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O Motociclista

Brasil estuda pouco sobre problemas de trânsito, e moto é quem mais sofre

Romildo de Jesus/Futura Press/Folhapress
Aproximadamente metade dos feridos em acidentes de trânsito atendidos pelo SUS são motociclistas Imagem: Romildo de Jesus/Futura Press/Folhapress
Divulgação
O Motociclista

Roberto Agresti, editor da Revista da Moto! desde 1994, volta a escrever para UOL Carros. Sua estreia na imprensa automotiva foi em 1984, com passagens pelas revistas Motoshow (atual Motor Show) e Motor 3. Atualmente, é comentarista da rádio CBN/CBN MOTO e colaborador do site AutoEntusiastas desde 2011.

Roberto Agresti

Colunista do UOL

País tenta solucionar falhas sem pesquisar a fundo suas origens

Para solucionar um problema é necessário estudá-lo. Portanto, de pouco adianta simplesmente constatar que o trânsito no Brasil é violento, que o grosso das vítimas são os usuários mais frágeis das vias públicas – pedestres, ciclistas e motociclistas –, sem que se faça uma aprofundada pesquisa sobre as causas dos acidentes.

Excessos e carências levaram a tal situação crítica: de um lado há a total falta de condições da maioria dos condutores, incapazes de usar corretamente veículos quaisquer que sejam -- consequência da irresponsável facilidade com a qual é concedida a CNH (Carteira Nacional de Habilitação). De outro temos a desigualdade nas ações do poder público, que investe pesado na fiscalização em alguns locais e deixa a outros o status de terra de ninguém.

O olho eletrônico mirado aos motociclistas paulistanos -- ai daquele que tentar circular sem capacete -- contrapõe-se ao descaso que se vê em muitas cidades do Norte ou Nordeste, onde a moto é o veículo majoritário e as mais básicas regras para seu uso são solenemente ignoradas.

Como disse no início, para resolver um problema é preciso conhecê-lo a fundo. Justamente por isso é que pode se considerar espantosa a ausência de pesquisas aprofundadas sobre as causas específicas dos acidentes no Brasil, embora saibamos de antemão que a raiz do problema é a falta de educação/treinamento dos condutores. 

Diego Herculano/Folhapress
Vias precárias e falta de fiscalização são flagelos que assolam especialmente as regiões Norte e Nordeste Imagem: Diego Herculano/Folhapress

O que estudos na Europa apontam

Berço da motocicleta, a Europa é exemplo de um trabalho que deveria ser urgentemente replicado e implementado no nosso país. No mais recente estudo sobre segurança viária, nove países do Velho Continente -- Alemanha, Áustria, Espanha, França, Grã-Bretanha, Holanda, Itália, Suécia e Tchéquia -- colheram dados sobre quase 10 mil acidentes com motociclistas ocorridos entre os anos 2000 e 2014.

A análise dos boletins de ocorrência policiais, das informações dos serviços de socorro médico e, é claro, o relato de parte dos acidentados, resultou em preciosa informação para que o padrão de segurança já elevado que se encontra no continente europeu seja ainda mais aperfeiçoado.

Um resumo do que o estudo concluiu indica o seguinte:

+43% dos acidentados declararam estarem distraídos ou cometendo excessos de ordem variada.

+40% deles declararam que “não viram bem” os potenciais riscos, o que pode indicar falha/ausência de sinalização ou condições climáticas ruins.

+32% estavam em excesso de velocidade.

+25% perderam o controle da motocicleta.

+23% interpretaram mal trajetória e/ou velocidade de outros veículos.

Soluções do Velho Continente

Como é possível notar pelo resultado, ao menos três dos cinco maiores índices de sinistros poderiam ser diminuídos através de campanhas para pilotagem segura. Duas situações -- a questão da visibilidade e a da perda de controle da moto -- poderiam ser minimizadas com melhora da infraestrutura, seja de pavimentação ou sinalização. 

Resultaram da análise do estudo algumas recomendações:

1) Investir na segregação entre veículos, ou seja, incentivar a implantação de motofaixas e ciclofaixas nos locais onde a pesquisa demonstrou haver maior “confilto” entre veículos de quatro ou mais rodas e motocicletas/bicicletas.

2) Instituir zonas de velocidade limitada em centros urbanos, eliminar semáforos onde possível e substitui-los por rotatórias.

3) Abolir ou reduzir a existência de obstáculos tipo ilhas de divisão de pistas com ângulo reto, bem como de sinalizações de solo que tenham potencial para desestabilizar veículos de duas rodas (tipo tachões ou olhos de gato). 

Diego Herculano/Folhapress
Vias precárias e falta de fiscalização são flagelos que assolam especialmente as regiões Norte e Nordeste Imagem: Diego Herculano/Folhapress

Aqui prevalece o "achismo"

Independentemente de viabilidade da implantação imediata de tais recomendações, o principal objetivo do trabalho foi chamar a atenção para a importância fundamental de analisar a tipologia dos acidentes, e estudar de modo contínuo suas causas.

Sem uma atenta pesquisa sobre os fatores que desencadearam um acidente, não é possível intervir adequadamente seja na prevenção, o que implicaria obviamente na reforma do modelo de concessão da habilitação, ou na diminuição das consequências dos acidentes, incentivando a utilização correta dos veículos.

Há, portanto, um caminho longo e difícil para que a mobilidade veicular no Brasil alcance um grau de civilidade com a consequente e necessária diminuição dos acidentes.

Apenas constatar que pedestres, ciclistas e motociclistas estão no topo das vítimas e tachar veículos de “perigosos” não mudará a cena enquanto os problemas que levam a tal estado de coisas não forem devidamente pesquisados e conhecidos.

Enfim, menos “achismo” e mais conhecimento concreto para tornar o ir e vir, seja a pé, de moto ou caminhão, algo mais seguro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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