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02/10/2009 - 12h37

Modernização e alongamento de plataformas é prática comum para as montadoras

Da Auto Press
Durante muito tempo foi praxe na indústria automotiva criar novas gerações de um modelo com estruturas igualmente novas. Mas, de olho no corte de custos, flexibilidade e agilidade de produção, os procedimentos foram alterados. Agora o aproveitamento e o aperfeiçoamento de plataformas tornou-se uma prática bastante comum, já que o desenvolvimento de uma estrutura nova demanda gastos bastante elevados. E, nestas mexidas, as montadoras buscam soluções como aumentar entre-eixos, zonas de absorção e até redução de peso.

"Uma plataforma com pequenas melhorias deve ser suficiente para durar quatro, cinco gerações. Fazer progresso em passos é mais seguro do que uma mudança abrupta", ressalta José Fernando Penteado, colaborador do comitê de veículos de passeio da SAE Brasil (Sociedade dos Engenheiros da Mobilidade).
  • Murilo Góes/UOL

    Novo Citroën C3 europeu, maior e mais espaçoso, parte da plataforma alongada do C3 anterior

Entre os carros que tiveram o chassi "mexido" no Brasil ultimamente, estão o "novo" Toyota Corolla, a chamada quinta geração do Volkswagen Gol (que se vale da plataforma do Fox), e o Honda City, que parte da estrutura do Fit.

Nestas evoluções, uma das práticas mais comuns é o alongamento do chassi, o que normalmente acarreta em um aumento do entre-eixos e um eventual maior espaço interno. A base da plataforma, que inclui assoalho, túnel e ancoragens, pode ser alongada ou encurtada em forma de módulos. Ou seja, monta-se módulos de acordo com as necessidades e pode-se "aumentar" o modelo e partir para um novo desenho.

"Isso proporciona uma economia no desenvolvimento e agilidade nas mudanças, pois você não parte do zero para desenvolver um novo produto, mas sim de uma boa base para um produdo teoricamente novo", explica o consultor Paulo Roberto Garbossa, da ADK Automotive. Caso do novo Citroën C3, apresentado recentemente no Salão de Frankfurt.

As mudanças, porém, buscam também aprimorar a segurança. Principalmente na Europa, onde as montadoras se preocupam com as estrelinhas do ranking feito pela EuroNCAP -- organização não-governamental que avalia a segurança dos veículos vendidos no continente. Melhorias na absorção de impactos e na dissipação de forças para outras partes do carro podem ser conseguidas em uma modernização da estrutura. Muitas vezes, através da utilização de aços diferentes.

ACELERADAS

- A PSA Peugeot Citroën tem uma parceria de duas plataformas com a Mitsubishi. Uma é de crossovers, de onde nascem o Mitsubishi Outlander, o Peugeot 4007 e o Citroën C-Crosser. Outra de elétricos, que já originou o iMiev com a bandeira da marca japonesa e que vai dar origem ao Peugeot Ion, apresentado no Salão de Frankfurt.
- Fiat e Ford compartilham um chassi subcompacto na Polônia onde são fabricados o Ka europeu e o Cinquecento.
- A Honda adotou o Advancend Compatibil Body, estrutura implantada inicialmente no Accord e depois no Civic, CR-V, Fit e City. São arcos de distribuição de esforços que levam a deformação para a coluna A e para o teto do veículo, sem interferir no volume interno do habitáculo.
- O Volkswagen Gol atual, chamado de Geração 5, aproveita plataforma do Fox, que, por sua vez, utiliza um chassi simplificado do Polo.
- Os Chevrolet Celta e Prisma, produzidos em Gravataí (RS), usam a plataforma da primeira geração do Corsa, de 1994, que também é utilizada pelo sedã Classic.
"Em vez de fazer uma chapa só, usa-se aços de espessuras e características específicas para cada ponto do carro, de acordo com a necessidade de esforço daquele ponto. Isso melhora muito a rigidez e a durabilidade", ressalta o consultor automotivo José Luiz Vieira, autor do livro "A História do Automóvel".

A rigidez torcional é um aspecto peculiar na evolução de um chassi. Em todo modelo de automóvel é feito um teste chamado pela indústria de "strain gage". São distribuídos sensores por várias partes do carro que identificam a intensidade da fadiga dos pontos do chassi e o nível de deformação de material. A partir dos resultados, se busca uma redução na concentração de esforços nestes pontos. A mudança no formato de uma peça, contudo, pode ser o suficiente para aumentar ou até mesmo diminuir a rigidez, conforme a necessidade.

"Se for um suporte de fixação da suspensão estreito, por exemplo, substitui por um mais largo para poder distribuir melhor a carga", exemplifica Edson Orikassa, diretor de Tecnologia da AEA (Associação de Engenharia Automotiva).

Outros benefícios também podem ser alcançados nas plataformas. Um deles diz respeito ao assoalho. As montadoras têm buscado deixar o piso do carro o mais plano possível. Segundo os engenheiros, é uma forma de otimizar não só o espaço interno, já que se busca eliminar o túnel de escapamento, como também melhorar a dissipação do ar embaixo do veículo.

"Quanto mais o automóvel ficar plano, menor será a resistência ao ar que passa embaixo do veículo. Quanto mais reentrâncias e formas rebuscadas, para assentos, estepe etc, maior é a resistência", destaca Alfredo Guedes, engenheiro do Departamento de Relações Institucionais da Honda Automóveis.

A PARTILHA
A despeito do aproveitamento e do melhoramento de plataformas ser uma estratégia da indústria de olho em mais agilidade e menos custos nas linhas de produção, o compartilhamento de chassis ainda é a prática mais comum. De uma mesma estrutura surgem diferentes modelos e configurações. Da atual plataforma do Volkswagen Gol, por exemplo, saem o sedã Voyage e a picape Saveiro. Na Fiat, a linha Palio origina o sedã Siena, a station Palio Weekend e a picape Strada. Já o chassi do Ford Fiesta deu origem ao Fiesta sedã e ao utilitário esportivo EcoSport.
  • Divulgação

    Nova picape Saveiro deriva da plataforma do Gol G5, que por sua vez se vale da base do Fox

Mundo afora, a lógica é a mesma. A Ford mesmo é um exemplo. O Focus feito na Argentina e vendido no Brasil usa a mesma estrutura dos médios Volvo C30 e do Mazda 3 -- a marca sueca faz parte do grupo, que tem 20% das ações da montadora japonesa. O mesmo ocorre com conglomerados com várias marcas, como a Volks. De uma mesma plataforma de utilitário esportivo são produzidos o VW Touareg, o Porsche Cayenne e o Audi Q7. "A comunização de componentes e facilidade de produção nas plataformas compartilhadas reduz o número de componentes e, consequentemente, os custos", afirma Garbossa, da ADK Automotive. (por Fernando Miragaya)

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