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05/05/2008 - 13h13

Montadoras viajam nos nomes de cores

Da Auto Press

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Esse C3 é grafite, certo? Não: é Gris Fulminator

Esse C3 é grafite, certo? Não: é Gris Fulminator

A esta hora, alguém deve estar a bordo de um Vermelho Chardon. Quem sabe, de um Bege Savannah. Ou ainda de um Branco Campanella. Há nome mais rebuscados, como Azul Abyssé, Gris Fulminator, Bege Sandstone e Preto Nighthawk. No extenso arco-íris da indústria automobilística, os marqueteiros e designers encontraram mais uma brecha para extrapolarem a criatividade.

Com nomes temáticos, pomposos ou simplesmente que remetem à natureza, substâncias e objetos, as cores dos diferentes modelos ganham alcunhas curiosas e, muitas vezes, inusitadas. Pura logística interna, segundo os especialistas do setor. "Internamente todos conhecem o nome da cor, e todo o fluxo de fornecimento e produção faz uso dela", explica Lucíola Duarte de Almeida, gerente de marca da Ford.

O QUE HÁ NUM NOME?
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Volkswagen Fox na cor Azul Místico
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Chevrolet Prisma Cinza Bluet
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Peugeot 206 Vermelho Luc
Dentro da relação distribuidor-linha de montagem, o uso de nome realmente é mais objetivo que usar os números de registro de cada matiz. Mas, para surgir um Preto Chamonix, um Cinza Scandium ou um Verde Vermont, é preciso uma dose de pesquisa. E de criatividade. Na verdade, as variações de tonalidades em cima de uma cor são criadas e colocadas para apreciação em clínicas com consumidores. As cores mais aceitas, então, ganham a certidão de batismo.

"Com base naquela cor se busca um tema. Mas é preciso que essa combinação soe bem ao pronunciá-la", diz a designer Gabriela Belini, coordenadora de cores e acabamento da General Motors.

Os critérios para escolha dos nomes são variados. A Ford optou por praias e criou um Verde Ipanema e um Cinza Ubatuba, nomes adequados para uma praia de águas esmeralda e um balneário chuvoso. Mas Prata Riviera só se explica pelo som. A General Motors, por sua vez, tenta reforçar brasilidade com nomes de aves em extinção. Foi assim que surgiu o Preto Nothura, nome científico de uma perdiz barrigudinha que, na verdade, é cinza com pintas negras.

Outros se inspiram no próprio idioma do país de origem. É o caso da Peugeot, com Preto Obsidien -- uma linda rocha negra vitrificada -- e Cinza Cendré -- que significa cinza acinzentado... E da Citroën, com Bleu Icare, que evoca o céu azul de Ícaro, o mitológico homem-voador. Talvez pela globalização e de olho no mercado mais emergente do mundo, existe uma variação Bleu de Chine. "Não há um critério ou uma sistemática, o que ocorre é que o nome da 'minha cor' deve ser diferente do nome da 'sua cor', embora possam ser as mesmas. É como nome de filho: se quer ser sempre diferente", avalia o consultor Paulo Roberto Garbossa, da ADK Automotive.

Curiosamente, há variações para o mesmo tom. Em cores vivas, como azul, vermelho e verde, diferenças de matizes são até comuns. Mas em todas as marcas, a maior variante de cores é em cima de tons neutros. É difícil imaginar que um cinza ou um prata tenha tantas variações. Mas, como são essas as cores -- mais o preto -- que mais vendem, as marcas juram de pés juntos que todos os tons existem.

