UOL Carros

02/01/2009 - 16h11

Linea serve de laboratório para o motor T-Jet, que equipará o Punto

CLÁUDIO DE SOUZA
Editor de UOL Carros
O Fiat Linea chegou ao mercado brasileiro num momento difícil. Bateu de frente com outros lançamentos importantes, e poucas semanas depois de anunciado estourou a crise financeira mundial. Também é um carro que tem de lutar para se afirmar em meio a concorrentes fortíssimos -- Honda Civic, Toyota Corolla, Chevrolet Vectra -- e contra um passado controverso da Fiat no segmento dos sedãs médios. Basta lembrar do Marea. A expectativa da marca italiana era vender 2.500 unidades do Linea por mês. Até agora, emplacou 2.169 em dois meses e meio, segundo dados da federação dos distribuidores.

Fotos: Murilo Góes/UOL

Visual do Linea se beneficia da força da dianteira, de grade e faróis marcantes

GPS NEM SEMPRE ACERTA
Divulgação

O desempenho da navegação por GPS integrado ao sistema Blue&Me (na foto acima, a tela, no painel de instrumentos) é ambivalente. Tem o mérito de ser o primeiro com informações no painel (e não num aparelho à parte) e de interagir bem com o motorista quando este usa o comando de voz -- e falando em português do Brasil.

A programação do navegador para levar o usuário a algum destino deve ser feita com o carro parado. Se você iniciar o processo quando estiver, por exemplo, num farol, pode ter a certeza de que não vai conseguir terminar de escrever o nome e número do endereço (escolhendo letra a letra numa lista) antes de o sinal ficar verde. Então é preciso fazer o carro andar -- e a programação é toda perdida.

UOL Carros fez algumas experiências com o GPS, e colheu o resultado esperado: a qualidade das informações ainda é irregular. Numa espécie de anedota involuntária, o primeiro teste consistiu em chegar ao endereço de um jantar de final de ano da própria Fiat, em Moema, zona sul de São Paulo -- bairro importante e cheio de pontos de interesse. As orientações do sistema, no entanto, foram confusas, mais atrapalhando do que ajudando, e culminando na ordem para virar na rua desejada -- mas num trecho de contramão... Só chegamos após desligar o sistema e usar o cérebro em vez da máquina.

Um segundo teste, este com sucesso, consistiu em localizar e guiar até um endereço particular no extremo da zona oeste, quase em Osasco (Grande SP), numa rua bastante escondida -- que foi identificada rapidamente pelo sistema, e lá chegamos sem maiores dificuldades. Ou seja: GPS, no Brasil, é uma ótima idéia, mas ainda precisa de aperfeiçoamentos. E a culpa não é da Fiat.
O sedã da Fiat tem quatro versões: 1.9 (manual), 1.9 Dualogic, Absolute (top de linha) e T-Jet, esta última equipada com o propulsor homônimo, um 1.4 a gasolina com turbocompressor capaz de entregar 152 cavalos (a 5.500 rpm) e uma curva de torque bastante plana: 21,1 kgfm, entre 2.250 e 4.500 rpm (veja na imagem nesta página). São números típicos de carros com motor de capacidade maior do que um "mero" 1,4 litro. É essa a leitura que faz a Fiat do conceito de "downsizing", que preconiza motores menores com desempenho superior -- eles seriam vantajosos quanto ao consumo e a emissão de poluentes, mas sem transformar a condução do carro num exercício de tédio.

UOL Carros rodou com o Linea T-Jet por dez dias, priorizando seu uso na cidade. Nas ruas, e durante esse contato mais longo, sabíamos que as virtudes e os vícios do carro apareceriam com mais clareza do que no ligeiro test-drive que fizemos no lançamento oficial, em setembro último, quase todo em estrada.

Por fora, o Linea é um carro bonito. O mérito principal é da vistosa grade dianteira, que acompanha em primeiro plano a curva da carroceria (a rigor, é como se não houvesse pára-choque), e também do conjunto óptico em formato oblongo, posicionado para ficar em destaque quando o carro é visto de lado.

As rodas esportivas de 17 polegadas, calçadas por pneus 205/50, têm acabamento escurecido e são bem agressivas. Tudo isso aumenta a impressão de tamanho do Linea (o carro tem 4,56 metros), e compensa um pouco a traseira algo genérica, que lembra o Vectra e até mesmo o Volkswagen Voyage -- nesse último caso, uma ironia, pois os carros chegaram ao mercado quase simultaneamente.

