UOL Carros

13/08/2008 - 20h13

Hilux esbanja disposição no off-road e atrai olhares na cidade

CLÁUDIO DE SOUZA
Editor de UOL Carros

Rodrigo Barnabé/Divulgação

Parte do comboio de picapes Hilux na Serra da Mantiqueira (SP)

Parte do comboio de picapes Hilux na Serra da Mantiqueira (SP)

Um comentário recorrente no meio automotivo é o baixo índice de uso da tração 4x4 pelos proprietários de veículos que dispõem do sistema do tipo part-time, ou seja, que não é integral e necessita de acionamento pelo motorista. Estima-se que essa ociosidade chegue a cerca de 90%. Provavelmente porque jamais colocarão seus carros numa situação em que um "traçado" (como dizem os trilheiros) é realmente necessário. Pois não sabem a diversão que estão perdendo. A convite da Toyota, UOL Carros experimentou uma picape Hilux versão SRV cabine dupla (top de linha) com tração 4x4 e reduzida, transmissão automática e motor turbodiesel intercooler 3.0, 16 válvulas, numa seqüência de trilhas na Serra da Mantiqueira, em Campos do Jordão (SP), onde pôde avaliar a performance do veículo ante diversos tipo de obstáculos comuns no off-road -- com exceção de trechos alagados, já que não chovia há semanas em todo o Estado. Também usou um outro exemplar na cidade, por uma semana, para entender seu comportamento num território em que, em tese, a Hilux é uma forasteira.

Rodrigo Barnabé/Divulgação

Tração 4x4 com reduzida e sistema de gerenciamento do diferencial traseiro jogam Hilux na lama
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Na terra e na lama fomos acompanhados por trilheiros veteranos, que, entre outras coisas, aconselham a se aventurar no off-road mais pesado apenas quando houver mais de um carro. Não se trata de uma brincadeira solitária.

Rodrigo Barnabé/Divulgação
Um exemplo de como a roda da Hilux torce em relação ao eixo
A PICAPE NA TRILHA
A Hilux, assim como outros veículos da categoria, possui tração 4x4 optativa, acionável por uma alavanca no console. A mudança pode ser feita com o carro em movimento, preferencialmente com as rodas dianteiras alinhadas. Esse modo é recomendado para pisos com pouco atrito, como estradas de terra. Os dois eixos recebem o torque, e assim as quatro rodas giram por ação direta do motor. E, como são quatro rodas "puxando" o carro, o principal efeito é ele ficar mais estável, e portanto menos propenso a "surpreender" o motorista, além de dispor de mais força para vencer alguns tipos de obstáculo. Em terrenos complicados, como lamaçais e riachos, subidas íngremes e escorregadias, declives pronunciados etc., é recomendável engatar a reduzida (na mesma alavanca no console), que multiplica a força da tração, e só deve ser usada em velocidades baixas. No caso de uma descida de rampa, por exemplo, por maior que seja a inclinação, a Hilux desce "travada" pelo efeito conjugado da reduzida e do freio-motor (com a primeira marcha engatada manualmente), sem que haja necessidade de pisar no freio.

MEDIDAS OFF-ROAD E FICHA
Vão livre mínimo: 21,2 cm
Ângulo de ataque: 21°
Ângulo de saída: 20°
Raio de giro: 5,9 metros (guia a guia) e 6,3 m (parede a parede)
FICHA TÉCNICA COMPLETA
A unidade testada também possuía o LSD, o bloqueio de diferencial traseiro antiderrapante (de série em toda linha Hilux, mesmo nas 4x2), que, apesar da sigla algo infame, não é uma droga: ao contrário, pode ser muito útil, porque evita a transferência de toda a tração do eixo para a roda que eventualmente ficou solta no ar ou sobre uma superfície escorregadia. Para que ela não gire em falso enquanto a outra roda fica parada, o LSD envia força também para a roda no piso duro, e o carro sai da situação de atolamento. Com esses equipamentos à disposição, conduzimos a Hilux por caminhos que um carro comum não conseguiria vencer, pelo menos não sem enfrentar uma dificuldade extrema, e de jeito nenhum sem se "machucar" um bocado.

O macio motor diesel gera 163 cavalos de potência, um valor aparentemente baixo para um veículo de 2,5 toneladas -- mas o mais importante numa trilha é o torque em baixa rotação, e isso o propulsor entrega de sobra: são respeitáveis 35 kgfm numa faixa de giros que vai de meras 1.400 rotações até as 3.200 rpm.

