UOL Carros

01/04/2009 - 23h00

Smart chega da Europa e descobre que ruas do Brasil são cruéis

CLAUDIO DE SOUZA
Editor de UOL Carros
Dezesseis anos depois de seu primeiro esboço, uma década depois de seu efetivo lançamento na Europa, e já a caminho do primeiro milhão de unidades rodando em 37 países, o smart fortwo finalmente chega ao Brasil. Com o lançamento desse carrinho para duas pessoas, a marca smart -- que pertence ao grupo Daimler, ao lado da Mercedes-Benz -- inaugura suas operações no país. De início, modestamente: será uma única loja em São Paulo. Uma outra, também na capital paulista, será aberta no segundo semestre. As vendas do smart começam na próxima semana.

Fotos: Murilo Góes/UOL

Cena do recém-chegado smart fortwo coupé durante test-drive em São Paulo, nesta quarta (1)


O carrinho chega com duas carrocerias, a coupé e a cabrio (conversível), ambas na versão única Passion, custando R$ 57.900 e R$ 64.900, respectivamente. A Daimler desconversa em relação à previsão de emplacamentos. Admite apenas que já tem um lote de 500 unidades compradas e prontas para revender em São Paulo. Essa quantidade, em princípio, deve suprir a demanda até o final do ano -- mas a empresa garante que não haverá problemas se for preciso trazer mais carros da França, onde ele é fabricado. Novas lojas em outras cidades, só a partir de 2010. A garantia oferecida é de dois anos.

A proposta do smart é ser um carro 100% urbano, voltado para a racionalização da mobilidade e da utilização do espaço urbano e das fontes de energia. É para quem tem "cabeça aberta", ou chance de ainda abri-la -- daí seu slogan, "open your mind".

Por isso o smart oferece apenas dois lugares: como lembrou a Daimler, a ocupação média dos veículos de passeio nos centros urbanos é de 1,2 pessoa. Assim, mesmo nesse carrinho caberiam mais 80% de alguém.


De lado, o smart parece um "carro de mentirinha" (no bom sentido), impressão reforçada pelo uso de duas cores na carroceria; pneus dianteiros são 2 cm mais estreitos que os traseiros


O smart mede 2,69 metros. Para comparar: nove deles ocupam o mesmo espaço que seis Volkswagen Gol. De acordo com a Daimler, é possível rodar cerca de 15 km/l com o smart na cidade, e 24 km/l na estrada (por isso o tanque tem capacidade para apenas 33 litros de gasolina). E as emissões de gás carbônico, um dos causadores de efeito estufa, estão quatro gramas abaixo do limite preconizado pela União Europeia, que é de 120 g/km.

Prudente, a Daimler não fecha questão sobre seu público-alvo no Brasil, mas é consenso entre os especialistas que o smart deve agradar mais a jovens, mulheres e "descolados" em geral -- seja como carro principal da casa (no caso de solteiros), seja como o segundo ou terceiro (no caso de famílias). E não admira que a primeira loja da marca seja justamente na avenida Europa, uma espécie de passarela de asfalto para a "elite" paulistana motorizada. Afinal, o smart, que começa em 9.900 euros na França e Alemanha (cerca de R$ 30 mil), desembarca por aqui a preço de sedã médio bem recheado. No fundo, é um brinquedinho motorizado muito bacana de ostentar.


Visto por trás, o smart (aqui, na carroceria cabrio) apresenta para-choque expressivo e bojudo, incorporando as caixas de roda; lanternas redondas formam conjunto simples e elegante


POR FORA
O design do smart, pioneiro há dez anos, ao longo do tempo gerou ao menos um clone célebre, o chinês Shuanghuan Noble (alvo até de processo por parte da Daimler), e é referência para minicarros mais recentes -- como Toyota iQ e Tata Nano (embora ambos tenham mais lugares).

O smart é um monovolume encurtado, o que é claramente demarcado pela traseira verticalizada e a dianteira ascendente, que ondula suavemente em direção ao teto. O conjunto formado pela grade frontal, pelo logotipo no capô e pelos faróis ("boca", "nariz" e "olhos" do carrinho), sorri para o mundo com simpatia. De lado, o smart parece de mentirinha -- impressão ampliada pelo uso de duas cores na carroceria. O contraponto é dado pelas belas rodas de 15 polegadas, medida usada em carros compactos e médios (como comparação, o Nano tem rodas de aro 12).

POR DENTRO
O habitáculo do smart tem algumas peculiaridades, mas elas se referem principalmente ao acabamento, ao formato e ao posicionamento de alguns comandos. A ignição, por exemplo, está no console, entre o câmbio e o freio de estacionamento. Conta-giros e relógio analógico ficam em dois mostradores redondos e giratórios sustentados por hastes no centro do painel frontal. Os bancos de motorista e passageiro são desalinhados entre si, para liberar espaço de movimentação aos ocupantes. Assim como a lataria, a cabine também pode ter duas cores -- um dos exemplares dirigidos por UOL Carros usava preto e um abóbora escuro na forração em tecido. Há bastante plástico, e algumas peças têm aspecto frágil (como os botões de travamento das portas e dos faróis de neblina).


