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Moto no corredor só vai funcionar se nosso comportamento mudar

Kevork Djansezian/AFP
Califórnia desenvolveu cultura de carros e motos como nenhuma outra parte do planeta: há regras e as pessoas as respeitam, por isso o corredor foi permitido. E por aqui? Imagem: Kevork Djansezian/AFP
Divulgação
O MotociclistaRoberto Agresti

Roberto Agresti, editor da Revista da Moto! desde 1994, volta a escrever para UOL Carros. Sua estreia na imprensa automotiva foi em 1984, com passagens pelas revistas Motoshow (atual Motor Show) e Motor 3. Atualmente, é comentarista da rádio CBN/CBN MOTO e colaborador do site AutoEntusiastas desde 2011.

Colunista do UOL

29/08/2016 10h00

O martelo foi batido na Califórnia: rodar de motocicleta no corredor agora pode. Desde o dia 19 de agosto uma lei assinada pelo governador Jerry Brown encerrou discussão antiga, atendendo não só à reivindicação de motociclistas e associações que os representam, mas também a pesquisas sobre segurança viária que apontam com propriedade para tal medida.

Certamente quem lê isso, não anda de motocicleta e é totalmente contrário a motos circularem no vão entre as faixas achará que os "gérsons" foram premiados e que a determinação simplesmente deu ganho aos que querem tirar vantagem da intrínseca agilidade do veículo em detrimento da segurança, mas não é bem assim.

Para começar, uma premissa: a Califórnia não é apenas o mais populoso estado norte-americano, mas também aquele no qual a proporção de veículos por habitantes é a maior. A cultura do automóvel (e da motocicleta) se desenvolveu naquele pedaço dos EUA como em nenhuma outra parte do planeta.

Sempre à frente

Prós e contras podem ser espetados nos californianos por este "pendor" para locomoção sobre rodas: sim, eles são os grandes culpados por boa parte do aquecimento global, mas também os mais avançados quando o assunto é segurança, seja ela a relacionada aos veículos ou ao sistema viário.

Quem já rodou em Los Angeles, a maior cidade do estado norte-americano, não terá deixado de notar como eles sabem usar bem não apenas veículos, mas também as vias criadas para eles. Na infinidade de pistas muito bem sinalizadas, chamadas de freeways, a pavimentação é impecável e todos se movem como se fossem ovelhas à caminho do pasto, ordenadamente, compassadamente.

Quem quiser dar uma de ovelha negra, rodar acima do limite ou fazer qualquer outra bobagem, logo será retirado do rebanho por um policial de moto (lembram dos Chips?), carro ou até mesmo flagrado por um helicóptero.

Mais importante, a lei não é aplicada somente por meios eletrônicos, resultando em multas, como é cada vez mais frequente no Brasil. Lá, excessos podem acabar em uma noite mal dormida na cadeia, fora todo o resto, e isso muda a coisa toda.

Nick Ut/AP
Antes de respeitar regras, motoristas e pilotos são devidamente educados nos EUA Imagem: Nick Ut/AP

Não é só "mimimi"

Volto às motos no corredor: ao dar "ok" para o "lane-splitting", como eles chamam por lá a motocicleta se enfiando no vão entre um carro e outro, os californianos não sucumbiram simplesmente ao "mimimi" dos usuários de motos, mas sim a evidências resultantes de pesquisas -- que indicam que, para o bem de todos, é mais seguro que a motocicleta não seja obrigada a se comportar como carro. Na base da conclusão estão dados de colisões frontais e traseiras envolvendo carros e motos, coisa que rodar no corredor não elimina, mas reduz radicalmente.

Imagine você, motorista, dirigindo em uma congestionada via expressa e tendo a sua frente uma ou várias motocicletas ocupando a faixa como se fosse carro. Em um primeiro momento, você poderia achar que o mundo está melhor, e que aquele borrão barulhento passando a centímetros de seus preciosos retrovisores faz parte de um pesadelo que acabou.

Só que não é bem assim: a capacidade de frenagem de uma motocicleta, por melhor que seja o modelo, será sempre inferior à de um automóvel -- e apenas isso já justificaria evitar o traumático "ensanduichamento".

Ninguém se diverte esmagando alguém: a diferente natureza dos veículos que compõem a cena urbana e rodoviária -- carros, motos, caminhões e ônibus -- obriga a diferentes condutas, níveis de habilitação e comportamento.

Não é regra, é educação

Aliás, a abordagem mais importante sobre o tema é justamente o comportamento. O problema da motocicleta no corredor não é o fato de ela estar lá em si, ocupando espaço, mas sim a maneira de como ele está sendo ocupado.

Explico: as mesmas pesquisas que indicam ser mais seguro para todos que a moto esteja no corredor avisam que a diferença de velocidade entre motos e carros não pode ser superior a cerca de 15 a 20 km/h, ou seja, ao passar na fresta, se os carros estiverem se arrastando a 10 km/h, a moto deverá estar no máximo a 25-30 km/h. Só que não é isso o que se vê: o hábito da velocidade excessiva entre carros praticamente parados é lamentavelmente padronizada no Brasil.

Pior: o motociclista que queira proceder de maneira cuidadosa se vê às voltas de uma impaciência totalmente injustificada que beira a selvageria. O mix de excesso de imprudência e agressividade torna difícil não apenas o convívio entre carros e motos, mas até mesmo entre motos e... motos. 

Por isso, o ganho de tempo resultante do uso da motocicleta nos complicados centros urbanos resulta em elevado índice de acidentes não decorrentes do "onde" a motocicleta está, se no corredor ou não, mas do modo como ela é usada. Enquanto isso não mudar por aqui, a Califórnia continuará sendo um lugar muito diferente -- e melhor --, ao menos nesse aspecto. 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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