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Caçador de Carros: Ford Focus e Fiesta saem de linha; como ficam os donos?

Felipe Carvalho

Felipe Carvalho é administrador de empresas, consultor e primeiro "caçador de carros" profissional do país. Seu canal no YouTube dedicado a avaliações de achados automotivos tem mais de 100 mil inscritos. www.youtube.com/CarrosdoPortuga

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

2019-02-20T11:13:53

20/02/2019 11h13

Resumo da notícia

  • Fabricante já afirmou que vai parar produção dos modelos
  • Mercado de usados deve procurar versões mais fácies de manter
  • Focus sempre foi elogiado por dirigibilidade, mas nunca vingou
  • Fiesta fez relativo sucesso, mas câmbio Powershift manchou imagem

A notícia caiu como uma bomba no mundo automotivo: ontem, no dia 19 de fevereiro de 2019, a Ford anunciou que decidiu fechar a fábrica de São Bernardo do Campo, região do ABC paulista.

Sim, foi uma bomba porque ninguém queria que esse dia chegasse, principalmente os milhares de trabalhadores, diretos e indiretos. De qualquer forma, essa já era uma possibilidade levantada por especialistas.

Recentemente, foi a GM que ameaçou fazer o mesmo. Nesse ritmo, tudo leva a crer que esse é só o começo de uma crise industrial que vive nosso país.

Em mais de 50 anos de operações, passaram pela fábrica do ABC os modelos Corcel, Maverick, Del Rey, Pampa, Escort, Ka e Courier, mas nos últimos anos, apenas a linha Fiesta hatch e os caminhões Ford eram feitos ali. Vale lembrar que a Ford tem outras duas fábricas no Brasil: a de Camaçari (BA) produz a linha Ka e EcoSport e a unidade de Taubaté (SP) faz motores. Outros modelos vendidos aqui são importados.

O leitor pode acompanhar os motivos políticos e administrativos para o fechamento da fábrica pelas notícias de UOL Carros. Aqui nessa coluna, quero especular sobre o que deve acontecer com o mercado de usados ao longo dos anos. Vou abordar dois modelos, o Focus e o Fiesta, ambos com os dias contados no Brasil.

Ford Focus

Murilo Góes/UOL
Bom de dirigir, o Focus vai deixar saudades... Imagem: Murilo Góes/UOL

Bem construído e sempre com design arrojado, o Ford Focus se tornou referência no segmento dos carros médios. Apareceu por aqui no ano 2000, como substituto do saudoso Escort. Importado da Argentina desde então, sua lápide já foi encomendada e o caixão será fechado em maio de 2019.

Por mais que a imprensa sempre tenha elogiado o comportamento do carro, ele nunca se destacou nos rankings de vendas. A baixa procura no mercado de novos se reflete no de usados, onde os consumidores são ainda mais cautelosos e procuram fugir de carros com pouca aceitação. Com isso, é comum ver os Focus sendo vendidos por valores abaixo da média da categoria.

Nas 3 gerações vendidas por aqui, eu recomendo de olhos fechados qualquer modelo que tenha câmbio manual. Essa opção foi oferecida em todas as versões dos Focus hatch e sedã das duas primeiras gerações, mas somente nas versões com motor 1.6 da terceira e atual geração. Já os Focus sem pedal de embreagem exigem alguma atenção por parte do comprador. Talvez esse seja o principal ponto que tenha afastado o consumidor do Ford Focus, já que a preferência por carros com câmbio automático parece uma tendência irreversível no nosso país.

Acontece que o câmbio automático de quatro marchas das duas primeiras gerações não é dos melhores. Prejudica parte do desempenho do carro e o consumo de combustível vai para as alturas. Num carro com acerto irrepreensível de carroceria, suspensão, direção e freio, esse câmbio mata o carro e só é indicado para quem não liga para nada disso e quer apenas o conforto que ele pode proporcionar, pagando menos do que outros carros da mesma categoria.

Na terceira geração, esse câmbio deu lugar ao Powershift, um automatizado de 6 marchas e dupla embreagem, que tinha tudo para ser fantástico e fazer do Focus líder do segmento, mas o histórico de problemas desse câmbio em todo o mundo, mancharam ainda mais a imagem desse belo carro. 