COLORIDAS
A Volkswagen é a marca no Brasil com maior número de opções de cores: 34 no total.
No lançamento do Vectra GT, para divulgação e campanha publicitária, a GM lançou uma cor laranja, mas o tom não é comercializado. O Fiat Punto, por sua vez, é o único da Fiat a dispor de uma opção Laranja Spot.
A cor prata ainda é a preferida do mercado. Entre 40% e 50% dos modelos vendidos no país são desse tom.
O Citroën C4 VTR tem um tom preto exclusivo chamado Noir Obsidian.
Duas marcas japonesas rivais têm uma espécie de série para cores, ou seja, mesmo nome para diferentes tons: é o caso do Mica, que batiza as cores vermelha, verde e preta na linha Toyota Hilux, ou o Verde e o Azul Deep, da Honda.
Os velhos comunistas ficariam confusos. Afinal, o sedã mais caro da Ford, o Fusion, tem um Vermelho Moscou.
É a matriz que batiza os nomes das cores da Peugeot. Mas no Brasil, com medo de ofender sensibilidades evangélicas, a marca abreviou para Vermelho Luc o satânico nome original: Luc era de Lúcifer.
A questão é de tom
A Chevrolet tem quatro tipos de cinza: Bluet, Larus, Meridiu e Evoke. A Volkswagen tem cinco: Urban, Báltico, Cosmos, Platinum e United. Na verdade, são variações entre mais claros e mais escuros, que beiram o preto. Aliás, a Volks conseguiu achar três nomes sugestivos para o preto: Ninja, Light e Mystic. A Ford tem outros quatro tipos de prata: Geada, Enseada, Riviera e Atenas. "Há um banco de dados, como se fosse uma poupança, para que possa vincular cores aos modelos e cujos adjetivos agreguem valor às cores", afirma Marcelo Ferreira, gerente de marketing de produto da Volkswagen.

Apesar de os especialistas garantirem que os nomes das cores não são percebidos pelos consumidores, há uma preocupação com termos, digamos, delicados demais. Até porque o universo automobilístico ainda é bastante masculinizado e machista.

"Busca-se nomes neutros. É preciso ter cuidado com nomes que possam ter dupla interpretação e virar motivo de chacota", ensina Gabriela, da GM. Mesmo assim, a Citroën oferece um tom de preto chamado Perla Nera (pérola negra em italiano). Já a Volks abusou da criatividade ao batizar as cores para o já alternativo New Beetle.

Afinal, o retrô pode ser pintado com um picante Vermelho Salsa ou um frutífero Verde Mango. Há ainda o Bege Harvest Moon, algo como "Lua cheia do equinócio". Isso sem contar um nada discreto Amarelo Sunflower, ou Girassol. Cores, realmente, para todos os gostos e tipos. (por Fernando Miragaya)

CORES TAMBÉM AJUDAM NO CARÁTER DO CARRO
As cores também servem para definir o lançamento de uma linha atualizada, ou uma nova versão de acabamento. São comuns cores diferenciadas para séries especiais. Já quando se fala em carros com aspirações esportivas ou off-road, entram cores mais fortes. Um amarelo Solar Yellow serve ao Nissan XTerra e um Vermelho Aden só é possível no Peugeot 206 Escapade.
Na Fiat, o Amarelo Indianápolis só está disponível para o Palio 1.8 R, e o Vermelho Modena, somente para o Punto Sporting. E se a marca italiana apela para circuitos de velocidade, a Volks faz o mesmo ao batizar de Ímola o amarelo que colore o Golf GTI. "No caso de séries especiais, adotamos as cores que sejam mais coerentes com o produto ou criamos uma exclusividade para o cliente. Quem adquire um veículo de série especial geralmente procura por algo mais exclusivo. As cores também seguem este princípio", explica Carlos Henrique Ferreira, consultor técnico da Fiat.
E quanto mais exclusivo fica o carro em termos de preço, também mais personalizadas são as cores. E esnobes. Basta ver na linha Ford. Enquanto os compactos contam com um insosso Branco Ártico, o comprador do Fusion vai poder dizer que tem um sedã Branco Málaga. O preto do Celta é Liszt, enquanto o do Omega é um misterioso Phantom. A linha Volkswagen Passat tem três tipos de azul: Marinho, Ártico e Cobalto, e um exótico Antracito-Moca. Exótico só no nome, pois trata-se de um tom de vinho. Diferente mesmo é a cor Turquesa que a Toyota escolheu para o Camry. Exclusividade, pelo visto, não é sinônimo de sobriedade nos sedãs.

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