Abertura e fechamento do teto são operações simples e automatizadas no smart cabrio; barras laterais do teto podem ser retiradas para aumentar a sensação de liberdade


No smart coupé, o teto translúcido de policarbonato, fixo e com tampa retrátil interna, dá um toque de sofisticação e exclusividade ao interior. Já o cabrio tem capota em tecido que retrai e dobra sobre si mesma obedecendo ao comando de botões no console. Duas barras laterais, que funcionam como trilhos, podem ser retiradas e guardadas num compartimento na tampa do porta-malas, aumentando a sensação de liberdade. Entre os equipamentos de conforto, destacam-se ar-condicionado, trio elétrico e sensor de chuva.

Como a Daimler fez questão de apregoar, por dentro o smart não tem nada de pequeno. Por exemplo: caso recue seu banco, o passageiro com menos de 1,80 metro de altura poderá esticar as pernas completamente. Mas, se essa mesma pessoa ocupar o lugar do motorista, é provável que, ao buscar a melhor posição para dirigir, acabe sentindo falta de regulagens de altura no assento e no volante. São ausências importantes num carro que é chamado de "lindinho" por nove entre dez mulheres.

Mas, no geral, o smart cumpre a contento o papel de acomodar duas pessoas de modo honesto, além de uma quantidade limitada, mas não necessariamente ínfima, de bagagem (220 litros), a qual vai sobre o compartimento do motor. Este é montado a 45º, à frente do eixo traseiro, que recebe a tração.

RODANDO COM O SMART
UOL Carros participou nesta quarta-feira (1) de um test-drive com exemplares do smart, coupé e cabrio, em trechos urbanos e de estrada em São Paulo e arredores.

O QUE MOVE O SMART
Crédito
Propulsor é turboalimentado, a gasolina, tem 1 litro, três cilindros e gera 84 cavalos; montado na traseira, é gerenciado por transmissão automatizada de cinco marchas; tração é traseira
FICHA TÉCNICA COMPLETA
O motor de 1 litro (na verdade, exatos 999 cm³) de três cilindros em linha, 12 válvulas, é capaz de entregar 84 cavalos de potência a 5.250 rpm, além de um interessante torque de 12,2 kgfm a 3.250 rpm. Obtidos graças à turboalimentação, são números semelhantes aos de propulsores 1.4, e na prática o smart se comporta como se tivesse um desses sob o capô -- menos na velocidade máxima, que não passa dos 145 km/h. Por outro lado, o 0 a 100 km/h (diz a Daimler) é cumprido em bons 11 segundos. Sobra disposição para o transporte de duas pessoas, mais bagagem, em situações de tráfego urbano, como arrancadas e retomadas frequentes.

No entanto, a transmissão automatizada de cinco marchas, com opção de trocas sequenciais (na alavanca e em borboletas atrás do volante), é incapaz de gerenciar a força do motor de maneira gentil. Como em outros câmbios desse tipo, as trocas sem intervenção do motorista muitas vezes ocorrem com trancos. O leve delay no funcionamento do acelerador e o sistema de freios muito sensível pedem treino para não fazer o smart partir dando salto e frear mergulhando.

Mas o aspecto que causou a impressão mais negativa no smart foi sua suspensão. Seu acerto é firme, pensado para colaborar na estabilidade de um carro leve, pequeno e relativamente alto. Nos grandes centros urbanos europeus, onde as ruas são de veludo se comparadas com as do Brasil, o smart certamente roda gostoso.

Mas em São Paulo não foi assim. Os solavancos e pancadas são transmitidos em estado quase bruto ao interior do carro, incomodando o passageiro e cansando o motorista. A excelente direção eletroassistida conta a favor, mas o fato é que não dá para comparar a condução do smart com aquela de um carro maior, mais pesado e mais adaptado ao Brasil.

Vale notar que os equipamentos de segurança ativa e passiva do smart são admiráveis, e estão anos-luz à frente da média do nosso mercado. O carrinho possui controle eletrônico de estabilidade, ABS (antitravamento de freios), assistentes de frenagem e antiderrapagem, quatro airbags, cintos pre-tensionados, coluna de direção deformável, célula de segurança etc. Passou com louvor pelos rigorosos testes europeus e norte-americanos nessa área. Mas...

Mas, mesmo sabendo de tudo isso, é impossível não sentir uma certa tensão ao disputar espaço no trânsito com SUVs, vans, caminhões e ônibus, todos prontos para atacar esse pequeno europeu -- atrevido e algo petulante -- que veio se aventurar em nossa selva urbana.

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