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Scooters carregam o futuro sobre duas (pequenas) rodas

Gustavo Epifanio/Infomoto
Imagem: Gustavo Epifanio/Infomoto

Roberto Agresti

Colunista do UOL

15/06/2012 21h25

Ainda distantes de serem um fenômeno de massa como na Europa, onde superaram as motos na preferência dos usuários nas grandes cidades, os scooters vão devagarinho ganhando cada vez mais espaço no Brasil.

Trânsito pesado e estacionamento difícil aliado à facilidade de uso e características de praticidade superiores às das motos, principalmente para pequenos deslocamentos, foram metamorfoseando o status destes veículos. Até há bem pouco, eram vistos por aqui como meios de lazer, quase brinquedinhos: Suzuki AE 50 e Yamaha Jog e BW'S 50, pioneiros entre nós no início dos anos 1990, conquistaram público restrito, em sua maioria jovens moradores de condomínios horizontais e/ou de pequenas cidades. Limitados em termos de motorização e estrutura, sucumbiram no embate com a realidade viária de nossas metrópoles.

Hoje os scooters literalmente se fortaleceram, e estão sendo usados por pessoas que precisam de um meio de locomoção simples e prático. Ainda são veículos muito mais fáceis de serem usados que uma motocicleta e há no mercado brasileiro cerca de uma dezena de modelos que podem ser considerados genuínos scooters -- não confundir com motonetas tipo Honda Biz e Yamaha Crypton, que, apesar de semelhanças, fogem da efetiva morfologia dos scooters.

Com motores variando de 110 cc a 650 cc, custando de R$ 5 mil a R$ 40 mil, os scooters têm como característica quase que comum a todos as dimensões compactas, por conta de rodas pequenas, e o indefectível escudo frontal que protege as pernas. De fato, talvez esse seja o item que mais individualiza um scooter se comparado a uma moto: neles o condutor vai sentado, com os pés em uma plataforma por trás do escudo, enquanto que numa moto quem pilota vai montado com pés apoiados em pedaleiras e as pernas expostas, abraçando o motor.

MOTONOTAS!

A VESPA, mãe de todos os scooters criada em 1946 na Itália, ainda é marca referência no segmento em termos mundiais. Fabricada pelo poderoso grupo Piaggio, se caracteriza por manter fidelidade ao design original e adotar propulsores modernos, de emissões limitadas mas que oferecem excelente desempenho.

A LAMBRETTA, marca também italiana rival da Vespa lançada um ano depois, em 1947, foi produzida no Brasil à partir de 1955. Aliás, consta ser tal scooter o primeiro veículo fabricado no país, mais exatamente em São Paulo. O auge do segmento, nessa primeira fase, durou do fim dos anos 1950 até meados dos anos 1960.

A BMW introduziu recentemente no mercado europeu dos scooters, o C 600 Sport e C 650 GT. Dotados de potentes motores bicilíndricos, nem por isso renunciam a características clássicas dos scooters: rodas pequenas (aro 15) e amplo espaço sob o banco, capaz de abrigar dois capacetes.

ROLF EPP, diretor da BMW Motorrad do Brasil, joga um balde de água fria sobre a possibildade de termos tais modelos no catálogo da marca no Brasil, considerando nosso mercado ainda incipiente para absorver as novidades, que chegariam por aqui exageradamente caras, segundo o executivo.

YAMAHA T-MAX 500 é tido como o rei dos scooters de alta cilindrada pelas suas características dinâmicas muito próximas às de uma moto, porém preservando a praticidade clássica dos scooters.

NO BRASIL a Yamaha vendeu modelos pequenos, Jog e BW's 50, entre 1993 e 2008, além de poucas unidades de um scooter médio, o Majesty 250, trazido em 1998. Atualmente é a única das marcas fortes em nosso mercado a não contar com nenhum scooter em sua linha de produtos.

O fato de nos scooters o motor ficar completamente escondido pela carroceria significa um grande ponto a favor em termos psicológicos, pois atrai os que querem veículos de duas rodas mais simples, e que veem a moto como algo complexo e agressivo.