Saindo de linha, o Focus vai desaparecer das ruas ao longo dos anos. As versões mais duradouras serão as com os motores 1.6 8v Zetec Rocam e as com motores 1.6 16v Sigma, por conta da simplicidade mecânica e compartilhamento de peças com outros Fords.

Ford Fiesta

Divulgação
Eis a última versão do Fiesta, primeira reestilização desde início da produção local Imagem: Divulgação
Em 1995, um dos melhores anos para os carros importados no Brasil, a Ford trouxe o Fiesta da Espanha. O pequeno hatch tinha visual simpático e bom acabamento, mas não era páreo para os consagrados nacionais em número de vendas, até porque só vinha com motor 1.3 e não tinha os benefícios fiscais dos concorrentes com motores 1.0.

Cerca de um ano depois, passou a ser produzido aqui no Brasil, justamente na fábrica do ABC, já numa nova geração. Teve certo sucesso e hoje ainda é possível ver alguns guerreiros com motores 1.0, 1.3 e 1.6 dessa geração desfilando pelas ruas. Somente os raros 1.4 16v são desprezados, por conta do refinamento mecânico que os donos de carros baratos renegam.

Em 2002, o Fiesta fez as malas e foi para a Bahia, inaugurar a fábrica de Camaçari, onde também deu origem ao EcoSport, pioneiro no segmento. E por lá ficou por muitos anos, nessa que certamente foi a geração de maior sucesso comercial. De mecânica robusta e simples, esses Fiestas são bem vistos no mercado de usados. Oferecem bom pacote de equipamentos e ótimo espaço interno. Porém, eu só recomendo os que tenham motores 1.6. Aqueles com motores 1.0 sofrem por serem carros pesados.

Já a atual geração, chegou importada do México como modelo 2011, operação que se manteve até recentemente com a carroceria sedã. Só o hatch que foi importado de lá por pouco tempo, nos modelos 2012 e 2013. E esses, para mim, são disparados os melhores Fiestas de todos os tempos que foram vendidos no Brasil. Com primazias no segmento como sete airbags, controles de estabilidade e tração e acabamento primoroso, bateu de frente com seu irmão maior, o Focus.

Foi só no modelo 2014 que ele voltou para a fábrica de São Bernardo, onde também morrerá nos próximos meses. O nítido empobrecimento de equipamentos e acabamento em relação ao Mexicano e a má fama do câmbio PowerShift, queimaram a imagem desse último Fiesta nacional. Assim como nos Focus, recomendo apenas os que tenham câmbio manual, seja com o motor 1.5 ou 1.6. A melhor das versões é a Titanium manual, que ainda deve despertar interesse no mercado de usados por um bom tempo, graças ao generoso pacote de equipamentos, bom desempenho e baixo consumo de combustível. Os raros motores 1.0 turbo devem ficar restritos ao público que conhece e aprecia a versão.

Ao longo dos próximos anos, especulo que os mais antigos (aqueles fabricados em Camaçari durante 12 anos) serão os mais procurados. Para mim serão legítimos sucessores espirituais do Escort, que ainda hoje vemos rodando graças à robustez e simplicidade mecânica. Os mais novos devem sofrer com a prioridade que o comprador deve dar para a linha Ka, ainda mais agora que está com um ótimo conjunto mecânico.

Para finalizar, saudosista que sou, lembro que em meados de 2001, eu fui com meu pai e minha irmã nessa fábrica de São Bernardo do Campo. Naquela ocasião, a Ford estava fazendo vendas diretas da fábrica com preços convidativos. A ideia era dividir a compra de um Fiesta com minha irmã. Seria o mais básico possível, numa época que ar condicionado e direção hidráulica ainda eram incomuns nos carros de entrada. Não lembro exatamente o que aconteceu para não fecharmos negócio, mas quis o destino que o Fiesta não fosse meu primeiro carro. Meses depois comprei sozinho meu Fiat Prêmio e não precisei dividir o carro com minha irmã.