Troncos de árvore, erosão (o chamado "facão", que deixa uma fenda longitudinal na trilha), buraqueiras diversas, pedras de todos os tamanhos no caminho (inclusive soltas), rampas laterais: tudo isso vai ficando para trás sem que a picape reclame. Havia outras Hilux na trilha, e é verdadeiramente fascinante observar como suas rodas (de liga leve, aro 15, calçadas com altos pneus 255/70, adequados para o off-road) torcem fortemente para dentro e para fora da carroceria, e como o curso longo da suspensão (que na traseira possui feixe de molas fixado sob o chassi) permite que a brincadeira termine sem um único arranhão na lataria.

Vale lembrar que a Hilux não é a única picape adequada para o off-road, nem necessariamente a melhor opção com esse tipo de carroceria. Também cumpre observar que, como regra, quanto menor a distância entre-eixos de um veículo, mais chances ele tem de, no off-road, superar obstáculos sem que sua parte inferior "brigue" com o terreno. No caso das picapes Hilux, essa medida é de 3,08 metros (o comprimento total é de imensos 5,25 metros). Para citar um exemplo da própria Toyota, o SUV (utilitário esportivo) Hilux SW4, que também possui tração 4x4 (mas permanente), tem entre-eixos de 2,75 metros. Em tese, o jipão será 11% mais eficiente que sua "irmã" com caçamba.

Murilo Góes/UOL

Linhas da Hilux fazem com que ela se destaque na cidade, mas sua dimensão é um tanto exagerada
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A PICAPE NO ASFALTO
Rodar com a Hilux na cidade é garantir de "se aparecer". A impressão de UOL Carros é de que a picape (desta vez na cor preta) atraiu mais olhares nas ruas que o novo Volkswagen Gol, dirigido poucas semanas após o lançamento. É provável que alguns tenham sido de reprovação: afinal, uma máquina de mais de 5 metros e 2.500 kg estava sendo usada para transportar uma única pessoa... Concordamos: em tempos de trânsito impossível e poluição insuportável, é mesmo um gesto politicamente incorreto ter uma Hilux para usar somente na cidade. Na hora de estacionar, então, sai de baixo -- ou melhor, de trás. Parece que nenhuma vaga foi feita para ela, em lugar nenhum.

Mas outros olhares devem ter sido de admiração: em nossa opinião, as formas da dianteira da Hilux fazem dela a picape mais bela à venda no Brasil, seguida de perto pela Mitsubishi L200 Triton. O conjunto formado por faróis, grade em T cromada (que parece citar o próprio logotipo da Toyota) e entrada de ar do intercooler no capô nos parece imbatível. Por trás, o design é bem mais convencional. A má notícia para quem concorda com isso é que está a caminho um face-lift no modelo (sem data para chegar ao Brasil), que pode ter o efeito de deixá-lo menos atraente.

A Hilux se comporta bem na cidade, até com certa docilidade. A direção hidráulica deixa a picape bem leve, sem com isso perder a precisão no comando das rodas, o que garante agilidade; e, se o piso for bom, como na média das estradas paulistas, os ocupantes terão conforto de sedã médio-grande. No entanto, mesmo irregularidades pequenas (trechos de asfalto ondulado, por exemplo) produzem fortes sacolejos, inevitáveis devido à altura da suspensão. O motor responde bem nas acelerações e nas retomadas, e a transmissão automática nem parece ter apenas quatro velocidades: é raro perceber quando alguma troca é realizada.

PICAPES MÉDIAS: VENDAS*
1º) Chevrolet S10 - 17.520
2º) Toyota Hilux - 12.133
3º) Mitsubishi L200 - 10.899
4º) Ford Ranger - 8.602
*Dados da Fenabrave; acumulado no ano até agosto
Some-se a isso o prazeroso e peculiar ruído do propulsor diesel, e tem-se uma experiência geral muito agradável. E anote os números: obtivemos um consumo urbano aproximado de 6,5 km/l. Ou seja, na cidade a Hilux gasta diesel como um carro flex médio gasta álcool (ressalvando que dirigimos uma unidade zero km). Seu tanque tem capacidade para 80 litros.

Uma útima observação: os R$ 122 mil que a Toyota pede por essa Hilux SRV não têm nada a ver com itens de luxo e acabamento espetacular. Botões dos vidros elétricos e relógio digital são os mesmos que já equipavam o Corolla extinto em 2002, "avô" do atual; o plástico do painel é paupérrimo, e fazem muita falta um computador de bordo e um sensor de estacionamento traseiro comutável. Ar-condicionado digital? Nem pensar. Mesmo a Chevrolet S10 top de linha oferece mais mimos aos ocupantes. O preço alto da Hilux advém do seu tamanho, do motor turbo e de todos os sistemas que a tornam uma competente fora-de-estrada. Também por isso, e por mais tentador que seja "se aparecer", o bom senso diz que o lugar ideal para essa picape é no meio do mato, bem longe da cidade.

Viagem a Campos do Jordão a convite da Toyota, que cedeu os carros para avaliação

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