Topo

Coluna

Caçador de Carros


Caçador de carros: de bons cintos ao ESP, segurança deveria vir de fábrica

Murilo Góes/UOL
Controle de estabilidade: junto ao ABS, comando eletrônico corrige escorregões ou derrapadas, recolocando carro na trajetória Imagem: Murilo Góes/UOL
Felipe Carvalho

Felipe Carvalho é administrador de empresas, consultor e primeiro "caçador de carros" profissional do país. Seu canal no YouTube dedicado a avaliações de achados automotivos tem mais de 100 mil inscritos. www.youtube.com/CarrosdoPortuga

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

2019-02-12T07:00:00

12/02/2019 07h00

Resumo da notícia

  • Carros atuais têm melhor construção do que os do passado
  • Ainda assim, número de acidentes e mortes seguem elevados
  • Saída talvez passe por universalizar equipamentos de segurança
  • Controles de estabilidade e airbags laterais são exemplos fundamentais
  • Também é importante usar direito os equipamentos, como faróis de neblina e películas

Nos primórdios do automóvel, essas máquinas geniais tinham formas que cumpriam uma função. Eram basicamente bancos motorizados, com comandos para que o motorista pudesse acelerar, frear ou virar para um dos lados. Precisou de alguns acidentes para que dessem importância para o tema "segurança".

Ainda assim, a história mostra que demorou um bom tempo para que isso fosse visto com bons olhos. O leitor teve a oportunidade de assistir o clássico filme "Tucker: The Man and His Dream" (Tucker: Um Homem e seu Sonho, no Brasil), deve se lembrar que Preston Tucker tinha algumas preocupações com segurança em seu fantástico Torpedo -- sedã futurista idealizado no final dos anos 1940 --, mas sofreu com os concorrentes que tentaram convencer os consumidores que se ele tinha essa preocupação, era porque seus carros não eram seguros.

É justamente o oposto do que vemos nos dias atuais, onde as fabricantes tentam de todas as formas mostrar que seus carros são mais seguros que os das outras. Essa obsessão faz com que segurança esse seja um dos pontos decisivos no momento da escolha de um carro. Muito se fala nos testes de colisão, feito por empresas especializadas ao redor do mundo. Tornou-se conveniente classificar os carros por estrelas, mas a evolução desses testes faz com que "carros 5 estrelas" do passado não tenham necessariamente a mesma nota num teste atual.

Seria bom se toda essa preocupação fosse refletida no número de acidentes, mas pelo menos aqui no Brasil, não é o que vemos na prática.

Digo isso porque os carros atuais são mais seguros do que os do passado. Você pode até torcer o nariz ao comparar um carro de entrada nacional com outro de um país do mercado desenvolvido, mas não tem como negar que um Onix é mais seguro que um Chevette, por exemplo.

Por que os números de acidentes e mortes seguem elevados?

Para mim, existem algumas explicações, como motoristas mal instruídos, estradas e ruas precárias e pouca preocupação com equipamentos de segurança nos carros.

Sobre motoristas e vias ruins, até posso falar em outro momento. Hoje quero focar nesse tema da segurança, citando equipamentos que, acredito, deveriam ser itens de séries em todos os carros, custem o que custar.

Mas os carros ficariam ainda mais caros", diriam para mim executivos dos fabricantes de carros. Pois eu digo que segurança deveria ser algo inegociável.

Não faz o menor sentido somente quem tem muito dinheiro poder pagar por segurança que salva a vidas de todos. Já parou para pensar que não adianta o seu carro ter o melhor freio do mundo se o do carro que está vindo atrás não for igualmente eficiente? Sabia que não adianta nada o seu farol com regulagem automática de altura não ofuscar quem vem no sentido contrário, se o carro que está vindo no sentido contrário não contar com isso e te ofuscar a ponto de você perder o controle do seu carro?

Pois é, alguns dos principais itens de segurança vistos nos carros de luxo, deveriam estar nos de entrada de forma obrigatória, acredito. Deveria haver uma linha padrão para todos os fabricantes aqui no Brasil. É assim nos países ricos, onde o consumidor é exigente e considera a segurança inegociável.

Antes de eu citar os equipamentos, vale explicar a diferença entre a segurança ativa e passiva. Como o próprio nome sugere, a segurança ativa está presente para que o acidente seja evitado, como por exemplo os freios ABS. Já a segurança passiva, entra em cena quando o acidente não pode ser evitado, com por exemplo os airbags.

Controle de estabilidade

Eu tomei conhecimento da importância do controle de estabilidade no final dos anos 1990, quando o pequeno Classe A da Mercedes Benz foi reprovado no "teste do alce". Nesse teste, o carro precisa desviar de um obstáculo e voltar rapidamente para sua trajetória, e o Mercedinho falhou. Foi uma situação vexatória para consagrada marca alemã, mas eles deram a volta por cima e equiparam o Classe A com tudo que tinha de mais avançado para época em termos de segurança, fazendo dele um carro extremamente estável.

Duas décadas depois e esse equipamento ainda é raro por aqui, algo inexplicável, ainda mais quando especialistas falam que esse item custaria cerca de US$ 50 por carro, caso entrasse na linha de produção de todos os fabricantes.

Felizmente, ao que tudo indica, esse item será obrigatório a partir de 2020.

Airbags laterais e de cortina

É impressionante o número de recalls de airbags em todo o mundo. Não tem como não questionar sua real eficiência, já que em alguns casos eles podem simplesmente soltar objetos perfuro-cortantes quando inflados.