Uma série de outras razões menos subjetivas atrai para os scooters, indo desde a infinitamente menor chance de sujar pés e pernas até a inegável sensação de proteção oferecida pelo escudo -- além de um não indiferente aspecto prático: sendo todos dotados de câmbio automático, a pilotagem se resume a comandar acelerador e freios. Mais simples, nem bicicleta.

Líder absoluto do mercado é o pequeno Honda Lead 110, modesto no tamanho mas competente no desempenho caso seja usado no ambiente para o qual foi pensado, a cidade. Seu maior concorrente, e pioneiro deste segmento, é o Suzuki Burgman I. Ambos oferecem capacidade de movimentação em trânsito pesado que supera até mesmo as mais ágeis motos e contam com um compartimento sob o banco capaz de abrigar um capacete ou uma pequena mochila quando o equipamento de proteção está sendo usado. E são muitos os usuários que ampliam a capacidade de carga destes pequenos veículos instalando os chamados "bauletos".

É PRÁTICO
Ainda em estágio embrionário no Brasil, scooters maiores, de 150 cc a 300 cc, são os campeões na preferência das grandes cidades européias. Versáteis, permitem inclusive uso nas vias expressas ou até mesmo em estrada, sem perda das características fundamentais, facilidade e praticidade. São utilizados por homens que se valem da protetividade do veículo por não poder abdicar do paletó e gravata, bem como por mulheres de saia e sapatos de salto alto. Nas elegantes cidades de Milão e Paris, nem mesmo o inverno ou o tempo chuvoso intimida esse tipo de usuário, que adota acessórios como parabrisas estendidos ou capas fixadas ao scooter nas épocas do ano onde o frio e a água são constantes.

O Dafra Citycom 300i é no Brasil o principal representante desse que se pode chamar de scooter "executivo". Custando R$ 13,5 mil, é cria de um dos maiores fabricantes asiáticos do segmento, a taiwanesa SYM, que encomendou seu design a um estudio italiano para não apenas adequar as formas ao gosto do europeu, como também criar um veículo adequado ao biótipo deste cliente.

As vendas do Citycom 300i no Brasil começaram em final de 2010 e surpreenderam as expectativas dos executivos da Dafra: a média dos primeiros cinco meses de 2012, mais de 200 unidades/mês, supera em 14% a obtida no ano passado, ao contrário do que ocorre no mercado de motos, onde o viés deste ano é de queda em relação a 2011. E o mesmo ocorre com o Lead da Honda e o Burgman da Suzuki, entre outros, que enfrentam o ano "ruim" vendendo cada vez mais.

Para atender a quem deseja conciliar a comentada praticidade e facilidade de uso de um scooter a status, o mercado oferece os Suzuki Burgman 400 e 650, que são, ao lado dos modelos importados da Piaggio -- Beverly 250 e 500 e a revisitada mãe de todos os scooters, as Vespa 150 e 250 -- os tops do segmento. Neles, luxo, performance e preço elevado estão lado a lado a características insolitas, como câmbio automático sequencial, freios com ABS e outras iguarias técnicas.

Por ora restritos a um público pequeno no Brasil, os scooters são um gênero de veículo sem o qual a maioria das grandes cidades européias simplesmente não viveria. Adequados em termos ambientais (motores cada vez mais "limpos" e pouco rumorosos) foram eleitos como ideais para receberem propulsão elétrica pela capacidade de abrigar baterias com facilidade, inclusive havendo uma opção no Brasil, o Kasinki Prima Electra, de custo bastante abordável (menos de R$ 5 mil), mas que se vale de tecnologia chinesa não exatamente atualíssima.

Porém, nesse ambiente "elétrico" grandes fabricantes do setor (além das clássicas marcas orientais), como a BMW e a Peugeot, grife francesa de grande tradição em scooters, investem pesadamente, apontando que o futuro da mobilidade nas grandes cidades passa pelas duas rodas.

Pequenas, de preferência.
 

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