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Caçador de carros: 1.000 km com Renault Sandero 1.0 para zerar preconceito

Felipe Carvalho

Felipe Carvalho é administrador de empresas, consultor e primeiro "caçador de carros" profissional do país. Seu canal no YouTube dedicado a avaliações de achados automotivos tem mais de 100 mil inscritos. www.youtube.com/CarrosdoPortuga

Colaboração para o UOL, em São Paulo (SP)

2019-01-14T09:57:50

14/01/2019 09h57

Viagem a bordo do GT Line 1.0 carregado mostra usos e valores deste motorização atualmente

Quando ouvimos falar em preconceito, provavelmente o assunto é sério. Felizmente, a sociedade está cada vez mais intolerante com quem ainda tem algum preconceito, seja racial, sexual, ou de qualquer tipo.

Já no mundo dos carros, os preconceitos são menos sérios, mas existem. Pessoas têm preconceito com carros franceses, com carros chineses, (ainda) com câmbio automático, outros renegam cores chamativas. De toda forma, ninguém será repreendido aqui, por serem opiniões subjetivas e ligadas ao consumo.

Eu, por exemplo, tenho preconceito com carros com motores 1.0. Desde meu primeiro carro, jamais tive um carro "mil" na garagem. Os clientes que me pediram carros assim, em algum momento ouviram de mim a sugestão de partir para um motor maior.

Claro que a decisão final de compra não é minha, mas como um consultor, exponho a opinião que o ganho em desempenho compensa o possível gasto maior com combustível. E quando imagino que o custo de produção de um motor 1.0 é provavelmente o mesmo de um motor 1.6 que compartilha o mesmo projeto, penso que eles não fazem o menor sentido.

Esses preconceitos automotivos têm pouca importância diante de coisas realmente importantes. Mas, assim como os preconceitos sociais, foram ancorados em nossa mente por alguma bobagem ouvida no passado.

Como eliminar um preconceito

Para me livrar do preconceito com os carros 1.0, testei um Renault Sandero em longa viagem de negócios que eu tinha programado. O objetivo era ir até Presidente Prudente, no interior de São Paulo, longos 570 km de onde eu moro. Somando a ida com a volta, eu tinha mais de 1.000 km pela frente.

Detalhe da viagem é que outros dois adultos me acompanhariam: meu pai e seu sócio, dois senhores com seus 60 e muitos anos. Além disso, bagagem na ida somada com algumas caixas pesadas na volta, exigiriam um certo esforço do carro escolhido.

Foi cedido para o teste uma unidade GT Line, versão com belo visual esportivo, mas com o mesmo 1.0 de três-cilindros das versões de entrada. Pelo plano original, apenas 3.500 veículos nessa configuração seriam produzidos, numa série especial de bom gosto visual, mas que não faz muito sentido para maioria das pessoas. (Ainda é possível configurá-la no site da Renault.) 

Assim que postei sobre o carro nas redes sociais, recebi mensagens indignadas com a proposta. "Se é 'mil', não pode ter aerofólio, saias laterais, difusor e rodas de 16 polegadas", é o que diziam os mais intolerantes.

Será que o pequeno Renault conseguiria abrir minha mente para os carros 1.0?

Na prática

Logo no início, ainda no ciclo urbano, achei notável a visibilidade e o espaço interno. Já a suspensão poderia ser mais macia, pois transmite bastante as irregularidades do solo para os ocupantes. O consumo, medido pelo computador de bordo, parecia dar a impressão que o carro funciona com vento, pois a 70 km/h constantes, acusava ótimos 18 km/l com álcool no tanque.

Pegamos a rodovia Castelo Branco, uma das melhores do país, e o consumo de combustível começou a crescer, chegando nos 15 km/l na primeira parada para um breve café. Isso aconteceu porque o carro passou a ser mais exigido. Nos 120 km/h de máxima permitida nessa rodovia, o motor trabalha a altos 4.000 rpm. Felizmente o isolamento acústico é bom para a categoria, contando até com forro fono-absorvente na parte interna do capô. Sendo assim, com os vidros fechados e o ar-condicionado ligado o tempo todo, o ruído não incomodou as conversas que estávamos tendo.

Quem passa longas horas no volante de um carro, sabe da importância de um bom banco e boa posição para dirigir. Eu esperava sofrer no Sandero, mas em nenhum momento meu corpo reclamou. Pelo contrário! O carro tem ótimo apoio para o pé esquerdo, volante revestido em couro com ótima empunhadura, câmbio com formato de pera (que eu considero o ideal), bancos com boa densidade e bons apoios laterais, além de indispensáveis regulagens de altura para o banco, para o volante e para cinto de segurança. O pequeno Renault se mostrou um grande amigo em longas viagens.

Concluído o trajeto de ida, o consumo ficou em 11,2 km/l. Pode parecer ruim diante dos 18 km/l que acusou no ciclo urbano, mas considerando o peso, velocidade de cruzeiro e ar-condicionado ligado, esse consumo com álcool foi o que tinha que ser.

Durante a estadia em Presidente Prudente, sempre que voltava para pegar o carro, admirava sua beleza. O Sandero atual é bem desenhado, e com os cacarecos esportivos, fica ainda mais legal. Destaco as lindas rodas de 16 polegadas na cor grafite, que são opcionais "obrigatórios" nessa versão. Dá gosto pensar em ter um e, olhando de fora, você até se esquece que é um "milzinho".