Por aqui, os dois frontais são obrigatórios desde 2014, inclusive sepultou alguns carros como a VW Kombi e Fiat Mille, que não os tinham em seus projetos originais. Mas diante dos recalls e dos dados que indicam que os acidentes laterais são mais fatais que os frontais, será que os airbags laterais e de cortina não seriam mais importantes que os frontais.

E quando vejo que um simples Renault Kwid tem os laterais de série em todas as versões, imagino que eles nem devem ser tão caros assim.

Cintos de segurança de três pontos e apoio de cabeça

Fico deprimido quando entro num carro novo e vejo que o passageiro central do banco traseiro não conta com apoio de cabeça e o cinto é do tipo sub-abdominal.

Gostaria de estar na sala de reunião que essa decisão de corte foi tomada, para olhar para a cara do responsável por isso e o desprezar pelo resto da minha vida. Quanto custa um apoio de cabeça? Quanto custa um cinto de segurança de três pontos?

Isso é simplesmente inaceitável. Como o pai de três filhos escolhe aquele que vai no banco do meio? Será que é aquele que tirou a menor nota no colégio?

Regulagem automática do facho dos faróis

Eles não precisam ser obrigatoriamente de xenônio ou LED, até porque não faltam ótimos faróis com lâmpadas comuns nos dias de hoje. Mas a falta da regulagem de altura do facho deles é algo preocupante. Quando o carro é carregado de pessoas e bagagem, sua traseira fica naturalmente mais baixa, o que faz com que o facho do farol ilumine a via de forma incorreta, além de ofuscar quem vem no sentido contrário e poder causar um acidente.

Já fui defensor desse item de forma manual, mas tendo visto que grande parte dos motoristas não sabem utilizar de maneira correta, o certo seria que isso fosse feito de forma automática mesmo, em todos os carros. Será que custa mais que um jogo de dispensáveis rodas de liga leve?

Faróis de neblina e seu uso correto

Neblina é algo comum no Brasil, pelo menos em algumas regiões. Mas por aqui, os importantes faróis de neblina dianteiro e traseiro são tidos como itens de luxo em alguns carros. Quanto custa botões e lâmpadas numa linha de produção? Será que custa mais que uma vida?

Caso isso fosse introduzido, meu alerta seria para o uso correto deles, visto que muitos motoristas os utilizam no momento errado (de dia, no meio da cidade ou em trechos amplamente iluminados, em condições normais) e atrapalham os outros motoristas.

Mesmo os neblina dianteiros, mais comuns, têm facho simétrico e espalhado, portanto ofuscam os retrovisores de quem vai à frente ou os que vem no sentido contrário, quando acesos sem neblina. Aos que dirigem assim por achar que o carro fica "bonitão" repensem essa atitude egoísta.

Repetidores de setas laterais

Aqui em São Paulo, a disputa por espaço no trânsito é algo comum. Nas mudanças de faixa, eu me sinto inseguro quando estou em carros que não têm repetidores de setas nas laterais. Pior ainda quando a seta dianteira fica na parte de dentro, próxima a grade.

Preciso contar com a boa vontade do motorista ao lado para perceber minha intenção. Já num carro com os repetidores nas laterais, só não vê quem não quer.

Por aqui, essa simples lâmpada é item de luxo e tida como um diferencial, principalmente quando está nos retrovisores. Na real, nem precisam estar lá. Se for mais barato colocá-las nos para-lamas, que coloquem em 100% dos carros.

Películas nos vidros

As regras para utilização das películas que escurecem os vidros são claras: até 75% de visibilidade no para-brisa, 70% nos vidros laterais dianteiros e 28% nos laterais traseiros e vigia traseiro. Porém, sabemos que na prática quem define isso é o dono do carro, num total desrespeito com a segurança dele e do próximo.

São muitos os carros "lacrados no G5", como popularmente é chamado a película mais escura. O irresponsável motorista usa do argumento da segurança contra assaltos, uma bobagem que sabemos não ter nenhum fundamento. Especialistas apontam que pode acontecer exatamente o contrário, numa situação de sequestro, na qual quem está de fora não consegue ver absolutamente nada que acontece dentro do carro.

Mas voltando para o tema da segurança ativa e passiva, não faz sentido permitir que pessoas dirijam às cegas, com maiores chances de se envolver num acidente. Aqui é muito simples, basta fiscalizar os carros que estão circulando nas ruas. Em São Paulo, não vejo nenhuma ação para que isso mude.

Retrovisores externos convexos

O ponto cego dos carros é algo que poderia ser facilmente eliminado com a adoção de espelhos retrovisores externos convexos. Seria o fim das mudanças de faixa mal calculadas, que muitas vezes resulta na morte de um motociclista que não foi visto num retrovisor comum. Me recuso a acreditar que os custo desse tipo de espelho seja tão mais caro que o de outro comum, a ponto de seu uso não ser cogitado em todos os carros.

Como eu já alertei no início, é claro que essas medidas impactariam nos preços dos carros, mas para mim fica claro que a redução dos acidentes por conta do aumento da segurança dos carros, diminuiria os custos com hospitais, além de poupar aquilo que temos de mais precioso, nossa vida.

Caso o leitor lembre de mais algum item de segurança que poderia ser de série em todos os carros, fique à vontade para incluir nos comentários.