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Análise: 2015 termina como ano a se esquecer no setor automotivo

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Alta RodaFernando Calmon

Fernando Calmon, engenheiro, jornalista e consultor, dirigiu a revista Auto Esporte e apresentou diversos programas de TV. Escreve às terças-feiras.

Colunista do UOL

23/12/2015 17h45

Fazer um balanço de um ano tão difícil para a indústria automobilística, como o de 2015, é tarefa nada agradável. Afinal, em dezembro de 2014 se imaginava pequena queda de vendas este ano porque o Produto Interno Bruto (PIB) iria cair 1%. Porém, as últimas previsões apontam para recuo de 3,5% do mesmo, no mínimo. Isso explica parte do mergulho, sem ser a única nem a principal razão.

EUA e países europeus passaram por crises em seus mercados internos que em alguns casos chegaram a 50% de encolhimento nos últimos sete anos. No entanto, estão em plena recuperação, em especial os EUA. Japão teve queda menor e a China, sempre exceção, apenas diminuiu o ritmo de crescimento em 2015, embora mantenha com folga a posição de maior do mundo com mais de 23 milhões de veículos comercializados.

Quando esta coluna começou, em 1999, registrou grande decepção no emplacamento de veículos (somados automóveis e comerciais leves e pesados). O Brasil quase havia rompido a barreira de 2 milhões de unidades (exatas 1.943.458) e veio um tombo inesperado de 35% ao fim de dois anos, para 1.078.215. A partir daí o mercado voltou a crescer e chegou perto de 4 milhões de unidades, em 2012: 3.802.071. Falava-se até em vendas de cerca de 4,5 milhões, em 2017.

De lá para cá, só frustrações. Foram três quedas sucessivas: 1% em 2013, 7% em 2014 e por volta de 27% em 2015, de acordo com projeções. Em três anos, acumulou-se perda acima de 37%. Mesmo os mais pessimistas no início deste ano estimavam cerca de 15%. Houve uma conjugação de fatores: antecipação de compras em 2012, aumento de impostos, encolhimento do crédito, menor poder aquisitivo, aumento do desemprego e, acima de tudo, a mistura explosiva de crise política e econômica que minou a confiança dos compradores.

Otavio Dias de Oliveira/Folhapress
Concessionárias vazias no setor de carros zero km: cena comum em 2015 Imagem: Otavio Dias de Oliveira/Folhapress

Queda no ranking mundial

O Brasil perdeu a quarta colocação (2,5 milhões de unidades em 2015 ou 1 milhão a menos) no ranking mundial de mercados automotivos e vai terminar em sexto ou sétimo este ano. Uma marcha à ré surpreendente em um país com apenas cinco habitantes/veículo. A Honda concluiu sua fábrica de Itirapina (SP) e decidiu por enquanto não produzir por lá, enquanto a Chery trabalha com 5% de sua capacidade total na unidade de Jacareí (SP).

Porém, nem tudo foi ruim em 2015. Novidades importantes de produção regional surgiram, como HR-V, Renegade, 2008 e Duster Oroch (ordem cronológica) e boas reestilizações de Versa, Focus, HB20 e Cobalt, além do up! TSI.

A FCA inaugurou a fábrica de Goiana (PE). Audi voltou a produzir (A3 Sedan) e BMW completou os cinco modelos previstos. Apenas carros da faixa superior de preço cresceram em torno de 20%. Preços de tabela ficaram em média alinhados à inflação, mas quem pôde comprar recebeu descontos e bônus. As exportações subiram 12%.

Fabricantes que se concentram em automóveis mais acessíveis viram sua fatia de mercado encolher. Fiat, GM, VW e Ford (só esta última conseguiu ligeiro aumento) ficaram até novembro com 56,5%, somando-se importados e produzidos no Mercosul. Há 15 anos as chamadas "quatro grandes" abocanhavam mais de 80% do mercado.

Perda de 10% no número de empregos diretos sobre 2014 foi menor que a queda de produção (cerca de 23%), mas a ociosidade média supera 30%.

Siga o colunista: twitter.com/fernandocalmon

Roda viva

+ Alguns fatos positivos também marcaram 2015: fim da obrigatoriedade dos extintores de incêndio (apesar da tentativa de retorno por meio de lobby no Congresso Nacional) e isenção do Imposto de Importação (II) para elétricos. Os híbridos recarregáveis ou não em tomada foram incentivados com II entre 0 e 7%, dependendo de consumo e montagem no país.

+ Outra boa notícia, agora no final de ano: previsão do controle eletrônico de estabilidade até 2020 para projetos novos ou com grandes mudanças. O prazo não precisava se estender até 2022 para modelos que estão à venda no momento. Possivelmente, o governo pensou nos anos difíceis que ainda estão por vir. Retomada discreta das vendas pode se dar apenas em 2017.

+ Hyundai HB20X Premium automático de seis marchas é prejudicado pelo preço alto (mais de R$ 65 mil com tela multimídia e bancos de couro marrom), mas atende proposta do conceito “aventureiro”. Direção eletroassistida, finalmente, chegou e deveria equipar todos os HB20. Vão livre aumentado em 4,1 cm absorve bem os buracos e, claro, não permite exageros em curvas.

+ Estudo da Delphi mostra crescente aceitação do sistema de ar-condicionado no mercado brasileiro, incluídos os carros importados. Em 2008, 67% dos modelos novos vendidos recebiam esse equipamento, mesmo se oferecidos opcionalmente. Para 2015 a estimativa é de o percentual subir para 84%. Há impacto no consumo de combustível, mas vale a pena.

+ Governo de São Paulo reduziu de 90 para 60 dias o prazo para leilão de veículos apreendidos e não reclamados pelos donos. Se multas, impostos e taxas não pagos e preço das diárias no pátio ultrapassarem o valor do carro, leilão pode ser antecipado. Quem sabe parte das "sucatas" ambulantes saia de circulação, mesmo as isentas de IPVA (mais de 20 anos).

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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