Porta-malas cheio

Na viagem de volta, o desafio era maior. Pesadas caixas com amostras de um produto que meu pai representa, acrescentaram uns 200 kg no porta-malas. Logo nos primeiros quilômetros, senti o carro mais bobo em altas velocidades. O peso extra tirou a dinâmica do carro, mas ele foi cumprindo seu objetivo quilômetro a quilômetro. Nas muitas subidas da rodovia, por vezes ele pedia a quarta marcha, além de desligar sozinho o ar-condicionado, que logo era religado quando o motor voltava a se sentir mais tranquilo.

Tenho de dizer que foi gostoso acelerar o 3-cilindros do Sandero, quando, aos 6000 rpm, emitia um som gostoso do escapamento. Vale lembrar que essa "usina de força" tem 82 cavalos quando abastecido com álcool, potência de motores 1.6 nos anos 1990 e de motores 1.4 dos anos 2000. Já o torque, bons 10,5 kgfm a baixas 3.500 rpm. Interessante que nas 2.000 rpm, 90% desse torque já está disponível, graças ao variador de fase na admissão e no escape que esse moderno tricilíndrico tem.

Talvez você, meu caro amigo leitor, esteja dando risada com esses números. A princípio, eu também estaria. Mas essa viagem de mais 14 horas me proporcionou longas conversas com os dois sessentões que estavam comigo. Meu pai, o senhor Armenio, como já disse outras vezes, é o meu mentor automotivo. Seu sócio, a quem chamamos de Clovinho, também é um amante de carros. Portanto, não faltaram boas histórias sobre carros e viagens. E essas vozes da experiência me fizeram repensar.

Ao acelerar nas saídas de pedágio e notar que o Sandero voltava com certo sossego aos 120 km/h, ouvi de forma irônica que "os Fuscas levavam 15 dias para chegar nos 90 km/h".

Ao reclamar da (pouquíssima) vibração do motor, ouvi sobre folgas, problemas de equalização de carburadores, motores que eram descartados depois dos 100 mil km e tantas outros detalhes negativos dos carros do passado. Ao reclamar que o porta-malas era limitado para o tanto de caixa que levávamos, ouvi sobre as viagens em família do passado, onde as bagagens eram espalhadas pelo carro por conta dos escassos espaços para esse fim.

Freios, suspensões, faróis... tudo nesse Sandero parecia ser melhor que o de qualquer carro antigo. Ficou claro para mim que evoluímos muito, antigamente os carros eram bem mais limitados.

Sou obrigado a reconhecer que faço parte de uma geração com muito mi-mi-mi, capaz de reclamar que a direção eletro-hidráulica desse Sandero é pesada, que os 82 cv são pouco para o peso do carro, que o painel tem muito plástico, que o consumo poderia ser melhor, que poderia ter seis marchas, que o porta-malas poderia ser maior e muito mais blá-blá-blá.

No final da viagem, o computador de bordo registrou 10,4 km/l. Volto a dizer: álcool, três adultos, muita bagagem, ar-condicionado ligado o tempo todo e velocidade de cruzeiro entre 110 e 120 km/h em rodovias com muitas subidas. Está bom? Para mim está ótimo, pois no fim das contas, 120 km/h num Sandero são iguais a 120 km/h num Bugatti, e é esse o limite das nossas rodovias, não é?

Para quem é

Guerreiro, o Renaultzinho me pareceu perfeito como um primeiro carro. Pensei num jovem de 18 anos, que quer um visual esportivo que revele sua identidade descolada, mas que tem pouca grana no bolso para abastecer, além de pouca experiência para já ter logo de cara um Camaro de 400 cv. Eu adoraria ter tido esse Sandero aos meus 18 anos.

Sobre preço, os R$ 49.200 tabelados no site da Renault estão R$ 1.000 acima da versão do Sandero mais barato, o Authentique. Levando em conta que o "kit dignidade" composto por ar-condicionado, direção assistida, vidros e travas elétricas, está presente na versão de entrada, com o investimento na versão GT Line o comprador leva a mais sistema multimídia com tela de 7 polegadas, entradas auxiliares, GPS, Bluetooth e comandos na coluna de direção, retrovisores elétricos, couro na manopla do câmbio e do volante, rodas de 15 polegadas, setas nos retrovisores, faróis de neblina e os acessórios externos com visual esportivo.

Uau! Nunca R$ 1.000 foram tão "baratos". Opcionais, apenas rodas de 16 polegadas e câmera de ré. Diante disso, não tenho dúvidas que essa versão será disputada a tapa no mercado de usados.

Quanto às limitações, foram aceitáveis no breve período que fiquei com ele. Claro, para os muitos motoristas estradeiros, aqueles que desbravam o Brasil por conta do trabalho, um motor maior é mais adequado. Ou seja, ele é perfeito para quem roda mais no ciclo urbano e pouco em estradas, mas inadequado para os estradeiros.

Ao fim, o resultado é: meu caro Renault Sandero GT Line 1.0, obrigado por me livrar do preconceito com os carros "mil".