira RX 125. Durou de 1979 a 1981. Foi sucedida pela Yamaha DT 180, essa sim um projeto 100% voltado para o uso off-road.
+ Honda XL 250R, a grande rival da Yamaha DT 180, surgiu em 1982 e ambas protagonizaram um intenso embate não só pela preferência dos consumidores, mas também nas competições da época, seja no motocross ou no enduro. Em tempos de proibição de importação de veículos, período que durou de 1976 a 1990, era com estas motos que o esporte fora-de-estrada sobreviveu e evoluiu no Brasil.

Todavia, há fatores que explicam a liderança de mercado das motos ditas 'street' e não das trail, e as principais estão relacionadas ao custo, não só de aquisição como também de manutenção -- uma Honda NXR 150 Bros custa, em média, 25% a mais que as versões estradeiras do mesmo fabricante, e o mesmo vale para a mencionada Yamaha XTZ 125. E um importante item de reposição, pneus, também são mais caros na versão mista usada nas trails.

Subindo na 'hierarquia' da motocicleta, passando a usuários que escolhem motos não como um mero meio de transporte mas principalmente instrumento de lazer, o preço de aquisição/manutenção mais elevados das trail ou aventureiras, verdadeiros crossovers do universo de duas rodas, tem sua relevância diminuída. A BMW, por exemplo, tem como modelo mais vendido no mundo sua R 1200 GS, que apesar de cara e do tamanho intimidador, é moto talhada para enfrentar roteiros sem escolher estrada.

A germânica GS é referência em uma categoria cada vez mais disputada e à qual pertencem outros ícones do segmento, como as Yamaha Ténéré -- em versões de 660 cc e 1200 cc -- e as Honda Transalp e Crosstourer, um 'must' da tecnologia da marca, dotada de câmbio automatizado de dupla embreagem e motor V4 de 1.200 cc de ultima geração.

ENDURO
Começamos falando do Enduro da Independência e assim é fundamental lembrar do mais radical tipo de usuário de motos fora-de-estrada, o que é atraído para as trilhas de fim de semana, seja para competir, seja por puro lazer. À eles a produção nacional e mundial reserva motos específicas tremendamente eficientes, que deixam em um patamar pré-histórico as pioneiras Yamaha DT 180 e Honda XL 250R do início dos anos 1980, motos que compuseram a quase totalidade do 'grid' de largada das edições iniciais do Independência.

Sólidas, eficazes e robustas, DT e XL eram o que havia de melhor à época no Brasil, mas exigiam boas modificações para o uso mais radical. Hoje, Honda e Yamaha produzem localmente modelos exclusivos para a prática do off-road: as Honda CRF 150 e 230 e as Yamaha TT-R de mesma capacidade cúbica, que conciliam a essencialidade recomendada ao uso na trilha (não tem supérfluos faróis, painel, piscas e portanto nem podem ser emplacadas) com a esperada eficiência.

Consistem o primeiro degrau para o usuário apaixonado pela terra que, evoluindo no hobby, encontrará farta oferta de modelos 100% profissionais, dispendiosas motos projetadas para darem a melhor performance imaginável quando a estrada vira uma picada, ou nem mesmo isso.

No mundo todo tanto a pacata trail para uso urbano quanto as superequipadas aventureiras para cruzar continentes, assim como as especialíssimas enduro, pertencem a um segmento em plena expansão, nicho este onde o Brasil, pela citada precariedade das estradas, pelas dimensões continentais e fácil oferta de locais para a prática do esporte off road, tem potencial de crescimento enorme.

A fertilidade deste setor não só alimenta as indústrias de motocicletas como também um fornido mercado-satélite de acessórios e equipamentos, tanto destinados aos veículos como aos seus usuários.  

Roberto Agresti

Roberto Agresti é editor da Revista da Moto! desde 1994. Sua estreia na imprensa automotiva foi em 1984, com passagens pelas revistas Motoshow (atual Motor Show) e Motor 3. Colabora com avaliações de carros no site Best Cars desde 2007, mas sua especialidade e paixão são as motocicletas. A coluna Moto! é publicada às sextas-feiras só em UOL Carros. agresti@revistadamoto.com.br

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