APERTO NA FRENTE
Por dentro, o Linea T-Jet que experimentamos impressionou melhor que os carros de teste dirigidos no lançamento, os quais qualificamos de mal-acabados. Agora os encaixes das peças estavam justos e não havia rebarbas. Mas não dá para deixar de reparar em alguns parafusos aparentes, e notar que o couro claro (o interior é bicolor) suja com facilidade, e que os espelhinhos nos pára-sóis distorcem a imagem.

Mas o principal problema do habitáculo é o espaço nos bancos da frente. Como mostrou reportagem da Auto Press, nesse ponto o Linea tem a mesma largura interna (1,36 metro) do Siena, o bem-sucedido sedã compacto da Fiat. Por isso, quando acompanhado de passageiro, UOL Carros teve de encolher o braço direito para trocar as marchas sem contato físico. Mas, de modo geral, a posição de dirigir -- uma vez encontrada -- é confortável. A visibilidade à frente é truncada pelo retrovisor interno, que pode até mesmo esconder a presença de um carro mais à direita.

O nível de equipamentos do T-Jet é interessante. Há desde ar-condicionado digital até um completo computador de bordo (que inclui um gráfico para medir a performance do turbocompressor), passando por acendimento automático dos faróis, sensor de chuva e abertura remota do porta-malas (amplo, de 500 litros) na chave canivete. O sistema Blue&Me, com navegador GPS, é de série (leia mais em quadro nesta página).

COMO É DIRIGI-LO
Rodando, o Linea T-Jet se comportou como um 1.0 até a faixa de 2.000 giros, e como um 2.0 (ou maior) ao rompê-la. É nesse momento que o motor 1.4 passa a ser turboalimentado. Quando testamos o carro em setembro, e repetimos que o trajeto quase inteiro foi em estrada, não tivemos nem chance de notar isso -- mas no anda-pára urbano o contraste de desempenho é gritante.

DEBAIXO DO CAPÔ



Gráfico de potência e torque do Linea T-Jet, divulgado pela própria Fiat, mostra com clareza a maior fraqueza do motor: sua falta de ânimo antes dos 2.000 giros, que faz muita diferença na cidade
FICHA TÉCNICA COMPLETA DO LINEA T-JET
Isso provoca alguma situações bizarras. Não é incomum, por exemplo, o Linea cantar os pneus dianteiros quando o turbo entra em ação ainda em primeira marcha -- isso depois de o carro já ter rodado vários metros de forma arrastada.

Também é irritante disparar com o carro quando ele já está bem acordado e, na próxima parada, ter de readministrar a "bipolaridade" do motor até ele ganhar fôlego de novo. As retomadas também ficam bastante prejudicadas. O câmbio manual (não há a opção da caixa automatizada) é outro ponto fraco do trem de força. Mole e impreciso, inibe uma tocada mais esportiva.

(Cabe aqui um comentário: quando avaliamos o Audi A3 com motor 2.0 turbo, também nos referimos a ele como um carro de dupla personalidade -- mas no caso do alemão o motor já tem força de sobra antes do "empurrão" do turbo.)

Tanta briga com o acelerador tem o seu preço, e ele é alto; o Linea T-Jet, que só bebe gasolina, rodou apenas 7 km/l em ambiente urbano. A Fiat anunciou oficialmente uma média de quase 12 km/l nessa situação, mas a "cidade" a que ela se refere dificilmente será parecida com a São Paulo da vida real. A velocidade máxima, também segundo a fábrica, passa um pouco dos 200 km/h.

Na performance geral do modelo, o aspecto que acaba merecendo muitos elogios é a suspensão. Ela foi endurecida na versão T-Jet (a altura, porém, não foi diminuída), mas nem por isso o carro ficou desconfortável: o ganho em estabilidade e segurança, que é percebido até por quem viaja como passageiro, não resultou em solavancos.

O MOTOR NO PUNTO
A Fiat estima que o T-Jet deve ficar com 10% das vendas do Linea. O 1.9 equipado com o polêmico câmbio automatizado Dualogic deteria 40%; o 1.9 manual, 30%; e a Absolute, 20%. Ou seja, a marca não espera muito desse carro -- mas certamente espera muito desse motor. O Punto T-Jet (que provavelmente vai ficar conhecido como Punto Turbo) chega em 2009 com o mesmo propulsor e quase 200 quilos a menos no peso. Com carroceria hatch, mais "jovem" e mais barato, pode virar um sucesso de vendas.

Vale lembrar que a principal crítica dos consumidores quanto ao Linea é o preço. A percepção é a de que esse carro deveria brigar na faixa até R$ 60 mil, e não acima dela, onde encara Civic e Corolla (além do novo Ford Focus). Com valor acima de R$ 75 mil, o T-Jet parece mesmo fadado a virar laboratório e cartão de visitas para seu novo motor.

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